Com muita correria e autógrafos, Lulinha celebra boa fase no futebol coreano: 'No Brasil estaria voando'

Faz aproximadamente um ano que o meia-atacante Lulinha trocou o futebol brasileiro pelo coreano. Após dificuldades de adaptação e os embates com a nova cultura, o jogador vive momentos de tranquilidade dentro e fora de campo. Situação fora do comum para quem se acostumou desde cedo à pressão do futebol.

Em entrevista ao LANCE!, Lulinha, atualmente no Pohang Steelers, da Coréia do Sul, fez um balanço desse período em território asiático, de onde, por enquanto, não pensa em sair, mesmo que bata a saudade de casa.

- Ah, eu sinto falta porque sou brasileiro, acompanho muito os campeonatos no Brasil, Série A, Série B, tem a família também, mãe e pai... É claro que a gente sente falta, mas estou buscando meu futuro pela Ásia, aqui na Coréia, depois de um certo tempo a gente acaba pensando mais e vendo que a gente não trabalha só para a gente, mas para eles que estão no Brasil também, para garantir um futuro melhor - contou.

Titular de um dos maiores clubes do país, e o maior ganhador da Liga dos Campeões da Ásia, com três taças, o meia que teve como último time no Brasil o Mogi Mirim, na disputa do Paulistão-2016. Embora esteja em uma agremiação considerada grande na região, não sente as cobranças de fora, como acontece no futebol brasileiro. No entanto, ele alerta para os perigos dessa tranquilidade.

- Tem os dois lados, né? Aqui a gente não tem essa cobrança de torcida, de imprensa, mas eu me cobro muito, pelo resultado, pelo meu crescimento individual, então é isso que me motiva mais aqui pra eu poder estar cada vez melhor, eu já tenho cinco gols no campeonato, então eu quero fazer mais cinco, quero dar mais dez assistências. Não posso me acomodar, porque se acontecer isso, fica difícil. Aqui, se você dominar a bola e ficar três segundos com ela, já tem um cara te marcando, não é igual ao Brasil, que você consegue virar, tocar a bola, aqui é coisa rápida, tem que pensar muito rápido. A gente usa muito a nossa técnica de drible, para pode sair da marcação. Coisa de brasileiro que o coreano não tem tanto - explicou.

Dez anos após a sua estreia como profissional, pelo Corinthians, o meia não vê a cobrança depositada em seu futebol desde a base como fator principal por não ter alcançado o sucesso esperado em seu clube formador.

- Cobrança é normal ter, ainda mais jogando em um clube grande, com torcida, mas eu não vejo isso como algo que me atrapalhou, foi mais o momento que eu subi, o momento da equipe, o momento que o clube estava passando, porque você subir em uma equipe estruturada, em uma equipe certinha, você só se encaixa. Mas subir em uma equipe que não está muito bem, que já estava caminhando para o descenso, aí é mais complicado de se encaixar - relatou.

O início na Coréia, porém, não foi fácil, a adaptação aos novos hábitos, ao novo país e a um novo estilo de jogo, levou um certo tempo, o que fez com que a temporada anterior não tivesse sido tão bem aproveitada. Dessa vez a tranquilidade e a paciência dos envolvidos no futebol coreano foram essenciais para que Lulinha pudesse iniciar o ano de 2017 com outra perspectiva.

- No ano passado eu tinha chegado no meio da temporada, estávamos no meio da competição, como agora. Era outro treinador, tinha a adaptação, como eu disse, é muito difícil, muito complicado. Neste ano eu já comecei fazendo a pré-temporada junto com eles, fomos para Bangkok, na Tailândia, ficamos por lá um tempo fazendo a preparação. Pude ter uma noção do estilo de jogo que o treinador gosta, ele conversou comigo, me falou a forma que ele queria que eu jogasse, e eu entendi muito bem, isso foi importante para poder jogar todos os jogos neste ano. O time está bem, brigando pelas primeiras posições, pude fazer gols, dar passes... Graças a Deus eu venho muito bem - afirmou.

A principal diferença para o futebol brasileiro notada por Lulinha nesse período na Coréia do Sul foi o estilo de jogo mais físico, com treinos pesados e que exigem muita correria e rapidez de raciocínio. Com a ajuda de um preparador físico brasileiro na comissão técnica do time, Lulinha diz estar 'voando'.

- A gente até brinca com o preparados físico: "Se a gente voltasse para o Brasil hoje, eu estaria voando", porque a gente corre muito, fisicamente estaria muito bem mesmo, porque se treina muito, não tem tantos jogos e você fica mais preparado para o dia do jogo, você joga uma vez por semana. No Brasil domingo tem jogo, depois quarta de novo. Não tem como treinar, você só faz manutenção, aqui não, aqui tem a semana toda para melhorar essa parte física, essa parte de força, por isso que os jogadores correm muito - finalizou.

