Luis Fernando Gomes: 'Nuzman antes de Ricardo Teixeira'

A prisão do homem que por 22 anos comandou o Comitê Olímpico do Brasil nada teve de surpreendente. Desde que Carlos Arthur Nuzman foi levado coercitivamente para depor, em setembro, na primeira ação da Polícia Federal, um cheiro forte de podridão já emanava da pomposa sede do COB na Barra da Tijuca. O que pode ser considerado uma surpresa, contudo, para boa parte dos brasileiros, é o fato de o todo-poderoso do olimpismo tupiniquim ter ido parar atrás das grandes antes de figurinhas carimbadas da malandragem esportiva nacional como Ricardo Teixeira e sua cria Marco Polo Del Nero.

O uso do esporte para interesses pessoais, as suspeitas de enriquecimento ilícito, as manobras eleitoreiras e o autoritarismo como ferramenta de manutenção do poder são práticas condenáveis que se repetem na CBF, no COB e nas federações. A diferença, neste caso, é que o amadorismo do czar olímpico (como bem definiu André Kfouri em sua coluna de ontem neste LANCE!) foi além da gestão esportiva, estendeu-se, pelo que se percebe, nas acusações dos procuradores federais, também às práticas criminosas.

Ora, negociar pagamento de propina por email, encomendar dossiês contra adversários por escrito é algo que Teixeira, Del Nero e sua trupe jamais fariam. É um primarismo, uma infantilidade tamanha que nem os Irmãos Metralha, vilões e trapalhões dos quadrinhos da Disney, seriam capazes de cometer. Nuzman e seus asseclas deixaram mais do que rastros. Se encarregaram eles próprios de criar as provas que a Justiça precisava contra eles. Por incompetência ou excesso de confiança na impunidade cavaram sua própria tumba.

Não é a única diferenciação, aliás, com a turma do futebol. A CBF sempre foi mais sofisticada e precavida nas suas condutas, digamos, pouco republicanas. Para começar, desde o início da dinastia Teixeira jamais aceitou dinheiro público, sequer patrocínios de empresa estatais. E não por ideologia, obviamente, mas como forma de livrar-se do controle dos órgãos de fiscalização como o Tribunal de Contas da União, por exemplo. Eles lá e nós cá, foi a regra que sempre valeu. Ao contrário do COB, transformado na era Nuzman, em verdadeiro escoadouro de dinheiro público das mais diversas maneiras.

A CBF de Teixeira-Marin-Del Nero nunca andou a reboque dos fatos, nunca ficou esperando as coisas acontecerem, tão logo surgiam indícios de que algo contrário viria pela frente. A cartolagem dali sempre tomou a iniciativa, construiu um lobby eficiente no Congresso, financiou com doações a chamada bancada da bola, sempre pronta a agir em defesa dos interesses da entidade. Mais do que isso, estabeleceu uma prática - já não tão usual nesses novos tempos de Lava-Jato - de seduzir juízes e outras autoridades com campeonatos de pelada na Granja Comary, patrocínio de eventos e convites para jogos da seleção. Quanto a Nuzman, bem, alguém já ouviu falar numa bancada olímpica na Câmara ou no Senado?

Sim, pelo menos nisso, a turma do futebol sempre foi profissional. É verdade que houve aquela célebre entrevista à repórter Daniela Pinheiro, da revista Piauí, em junho de 2011, em que Teixeira desafiou a Globo e o status quo, colocando-se como dono absoluto do futebol brasileiro, quase como um quarto poder da República. Sua arrogância pública e desmedida foi um deslize que acabou lhe custando caro, talvez tenha sido o início de sua derrocada. Mas insuficiente para que deixasse, por longo tempo, de dar as cartas, ainda que por meio de seus prepostos. Muito menos capaz de leva-lo à cadeia.

A prisão de Nuzman, e o robusto conjunto de provas que surgem contra ele, é um símbolo da falência do modelo de gestão do esporte nacional. Como também o será quando chegar a vez dos caudilhos do futebol. A fachada de um dirigente empreendedor, aplaudido por milhares de brasileiros na abertura e no encerramento dos Jogos do Rio - as vaias só surgiram quando mencionou em seu discurso Temer, Cabral e companhia - estilhaçou-se como vidro. Só o que ficou de pé foi a certeza de que, sejam mais ou menos astutos os cartolas, mudanças para salvar o esporte devem ser bem mais profundas do que prendê-los. Precisam ser transformadoras de toda a estrutura para que novos Nuzmans e Teixeiras não surjam.

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