Clube de "torcedor solitário" sonha com arena e quer ser a "Chape do Rio"

  • Divulgação/Twitter

    Daniel Oliveira ganhou notoriedade ao ser único torcedor em jogo do Angra dos Reis

    Daniel Oliveira ganhou notoriedade ao ser único torcedor em jogo do Angra dos Reis

Duas horas e quinze dentro do ônibus, 140 quilômetros de distância. As pernas de alguns já começavam a cansar quando a delegação do Angra dos Reis Esporte Clube finalmente chegou no estádio para enfrentar o Duquecaxiense. O estádio Giulite Coutinho, em Mesquita (RJ), estava tão vazio que até parecia que não haveria jogo ali. E não teria mesmo...

"Atenção, time. Um comunicado rápido. Erramos o estádio", disse o motorista.

O piloto, como aquele zagueirão que falha feio, levantou a mão e assumiu a culpa. O estádio correto, o Joaquim Flores, ficava a 1,1 quilômetro e o engano fez surgir o risco de WO, por atraso. A situação era tensa... Não para o estagiário que cuida das mídias sociais do Angra: "@FFERJ (Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro) Já estamos a caminho da cancha correta! Segura esse WO aí, @FFERJ, já estamos chegando!". O time chegou poucos minutos antes do horário da partida, marcada para 15h, entrou no campo às pressas e ainda ganhou por 1 a 0. Muito carisma.

O Angra dos Reis EC virou mania na internet por conta de sua irreverência nas mídias sociais, arrebatando muitos fãs e curtidas. O episódio do ônibus aconteceu nesta segunda-feira, mas não foi o primeiro fato inusitado retratado de forma bem humorada pelas páginas do clube. A fama recente do Angra começou há três semanas, quando o jovem Daniel Oliveira, de 19 anos, encarou quatro horas de viagem até Olaria, bairro do Rio, e foi o único torcedor do time visitante na arquibancada da Rua Bariri. Essa saga para ver Ceres x Angra às 15h de uma segunda-feira foi divulgada divertidamente pelas redes do Angra durante o jogo e viralizou. O Angra goleou por 4 a 0, o torcedor gritou olé sozinho, e o clube, de uma hora para outra, virou símbolo do "futebol raiz".

 

Mas seria o Angra dos Reis o "novo Íbis", o "pior time do mundo" do século 21? A resposta é não. O LANCE! conversou com o diretor de futebol do Angra, Roberto Gilvaz, e o dirigente afirma: a meta é ser uma "nova Chapecoense". A equipe da região sul fluminense lidera, após quatro jogos, o grupo A do primeiro turno do Campeonato Carioca Série B2, o equivalente a terceira divisão estadual. Apesar de todo o folclore, o clube tem planos ambiciosos.

 

"Nosso estádio tem capacidade para 3,5 mil pessoas e a media de publico é 300 torcedores, mesmo com ingresso a R$ 10. Mas, depois dessas ações nas redes sociais, é nítido que aumentou o interesse pelo clube. É um trabalho bacana desses meninos (estagiários), que fazem isso por amor. São quatro meninos que cuidam de tudo, sem salário. Estamos ganhando admiradores do país todo, gente que nem sabia que existia futebol em Angra. Angra é um recanto de turismo, de milionários, mas a gente não consegue colocar isso em prol do clube pela falta de divulgação. Essa exposição que estamos tendo está sendo boa, as pessoas daqui estão tomando conhecimento do clube, o clube está se tornando carismático. Já estivemos na segunda divisão do Estadual, perto de subir para a primeira por duas vezes. É fundamental atrair mais público e mais investidores. A intenção é criar em Angra uma Chapecoense, uma "nova Chape", um clube com boa gestão, que veio das divisões inferiores e tem carisma pelo que construiu. Em termos de cidade não é difícil, pois Angra tem tamanho suficiente para formar um bom time", disse Roberto Gilvaz.

O faturamento do Angra é modesto. É o suficiente para manter um elenco com média salarial de R$ 2 mil. Com a fama na internet, o clube foi procurado por diversas empresas interessadas em parcerias, porém nada foi acertado ainda.