Lulinha e o Pohang Steelers entram em campo neste sábado, às 6h (horário de Brasília), para enfrentar o Jeju United, pela 16ª Rodada do Campeonato Coreano. Com 25 pontos, o Pohang ocupa a 3ª posição da tabela, atrás do Ulsan Horang, com 28, e do Jeonbuk Motors, com 31 e líder da competição.

Confira a entrevista completa com o jogador:

BATE-BOLA - LULINHA, MEIA DO POHANG STEELERS

Que balanço você faz depois de um ano de Coréia do Sul?

Para mim está sendo muito bom, claro que no começo foi mais complicado, por causa da adaptação à língua, ao estilo de jogo, que é muito diferente do que a gente está acostumado no Brasil, mas depois desse período, de uns quatro ou cinco meses, tem sido muito bom. A equipe se reforçou muito bem para este ano, eu estou mais adaptado ao país, à língua, à cultura, ao estilo de jogo, principalmente, o que facilita muito para a minha continuidade aqui.

Como faz para ser virar com a língua?

Em coreano são pouquíssimas palavras, tem que ser mais no inglês. É dessa forma que a gente tem que se comunicar com o pessoal aqui.

A língua foi uma dificuldade muito grande para você superar nesse tempo?

Com certeza, o estilo de jogo também, que é bem diferente do nosso, tanto taticamente quanto na velocidade, eles correm muito aqui. A língua principalmente, é muito diferente, e no futebol você precisa falar muito com os companheiros, isso atrapalhou, mas já está mais tranquilo.

O que você tem achado do país?

Muito bom, bem tranquilo, violência zero, preocupação de roubo, essas coisas que acontecem no Brasil, é zero mesmo. O pessoal é muito receptivo, na medida do possível, pela questão da língua, mas eles sempre tentam falar com a gente, alguns que falam inglês, tentam se comunicar com a gente pra poder ajudar na adaptação.

Quando você recebeu a proposta para jogar na Coréia, você já tinha ideia do que iria encontrar?

Eu já tinha vindo para a Coréia para jogar dois campeonatos com a Seleção, o Mundial sub-17 foi aqui, já estive no Japão algumas vezes, claro que você jogar e passar 20 dias é diferente de viver no país, mas já tinha ouvido falar muitas coisas boas de alguns outros jogadores que estiveram e moraram por aqui. Eu também tinha um desejo de jogar nesse mundo asiático, até pela cultura deles, que tem mais paciência do que brasileiro, por exemplo, eles esperam mais a adaptação de quem vem de fora, então isso é importante para a gente.

Você disse que o futebol aí é bem diferente do que é jogado aqui no Brasil. Teve que mudar alguma coisa do seu estilo para poder atuar com mais frequência?

No Brasil é um futebol muito técnico, até pelas características dos jogadores, é muita habilidade. Aqui é muita correria, taticamente eles obedecem muito bem, foi mais nesse estilo de obedecer o treinador, até porque não dá para sair muito de sua característica, porque você perde o jogador, então foi mais uma obediência tática para poder jogar mais.

Como foi a sua conversa com o novo treinador do Pohang?

Pela cultura dos coreanos e pelos brasileiros que estão aqui, nós pegamos um treinador muito bacana, porque dá liberdade de o pessoal chegar mais nele e falar que gosta de jogar mais assim ou de outro jeito, mais por dentro, mais por fora, mais aberto... Ele dá essa liberdade, e isso que tem me ajudado e ajudado o time a crescer aqui na Coréia.

Como é a torcida aí? Eles pressionam, como reagem?

Aqui é bem tranquilo, você perde o jogo, o pessoal está lá fora, são muito fãs mesmo de futebol, claro que outros esportes são preferidos, mas gostam muito de futebol também. Eles respeitam muito quando você tem uma derrota, eles entendem que você se esforçou, deu o máximo para conseguir uma vitória, que infelizmente não aconteceu. Quando acaba o jogo tem muita gente lá fora pedindo autógrafo, pedindo para tirar uma foto e a gente sabe que isso não é natural aí no Brasil, se perde, dependendo do jogo tem que sair com polícia.

Você tem dado muitos autógrafos por aí, então?

Demais, demais. Eles são muito fãs, gostam muito, principalmente as crianças, eles fazem muitas ações sociais, vão até escolas, asilos, fazem muito disso. Quando eu vou, é muito autógrafo mesmo.

Esse carinho fora de campo faz diferença pra vocês?

