Por Tríplice Coroa, Dracena não quer prioridade de torneios no Palmeiras

  • Sebastião Moreira/EFE

Libertadores, Brasileiro ou Copa do Brasil? No frenético calendário brasileiro, qual das três competições o Palmeiras deveria priorizar? Melhor perguntar para quem entende do assunto... "Eu não gosto de priorizar nenhum campeonato. Quando você prioriza um, acaba deixando de lado a oportunidade de ganhar outro. E acho que o Palmeiras está com esse pensamento, como Cruzeiro de 2003 também estava", diz Edu Dracena, o "senhor dos títulos" do Palmeiras.

Com Dracena na zaga, o Cruzeiro de 2003 faturou Mineiro, Copa do Brasil e Brasileirão. Com Dracena na zaga, o Palmeiras de 2017 sonha com uma Tríplice Coroa ainda mais incrível, com Libertadores, Brasileiro e Copa do Brasil. Nesta última, inicia as oitavas de final justamente contra a Raposa, às 21h45 desta quarta-feira, no Allianz Parque.

Poupado no jogo contra a Ponte Preta, no fim de semana, o camisa 3 será titular. Ele é o único atleta à disposição de Cuca que tem os títulos das três competições que o clube está disputando no currículo. Arouca, o único outro componente do elenco que atingiu tal feito, está machucado.

"Acho que tem outros aí, né? Ou não? Pô, é o que eu falo... Às vezes a gente não tem a noção do que já conquistou. Você só vai ter a noção quando parar: "Pô, cara, ganhei isso, ganhei aquilo". Aí a gente vê o quanto é difícil chegar, cara. Não é fácil, não", refletiu Dracena, que segue com a mesma fome de 14 anos atrás:

"Faz tempo (risos). Mas acho que não mudou quase nada em mim, cara. A vontade de vencer continua a mesma. A vontade de estar aqui, jogando, treinando e competindo, continua igual. É lógico que você acaba perdendo um pouco do fôlego, não é o mesmo da molecada, mas por outro lado você tem mais experiência. Acho que não mudou quase nada, e quanto mais título eu puder ganhar na carreira, melhor para mim. Em breve eu posso me aposentar e quero ficar cada vez mais marcado aqui no Palmeiras", disse.

Confira a entrevista completa com Edu Dracena:

LANCE!: Você vê semelhanças entre o Cruzeiro de 2003 e o Palmeiras de agora?
Edu Dracena: Na época o Campeonato Brasileiro tinha 24 times, 42 rodadas, e nós fizemos 100 pontos, mais de 100 gols. Foi com jogo quarta e domingo também, precisou bastante do elenco. O Cruzeiro tinha um planejamento naquela época como o Palmeiras tem hoje, tanto que o Zinho era banco do Alex. Sai um e entra outro com a mesma característica. Acho que a gente tem tudo para conquistar, mas temos que ir jogo a jogo, fazendo sempre o nosso melhor.

Ficou um carinho especial pelo Cruzeiro?
Cara, uma vez eu fui para lá e o Mineirão todo gritou meu nome depois do jogo. Essa imagem ficou gravada na minha cabeça. Eu tenho um carinho, um respeito muito grande pelo Cruzeiro. Tenho uma história bonita lá, conquistei cinco títulos pelo clube e deixei minha marca, isso é o mais importante. Agora é outro momento, outra época, defendendo o Palmeiras em um mata-mata. Estamos procurando não priorizar, mas ter um foco a mais nesses jogos de mata-mata para não sermos surpreendidos, até porque é um caminho mais curto para um título e para se manter na Libertadores ano que vem.

Você estava no Santos quando foi aplaudido?
Sim, foi em 2010. Eu não esperava, foi surpreendente. Foi a primeira vez que retornei a Belo Horizonte para jogar lá e foi emocionante, me deixou marcado.