"Algumas empresas demonstraram interesse de falar com a gente, de saber um pouco mais de como funciona o clube, de que maneira poderiam estar presentes conosco. Porém, o que dificulta é que já estamos com o ano na metade. Essas coisas de patrocínio demandam uma iniciativa planejada, para que as empresas se programem no orçamento. Mas estamos conversando com algumas empresas, buscando alguma verba que venha nos ajudar para já", comentou Roberto Gilvaz, pedindo ajuda aos empresários de Angra:

"A gente conseguiu sensibilizar a NET Angra, que nos dá uma ajuda financeira. Se a gente tivesse várias empresas ajudando um pouquinho, conseguiria montar um elenco mais forte, fazer categorias de base abaixo dos juniores, dar condições melhores aos nossos atletas. Se bem que a gente vai de ônibus para os estádios. Tem time da nossa divisão que vai de van. Mas nosso projeto é fazer o Angra ficar grande. A gente sabe que tem empresas na cidade que podem ajudar o time do município. Estamos aparecendo e elas estão começando a ver. Estamos subindo os degraus aos poucos, mas sempre com firmeza, para chegar onde a gente quer. A gente quer chegar na primeira divisão do Rio, em uma divisão nacional, começando na Série D".

As redes sociais do Angra dobraram de tamanho nas últimas semanas. O perfil no Facebook pulou de 2,5 mil seguidores para 5 mil. No Twitter, os números são quase os mesmos. Para o futuro, o clube pretende dar outro salto: no número de torcedores no estádio. Roberto Gilvaz revela que o Angra vislumbra jogar em uma arena para 25 mil pessoas, construída pela prefeitura. O projeto do estádio já está esboçado e o município agora busca de investidores para tocar a obra. Não há previsões em pauta, mas o cartola se enche de otimismo:

"Seria um estádio municipal, que ficaria cedido para a gente. Esse projeto já está em andamento, já vi o croquis da arena. Ainda não tem data de começo das obras, nem previsão de entrega, mas existe o interesse da prefeitura em fazer essa arena. Seria incrível ter um estádio desse patamar. Acontecendo, a gente pode sediar grandes jogos. Seria ótimo para a região. Angra está a uma hora e meia do Rio, de carro. Imagina a gente fazer um Angra x Vasco, Angra x Flamengo, misturando futebol e turismo... Seria um evento para a cidade", disse.

Enquanto não chegam os sonhados duelos contra os grandes times, o Angra tenta aparecer com jogadores que já passaram pelos clubes de maior investimento. A equipe tem dois "medalhões": o atacante Fábio Saci, de 35 anos, ex-Bahia, Vitória e Santa Cruz, e o meia Abedi, de 38 anos, ex-Vasco e Botafogo. Cada um deles tem salário de R$ 5 mil, o máximo no teto do clube.

"Eles são os nossos pilares, aqueles jogadores que fazem a torcida comparecer no estádio. A gente sempre tem que ter um atrativo para a cidade, e são atletas que estão empenhados. Ambos são titulares", detalhou Roberto Gilvaz.

O Angra dos Reis Esporte Clube foi fundado em 1999 e já teve até o atacante tetracampeão mundial Viola, que aos 39 anos, disputou a segunda divisão do Carioca de 2008 pelo clube. Um ano antes, o atacante Bruno Rangel, vítima na tragédia com a Chapecoense, era o centroavante do Angra, aos 26 anos.

"Somos um clube jovem, mas organizado. Queremos aproveitar nosso bom momento. Com a gente se mantendo na liderança, a tendência é que o estádio fique cada vez mais cheio. A gente quer motivar a cidade, para que a cidade abrace o time. A gente quer crescer e ser vitorioso", finalizou Roberto Gilvaz.

O próximo jogo do Angra será neste domingo, às 15h, fora de casa, contra o Rio São Paulo. O duelo está marcado para o estádio de Los Larios [Estrada Rio D'ouro, 3855 - Xerém, Duque de Caxias (RJ)]. Anota o endereço aí, motorista!

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