É importante para a gente, quando saímos na rua, uma criança pede foto, a gente se sente reconhecido, porque a gente trabalha a semana toda, pesado, treina muito, tem dia que a gente treina demais mesmo, para que a gente seja reconhecido no dia do jogo. Isso acontece muito aqui, eles reconhecem seu esforço, quando você dá um carrinho, eles aplaudem, reconhecem que você está dando a vida dentro de campo.

Eles se identificam muito com isso, né?

Exatamente, eles são muito da vontade, da força, e quando você mostra isso dentro de campo, eles ficam bem contentes mesmo.

Há uma pressão por disputar torneio continentais como temos por disputar a Libertadores?

A cobrança que a gente tem por aqui é mais interna, em termos de diretoria, porque é um clube grande, sempre briga pela parte de cima da tabela. O ano passado foi atípico, porque brigamos na parte de baixo da tabela e eles têm essa meta de pelo menos chegar na Champions da Ásia, que é muito importante para a região, então o objetivo é sempre esse, estar entre os três ali em cima. Neste ano montaram um time muito bom, coreanos experientes também, porque aqui a gente pode contar só com três estrangeiros, então os coreanos que chegaram são muito bons para nos ajudar e por enquanto a gente tem ido muito bem, não estamos em melhores condições na tabela por conta de besteiras nossas mesmo, mas era para estarmos mais na frente ainda. Agora vamos para a segunda parte do campeonato e continuar brigando, porque o importante é estar ali no bolo.

Você disse que os treinos são pesados por aí. São mais pesados do que no Brasil?

Ah, muito mais (risos). Até porque o número de jogos é menor aqui, no Brasil se joga muito, são muitos jogos, então a gente treina forte, treina demais mesmo. Graças a Deus nós pegamos um preparador físico brasileiro, isso nos ajuda muito, porque se pegássemos um preparador coreano, nós iríamos correr a vida toda, porque o negócio deles é correr (risos). O preparador brasileiro ainda fala "isso não vai ser bom, vamos segurar um pouco para descansar os caras", mas se fosse por eles, seria treino físico direto.

Então é bem diferente dos países do Oriente Médio?

Com certeza, na Europa se treina muito pouco também. Eu joguei em Portugal e se treina muito pouco, por isso que muitos jogadores levam preparador físico, na China pelo que eu fiquei sabendo, também não treinam muito, treinamento não é muito bom, também levam preparador físico, até mesmo fisioterapeuta para cuidar... Mas aqui não, aqui se treina bastante.

E fundamentos como chutes, passes, cruzamentos... Eles treinam?

Demais, demais também! Eles treinam de tudo, treino físico é físico mesmo, forte, treino de fundamento e tático a mesma coisa.

Acho que faz parte de uma filosofia deles para virar um potência no esporte, né?

Eles têm esse objetivo, tivemos aqui o Mundial sub-20, eles estavam muito confiantes de brigar lá frente, foram eliminados um pouco antes, mas eles continuam tentando melhorar no ranking. Agora, tem muita coisa que eles precisam mudar, se não não vai ter como, mas é cultura, não dá para chegar e querer mudar. Estamos no país deles e temos que nos adaptar a eles e não o contrário.

Aos poucos você também vai tentando impor seu estilo...

Exatamente, foi o que eu falei para o treinador, não tinha como eu mudar muito meu estilo, porque caso contrário eu não poderia ajudá-los, porque quando eles me viram, foi jogando dessa forma, então tenho que continuar jogando assim, mas claro, posicionamento, essas coisas que ele quer que eu faça, eu tento melhorar cada dia mais.

Você é um cara esclarecido, que consegue entender a dinâmica do processo e arranjar soluções nas dificuldades, mas tem jogador que desiste...

Ah tem muito estrangeiro que joga muita bola e não dá certo, tem muito brasileiro que não deu certo aqui e está arrebentando no futebol aí do Brasil, até o próprio Éverton, do Flamengo, ele veio para cá e não jogou, é um cara que corre muito, que taticamente é muito bom para o clube, mas não jogou aqui. É questão de tentar entender e tentar não fugir muito daquilo que você é e da característica do seu jogo.

Vocês também precisam se dar um tempo, né? Vocês mesmo se cobram pelos resultados...

A gente tem um problema que é não ter uma cobrança da torcida, de imprensa, mas o clima é muito ruim entre os jogadores quando perdemos um jogo, dentro do vestiário eles sentem muito a derrota, fica aquele clima pesado durante a semana, você não vê a hora de jogar outro jogo para recuperar, para tentar mudar o quadro, a situação, porque quando ganha, muda tudo.

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