Jogador de R$ 500, 7h de ônibus... O Real x Barça 'de raiz' que vale título

A lua vinha surgindo no céu de Ariquemes, município do interior de Rondônia, quando o carro de som passou pelas ruas da cidade promovendo a novidade.

- Atenção, vizinhança! Neste sábado tem Real x Barcelona aqui na cidade!

A propaganda não era um sonho, só que a realidade não é tão glamourosa. O "meu Real" é o Real Ariquemes, time da cidade. Já o "meu Barcelona" é o Barcelona de Vilhena, outro município do interior de Rondônia. O "El Clásico" do futebol raiz anunciado é a decisão do Campeonato Rondoniense deste ano, o penúltimo estadual a terminar nesta temporada (só no Amapá a disputa terminará depois, em setembro). Lado a lado, dois clubes inspirados em potências, filhos da globalização e da idolatria aos times europeus, mas que vivem condição que nem de longe lembra a dos "primos" ricos.

O LANCE! foi buscar detalhes desta final inusitada e descobriu que há muitas curiosidades. Spoiler: Este não é um Real x Barcelona com bilhões de dólares.

O Real x Barça brasileiro é o mais puro retrato das dificuldades que existem no lado B do futebol nacional. Vamos começar nossa história pelo mandante no primeiro jogo da decisão, o Real Ariquemes. Fundado em 2011, o clube recebeu este nome em homenagem aos galácticos de Madri. Porém, enquanto o Real de lá esbanjava grana, o daqui passava sufoco. O time de Rondônia tentou caminhar, jogando a segundona estadual de 2012, mas ainda no mesmo ano suspendeu suas atividades por falta de condições financeiras, sem conseguir chegar à elite. O clube só voltou no ano passado, mas já retornou na primeira divisão do estado - a segunda divisão foi extinta em 2013 por falta de equipes interessadas. Como debutante, de cara ficou em terceiro lugar entre oito clubes. Um pouco de organização já foi suficiente para colocar o time no pódio.

Achou a ascensão do Real meteórica? A do Barcelona foi mais rápida. Fundado como time amador em 1995, com nome em homenagem ao Barça de Romário, o clube só virou profissional em outubro do ano passado. O Barça de Vilhena resolveu as burocracias para entrar no Estadual em 15 dias, pagou as devidas taxas, e virou um dos oito times da competição. Hoje está a um passo do título.

Não precisa ser gênio para concluir que o futebol de Rondônia está nivelado. E pelas escaladas tão rápidas obtidas por Real Ariquemes e Barcelona de Vilhena, é nítido que os clubes do estado estão inconsistentes.

Ariquemes é o terceiro município mais populoso de Rondônia. Vilhena vem logo atrás, ocupando o quarto lugar. As duas cidades têm a mesma idade: apenas 39 anos (Porto Velho, capital de Rondônia, tem 102 anos). Em termos de futebol, Vilhena tem maior destaque. O Vilhena Esporte Clube, time mais tradicional da cidade, já foi campeão rondoniense por cinco vezes (2005, 2009, 2010, 2013 e 2014). No entanto, neste ano, o clube mais ilustre do município foi eliminado justamente pelo Barça na semifinal. Já a cidade de Ariquemes espera um título que não chega desde 1994, quando a Sociedade Esportiva Ariquemes, extinta em 1996, levantou a taça. E quem é o favorito pela conquista inédita?

O Rondoniense deste ano tem regulamento parecido com o do Campeonato Carioca. A semifinal, em dois jogos, foi formada pelo campeão do primeiro turno (Real), pelo campeão do segundo turno (Vilhena), e pelos dois times de melhor campanha sem título de turno (Barcelona e Genus, respectivamente). Na final, assim como na semi, não há desempate por gols fora de casa. Empate no placar agregado das duas partidas levará a decisão para os pênaltis. Na semi, o Real passou nas penalidades. Já o Barça ganhou seu primeiro jogo por 3 a 0 e empatou o segundo duelo por 0 a 0. Real e Barça já se enfrentaram no primeiro e no segundo turno. Na primeira fase, o Real jogou em casa e venceu por 1 a 0. Na segunda fase, na casa do Barça, o placar não saiu do zero.

Falamos com os presidentes de ambos os lados. O mandatário do Real, Chico Pinheiro, que assumiu o clube em janeiro, exaltou o seu time e falou do rival.

