'Por trás dos milhões investidos em um jogador como Neymar'

Há uma grande dose de hipocrisia na reação de parte dos dirigentes do futebol - Uefa e Liga espanhola à frente - pelos valores pagos pelo PSG para tirar Neymar do Barcelona. Lidar com cifras bilionárias não apenas faz parte da rotina dessa gente como é o que alimenta o lado negro do futebol por onde essa cartolagem circula.

A verdade é essa: quanto mais intangíveis forem os valores gastos na contratação de um jogador, na construção de arenas de uma Copa do Mundo, num contrato de patrocínio de um clube de uma seleção ou um campeonato, maiores são, digamos assim, as oportunidades de manipulação dessa dinheirama para atender a interesses nem sempre nobres ou que têm o esporte como objetivo.

Não é por acaso que, nos últimos anos, escândalos dos mais diferentes quilates - sejam os casos de corrupção, de lavagem de dinheiro ou de sonegação fiscal - passaram o futebol das páginas de esportes para o noticiário policial de jornais e sites ao redor do mundo. As movimentações bilionárias de recursos são o pano de fundo dos processos que levaram à cadeia ou mergulharam no ostracismo toda a alta cúpula da Fifa, toda uma geração de cartolas, dirigentes de confederações, federações e até clubes poderosos como o Bayern e o Barcelona.

O discurso do fair play financeiro é apenas isso, um discurso. Sempre haverá formas de justificar-se gastos astronômicos, de burlar regras que foram criadas muito mais para dar a chamada satisfação à sociedade em momentos de alguma pressão do que para, de fato, normatizar o mercado da bola. Seria ingenuidade achar que mesmo os arquitrilhardários xeiques do Catar, conhecidos esbanjadores de dinheiro fácil, entrariam num negócio desse tamanho correndo o risco de ver o seu time alijado de uma Liga dos Campeões ou de outras competições. Essa ameaça, obviamente, é uma conversa para boi dormir.

Vale lembrar que os negócios do futebol de hoje têm um novo componente que se multiplica ano após ano: o poder dos grandes magnatas, multibilionários russos, árabes, americanos, tailandeses e chineses que compraram clubes europeus e neles despejaram fortunas em busca de fama, prestígio ou simplesmente para satisfazer seus prazeres. Ou, não raramente, para legalizar dinheiro obtido de fontes não confessáveis. O russo Roman Abramovich, que comprou o Chelsea e o transformou em uma potência global, já gastou 1,4 bilhão de euros na brincadeira. Mansur bin Zayed al-Nahyan, de Abu Dhabi, começou pelo Manchester City e hoje controla cubes em três continentes. Agora, é o catari Nasser Ghanim Al-Khelaifi, comandante do PSG desde 2011, que assume a liderança dessa corrida desenfreada. E faz de Neymar o troféu maior na sua vitrine de ricos bibelôs.

E inegável que o faturamento do PSG, e por consequência dos magnatas que controlam o clube, vai subir às alturas com a chegada do brasileiro - o que por si só já facilita passar pelo crivo do tal fair play. Antes mesmo de o atacante entrar em campo, o fundo de investimento do Catar - e também de quem detém os direitos de transmissão dos jogos do campeonato francês - já faturou alguns milhões de euros vendendo as imagens da chegada e apresentação do craque em Paris. As filas para a compra de camisas do novo ídolo ultrapassaram os dois quilômetros em algumas lojas do clube e estima-se que mais de 1 milhão de euros foi arrecado nas primeiras horas de comercialização a camisa 10. Economicamente, portanto, o negócio parece demonstrar estar longe de ser uma loucura.

Gastar 222 milhões de euros ou em torno de R$ 820 milhões na contratação de um único jogador é um espanto, não resta dúvidas disso. Como foi um espanto ver o Real Madrid pagar 45 milhões de euros para contratar um jogador de menos de 18 anos, como Vinícius Junior, que ainda não passa de uma mera promessa e nem em campo tem entrado nos jogos do Flamengo. É uma aposta, guardadas as proporções, bem mais arriscada do que a do PSG e busca de títulos com Neymar. Mas, para o bem ou para o mal, temos de nos acostumar a esse cenário. Surgir quem vai colocar ainda mais dinheiro nessa mesa de jogo é apenas uma questão tempo.

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