Ter esse respeito das torcidas dos clubes que já defendeu é algo que você valoriza, não é?
Foi natural. Meu método de trabalho e meu pensamento são o de fazer o melhor para o clube em que estou. Hoje estou no Palmeiras e vou dar a vida pelo Palmeiras. É por isso que sou respeitado onde vou, porque sempre que vesti uma camisa eu procurei fazer o meu melhor, conquistar títulos. Isso fica marcado, realmente, e acho que o respeito das pessoas comigo vem por isso. E também não gosto de ficar entrando muito em polêmica com rival, aquela coisa. Eu procuro não falar muito, procuro jogar mais do que falar. E outra coisa é que quando joguei contra meus ex-clubes eu sempre joguei bem, então isso às vezes fica marcado também para os torcedores. É por aí, na minha vida profissional e na minha vida pessoal sempre procurei respeitar a todos. Nunca precisei pisar em ninguém para chegar onde cheguei, por isso que hoje sou respeitado por todos os torcedores, em todo lugar que vou.

Você já começou a pensar na vida pós-aposentadoria?
Estou vivendo ano a ano. Renovei agora com o Palmeiras até 2018, era o que eu queria, e até dezembro do ano que vem com certeza vou ter muito fôlego ainda. Depois a gente vê o que acontece, porque é difícil planejar alguma coisa nessa vida de jogador. Você vive ano a ano, e é o que procuro fazer, viver intensamente todos os momentos, até porque você vai chegando a uma certa idade e uma hora vai ter que parar. Eu quero ficar no meio do futebol, sabe? Não quero ser treinador, mas posso ser, sei lá, um auxiliar técnico do clube, ou ser companheiro de vocês como jornalista, comentarista, lógico que depois de estudar e se preparar para não fazer feio. A gente procurou não fazer feio no futebol e não vai poder fazer feio depois, né? (risos)

Por que não quer ser técnico?
Eu quero ter uma vida mais estável, não quero ficar viajando muito, até porque deixei muito a minha família de lado, meus filhos. Quero viver para eles um pouco. E no Brasil é difícil, principalmente quando você é treinador e fica um mês em cada canto. Não teria como ficar levando a família, ficaria longe, e não quero mais isso para minha vida.

E dirigente?
De repente, se chegar a 10% do que é o Alexandre e conseguir ficar dois, três anos em um clube, tudo bem.

O Alexandre Mattos é muito elogiado aqui entre vocês, não é?
Ele é tudo isso que vocês ouvem e mais ainda. O cara vive 24 horas para o clube, tem uma visão bem aberta, antevê as coisas que podem acontecer em termos de contratações, de negociação. Ele se preparou para isso, fala várias línguas, é respeitado no Brasil e na Europa, o pessoal liga para ele. É um cara para ser espelhado.

O lado famoso dele é o negociador, mas como ele é no dia a dia com vocês? Como é a parceria com o Cícero Souza, gerente de futebol?
Os dois se completam, né? O Alexandre é mais impulsivo. Não que seja um defeito, pelo contrário. E o Cícero é um cara mais pés no chão. Quando você está precisando de alguma coisa, você liga para o Alexandre e ele tenta fazer o máximo. E quando as coisas não estão acontecendo ele chama a gente ali e dá bronca mesmo, não importa em quem seja, ele chama atenção como tem que ser.

Em outros clubes, você já viu uma estrutura como essa montada pelo Palmeiras?
Aqui é o melhor que já vi, cara. É primeiro mundo em termos de aparelhos, em termos de estrutura compacta... A concentração está aqui, você desce e já está na academia, no refeitório. Ficou muito bom, muito bom mesmo. O Palmeiras merecia uma estrutura como essa. O maior patrimônio que um presidente pode deixar, além dos títulos, é lógico, é uma estrutura dessas, que vai ficar para o resto da vida se for bem cuidada.

Quando tudo funciona, com boa estrutura física e bons profissionais, o título fica mesmo mais perto? Ou o futebol é imponderável?
No futebol, é o seguinte: se você fizer tudo certo, você não tem certeza que vai conquistar, então você tem que minimizar os seus erros. Minimizando os erros, trazendo profissionais de capacidade, ajuda, mas não dá a certeza de ganhar. Tem times que se prepararam também, talvez não da mesma forma que você, mas são 90 minutos que decidem uma classificação, uma final. Mas o que o Palmeiras tem aqui ajuda bastante a estar sempre perto de um título, seja Brasileiro, Libertadores, qualquer um.