- É uma equipe que desde o início acreditou, pela montagem da estrutura, que avançaria rumo às finais. Chegamos na decisão em pé de igualdade com o Barcelona, que é uma equipe nova, mas bem montada. Eles têm uma estrutura incomparável a qualquer outra aqui no estado - disse Chico Pinheiro, que teve seu comentário rebatido pelo presidente do Barça, José Luiz Pereira:

- O Barcelona tem a folha mais baixa do estado. Quem tem uma folha de R$ 100 mil por mês é o Real. Nosso time tem folha de pagamento de R$ 37 mil por mês, tem jogador ganhando R$ 500. Do outro lado tem fazendeiro. Eu não... Eu sou um construtor, pedreiro. Você acha que pedreiro tem dinheiro? (risos)

Chico, presidente do Real, é pecuarista e sócio de um hospital em Ariquemes. José Luiz, que é presidente do Barça desde a fundação, há 22 anos, é dono de uma construtora em Vilhena. Empresários bem-sucedidos que deram aportes fundamentais aos seus times, apoio suficiente para fazer os dois clubes se destacarem em Rondônia. Ainda assim, a realidade de ambos é modesta.

Estranhou o símbolo do Real Ariquemes em vermelho e preto? Explica-se: o nome da equipe foi dado em homenagem ao Real Madrid, mas as cores exaltam o Flamengo, time do pai do presidente do Real na época da fundação. A camisa 1 do Real é vermelha e preta, lembrando até, ironicamente, o uniforme do Barcelona. Já a camisa 2 é toda branca, assim como a do "primo" rico espanhol. Na decisão deste sábado, o Real deverá jogar todo de branco.

- Pela movimentação na cidade, teremos um bom público. O município não ganha um título há duas décadas, a expectativa de todos está muito grande. Contratamos quatro carros de som para anunciar o jogo, também compramos horários de propagandas na TV local. Acredito em um público de 2,5 mil pessoas no estádio, a cidade está mobilizada - destacou Chico Pinheiro.

Do outro lado, o Barcelona de Vilhena quer entrar para a história como o primeiro Barça brasileiro campeão estadual. Existem outros dois Barcelonas no futebol profissional do Brasil, igualmente inspirados nos catalães: são eles o Barcelona Esportivo Capela, da quarta divisão de São Paulo, e o Barcelona Esporte Clube, da segundona do Rio de Janeiro. Curiosamente, dois Barças nas capitais São Paulo e Rio, e dois clubes que já revelaram jogadores famosos.

- Nosso sonho é revelar também, fortalecer o time, chegar na Série C. Já temos a vaga na Série D de 2018, mas a gente sonha grande. Estamos em uma série, mas já pensando na outra - afirmou José Luiz, presidente do Barça de Vilhena.

Real Ariquemes e Barça de Vilhena já conquistaram, por conta de suas colocações no estadual, as duas vagas do estado na Série D de 2018. Mas somente o campeão do estado levará as únicas vagas de Rondônia para a próxima Copa do Brasil e para a próxima Copa Verde. O Real disputou a Série D deste ano herdando a vaga do Rondoniense, campeão do estado em 2016, que desistiu da disputa por conta de dificuldades financeiras. No entanto, o Real só conseguiu um ponto em seis jogos, terminando em último no seu grupo.

- Herdamos a vaga na Série D dois meses antes de a competição começar, não deu tempo para fazer um planejamento, o foco ficou voltado para o Estadual. Chegamos a colocar um time B em alguns jogos da Série D. Para 2018, sabemos desde já que jogaremos a Série D, então vamos nos planejar. Se vierem as vagas na Copa do Brasil e na Copa Verde, essas competições também serão disputadas com planejamento - projetou Chico Pinheiro, presidente do Real.

A finalíssima do Estadual será daqui a dois sábados, em 8 de julho, na cidade de Vilhena. Ariquemes não tem aeroporto comercial e, por isso, os times visitantes nesta decisão estão encarando sete horas e meia de estrada. A viagem de ônibus é longa, mas será o esforço final da temporada em termos de logística. Acabando o estadual, Real e Barça ficarão sem calendário e dispensarão seus jogadores. O Real voltará a ter treinos somente em setembro. Já o Barça retomará as atividades ainda depois, no mês de novembro.

- A gente vai entrar para ganhar deles lá dentro. Ninguém joga para empatar ou para perder. Estamos indo para ganhar, se Deus quiser - finalizou José Luiz, mandatário do Barça de Vilhena, esquentando a rivalidade entre os times.

O futebol respira em Rondônia. Com dificuldades, mas respira.

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