Relatório da Fifa cita vantagens indevidas dadas a Ricardo Teixeira

A Fifa divulgou nesta terça-feira um aguardado relatório, que traz o resultado das investigações sobre o processo de escolha das sedes das Copas do Mundo de 2018 e 2022. No documento, que é longo, o ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira, é citado várias vezes como sendo um dos beneficiários de vantagens indevidas durante o período de candidatura.

Segundo os relatos, Teixeira recebeu regalias, por exemplo, na negociação envolvendo o amistoso da Seleção Brasileira no Qatar, país que viria a ganhar o direito de sediar o Mundial de 2022.

O documento cita que "a prima facie" (expressão em latim que significa à primeira vista), o Comitê de Ética da Fifa poderia enquadrar Ricardo Teixeira, mesmo com o brasileiro já tendo renunciado às funções no futebol em 2012. As violações seriam dos artigos que tratam de regras de conduta, lealdade, conflitos de interesse, aceitação de presentes e outros benefícios, suborno e corrução.

O relatório cita ainda que apesar de Teixeira ter aceitado as regalias em Doha, no Qatar, "os fatos e circunstâncias ao redor dos contratos dos direitos comerciais da CBF são de longe mais sérios".

O chamado "Garcia Report", em alusão ao chefe da investigação, Michael Garcia, que presidiu a câmara investigatória do Comitê de Ética da Fifa, só foi publicado pela Fifa porque fora vazado irregularmente a um jornal alemão. Assim, a entidade resolveu, nas palavras da própria Fifa, "evitar a disseminação de informações equivocadas". Para compilar o relatório, vários dirigentes foram ouvidos, mas Teixeira não foi um deles.

Em relação à candidatura do Qatar e o processo de negociação do amistoso do Brasil contra Argentina no Oriente Médio, o relato dá conta de um encontro do Emir daquele país no Rio de Janeiro. O local escolhido sempre foi uma "segunda casa" de Ricardo Teixeira: o Itanhangá Golf Clube. Lá estiveram também os então presidentes da AFA, Julio Grondona, da Conmebol, Nicolás Leoz, além do ex-presidente da Fifa, João Havelange.

Sobre o acerto para que o amistoso Brasil x Argentina fosse realizado no Qatar, a investigação pegou como pressuposto matérias que diziam de um suposto recebimento de US$ 7 milhões por parte da CBF. Mas a Fifa não comprovou esse pagamento e ainda disse que o dinheiro que circulou para a realização do jogo (em 17 de novembro de 2010) foi bem menor. Ao mesmo tempo, o relatório pontua que "as provas levantam questões sobre o propósito e beneficiários de certos pagamentos". Por ocasião da partida, o relatório cita o tratamento "VVIP" que Teixeira, esposa e filha receberam no Qatar, ficando em suítes de hotel com mais requinte do que os próprios jogadores da Seleção.

Em relação aos contratos de direitos comerciais da CBF, que são "de longe mais sérios", o relatório detalha como funcionava a relação com a Kentaro, ex-responsável pela exploração dos amistosos da Seleção. E traz ainda o acordo com a ISE, braço do Dallah Albaraka Group ("DAG").

É depois desse acordo que surge a Uptrend Developments, empresa de Sandro Rosell, atualmente preso na Espanha pela suspeita de receber propina na exploração dos amistosos da Seleção. O Garcia Report cita que a Uptrend recebeu um total de US$ 8,3 milhões de dólares, referentes a 24 amistosos da Seleção. O contrato, no entanto, não obrigava a Uptrend a vender qualquer evento ou fazer qualquer coisa significativa para os amistosos da Seleção, ficando com a ISE a responsabilidade de organizar, promover e transmitir as partidas.

Por falar em Rosell, o documento cita a transferência de 2 milhões de libras para uma conta da filha de Ricardo Teixeira, em junho de 2011, quando ela tinha 10 anos. Segundo Andreas Bleicher, consultor da campanha Qatar 2022, isso não teve relação com a eleição para sede da Copa e se tratava de uma coisa "completamente privada entre Rosell e Teixeira". Bleicher acrescentou aos investigadores que "algumas pessoas fazem coisas por motivo de impostos".

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