O Palmeiras venceu os últimos três jogos e enfim parece estar engrenando na temporada. O Cuca voltou, trouxe com ele o Cuquinha e o Eudes Pedro, e agora o Alberto Valentim voltou também... Vocês estão começando a reviver 2016?
O Cuca tem uma maneira de trabalhar dele, gosta de dar oportunidade para todo mundo, e isso é bacana. Todo mundo tem que estar sempre preparado, porque ele não avisa quando vai te colocar. O cara tem de estar sempre 100% e isso é legal. Tomara que a gente possa reeditar o ano passado, com o retorno dele, do Alberto, do Cuquinha... Ele não teve tempo como teve ano passado, mas está conseguindo os resultados.

Você tem ficado fora de alguns jogos, principalmente fora de casa. Como é esse cronograma?
A gente está fazendo um trabalho para eu estar 100% quando entrar em campo. Eu, a comissão técnica, o Cuca, todos estão integrados nesse diálogo para eu estar sempre podendo ajudar a equipe.

E está satisfeito com o seu rendimento?
Contra o Inter houve dois lances que não foram como a gente gostaria, mas de resto eu venho mantendo uma sequência muito boa, ajudando a equipe, e fico muito feliz. Se eu estiver bem, isso acaba refletindo nos meus companheiros também. A gente está fazendo um trabalho de poupar em alguns jogos para estar sempre 100% quando for jogar. Ninguém vai conseguir jogar de quarta e domingo e estar sempre 100%. Se você não estiver tão bem, acaba prejudicando não só o seu futebol, como a equipe também. Estamos fazendo um trabalho bem diferente nesse ano, e estou mantendo um nível de atuação muito bom quando jogo.

Como é sair do time e ver um Luan, um Juninho entrando? A concorrência não te deixa aflito ao ficar fora?
Eu sempre falo que a posição nunca está garantida, pelo contrário. Tem uma disputa sadia diária entre nós, e acho que isso é bom, porque acaba elevando o nível técnico de todos. Todos sabem que não pode dar brecha, porque sempre vai ter um outro para aproveitar a oportunidade. A gente precisa do grupo e está mostrando isso, os jogadores que estão entrando estão indo bem e isso nos deixa feliz. É bom para o Cuca saber escolher quem pode ser mais útil em cada momento.

Você, mais experiente, já conversou mais a fundo com os dois, que acabam de chegar?
A gente conversa no dia a dia sobre algumas jogadas, essas coisas. Por mais que sejam jovens, eles já são rodados, já têm muitos jogos disputados, já têm uma certa experiência. Se a gente pude auxiliar, a gente faz. O importante é o Palmeiras, não é o Edu, o Mina, o Juninho, o Luan, o Antônio... É o Palmeiras que tem de estar bem para a gente conquistar nossos objetivos.

Ninguém aqui esconde que o objetivo maior é a Libertadores. O que essa competição tem de tão sedutor?
Cara, é difícil você explicar, mas é o sonho de todo mundo. Por mais que de repente tenha cenas que você não gostaria de ver, como aquelas do Uruguai, é o campeonato do nosso continente. E ser campeão do continente te deixa marcado para o resto da sua vida, e ficou marcado na minha em 2011, tomara que fique marcado aqui no Palmeiras também. Quem já jogou sabe o quanto é difícil, porque além de os adversários serem bons, alguns querem fazer como o Peñarol fez, outros fazem também, como soltar fogos à noite no hotel para não te deixar dormir, aquela coisa que a gente já sabe. E é a competição que te leva para o Mundial, que marca na carreira do jogador também.

Me lembro que quando o Santos voltou do Mundial em 2011 o discurso dos jogadores era unânime: queriam voltar lá um dia. Isso continua engasgado para você?
Pô, ser o segundo melhor do mundo não é para qualquer um, cara. Aqui no Brasil, o segundo não serve para nada, mas isso vai ficar para a nossa história. Pegamos um Barcelona que era um dos melhores de todos os tempos. Lógico que ter a possibilidade de conquistar a Libertadores e voltar lá faz com que esses jogos que vêm agora se tornem finais de campeonato.

Imagino que você tenha uma sala de troféus na sua casa em Dracena. Já tem bastante coisa lá, né?
Graças a Deus tem bastante coisa lá, mas tem espaço para completar lá também, viu? (risos)

 

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