Caos na Itália: clubes sem dinheiro e falta de craques minam futebol local

  • AFP PHOTO / Miguel MEDINA

    Itália sucumbiu para a Suécia na repescagem e ficou fora da Copa de 2018

    Itália sucumbiu para a Suécia na repescagem e ficou fora da Copa de 2018

O futebol italiano vem em declínio há alguns anos, com alguns dos principais clubes do país em situação financeira delicada. Na semana passada, a crise tomou proporções ainda maiores, quando a Itália não conseguiu superar a Suécia na repescagem e vai ficar fora da Copa do Mundo após 60 anos.

Nas Eliminatórias, a Itália caiu no grupo com a Espanha e acabou em segundo lugar. No sorteio da repescagem, a Suécia entrou no caminho e, mesmo sem Ibrahimovic, avançou à Copa do Mundo. Durante toda a campanha, a Azzurra não mostrou bom futebol, com jogo burocrático e falta de opções ofensivas.

O fiasco já era roteiro anunciado. Após a conquista do tetra em 2006, após bater a França na final da Copa do Mundo, a Itália caiu duas vezes seguidas na fase de grupos em 2010 e 2014.

"Faz dez anos que a Itália não tem um verdadeiro projeto técnico: caiu na primeira fase do Mundial duas vezes seguidas. Em 2010, Marcelo Lippi cometeu um erro grande: apostou na mesma base que tinha sido campeã na Alemanha. Em 2014, no Brasil, a Itália não era um grupo unido, mas dividido entre os "senadores" e os jovens. Agora o destino reservou um vexame muito maior", explicou o jornalista Massimo Balise, da "Corsport":

"Desta vez, a Azzurra ficou fora por demérito próprio. Giampiero Ventura tem uma lista extensa de erros: não tinha uma grande ideia de jogo (o sistema 4-2-4 foi fraco), convocou mal e não geriu bem os jogadores nas partidas (Insigne, na Suécia, atuou apenas 20 minutos no lugar de Verratti). Os 'senadores' perderam a confiança nele", acrescentou.

Basile também enxerga a falta de craques na atual geração da Itália.

"Tenho de dizer que há muito tempo faltam craques na Itália, como foram Pirlo, Del Piero, Totti... O Campeonato Italiano é fraco. Não temos talentos do meio para frente. E a seleção mudou o seu estilo de jogo: deixou o contragolpe para jogar no tiki-taka da Espanha. Mas a Itália tem uma cultura diferente e menos talentos", afirmou.

A falta de grandes nomes na Itália gera um fenômeno cada vez mais comum no mundo do futebol: a naturalização de estrangeiros. Somente de brasileiros, são três jogadores que atuam pela Azzurra: Thiago Motta, Éder e Jorginho, que estreou justamente contra a Suécia. E esse fato vem justamente na mesma corrente da falta de renovação de uma geração para outra.

"Tem uma crise cultural que nasce nas divisões de base: não há mais educadores técnicos, os treinadores que trabalham com devoção, para que os jovens possam se aperfeiçoar. Há apenas técnicos que tem como objetivo assumir o comando do time principal. Dessa maneira, se fala muito mais de módulos do que de técnica e arte da bola. O último verdadeiro talento italiano foi o Cassano. Outro é o Insigne, mas que tem 26 anos e não se confirmou no futebol mundial. Jorginho e Éder são bons jogadores, mas o Jorginho não é o novo Pirlo e o Éder, o novo Del Piero."

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GIGANTES PERDEM ESPAÇO

A crise da seleção italiana tem uma outra explicação que passa pelos grandes clubes do país. Há alguns anos, Milan e Inter, dois dos maiores da Europa, deixaram de ser protagonistas, ficando fora até de competições continentais após campanhas pífias no Calcio.

A última grande campanha do Milan foi em 2007, quando faturou a sua sétima Liga dos Campeões. Naquele ano, Kaká foi eleito o melhor jogador do mundo, o último jogador antes da dinastia Cristiano Ronaldo/Lionel Messi. Três temporadas à frente, a Inter de José Mourinho também venceu a principal competição de clubes.

Desde 2010, somente a Juventus fez valer a alcunha de grande na Itália, chegando a duas finais de Liga dos Campeões, perdendo as duas para Barcelona e Real Madrid, respectivamente. A queda, contudo, mostra a soberania dos gigantes espanhóis nos últimos anos na Europa.

"O futebol italiano viveu a histórica crise de Milão: as duas equipes mais importantes na história mundial do nosso futebol, a Internazionale e o Milan, que deixaram de ser grandes por questão financeira. E isto aconteceu sem que a Roma e o Napoli se tornassem 'grandes' o bastante para limitar o poder da Juventus. Roma, Napoli e Inter jogam bem, mas o nível do campeonato segue sendo muito fraco", destacou Basile:

"O problema do futebol italiano é que, financeiramente, não pode competir com os grandes clubes da Europa. Somente a Juventus tem o estádio privado que gera dinheiro. Outros não têm estádio privado e nem estratégia de marketing como, para dar um exemplo, os clubes da Premier League. Num momento como este, Itália não é o destino principal das grandes estrelas como foi nos anos 80 e 90", comentou o jornalista, citando o Giuseppe Meazza (casa das equipes de Milão) e o Estádio Olímpico (arena dos times de Roma), que são geridos pelas prefeituras locais.

Agora, Milan e Inter tentam voltar ao ápice no futebol italiano e europeu. A crise financeira parece ter ficado para trás, uma vez que a dupla foi adquirida por conglomerados chineses, que já investiram quantia pesada para tirar as equipes do fundo do poço. Os primeiros resultados, contudo, colocam os Nerazzurri em vantagem neste novo ciclo, uma vez que ocupam a segunda colocação no Calcio, a dois pontos do líder Napoli. Já o Rossonero está bem distante das primeiras posições, em sétimo.

SAÍDA PARA A CRISE

Ficar fora da Copa do Mundo já fez algumas vítimas na Itália. O primeiro a sair foi o técnico Giampiero Ventura, que acabou demitido pelo fiasco. Contudo, ele não foi o único. Diante das pressões no país, o presidente da Federação Italiana de Futebol, Carlo Tavecchio, renunciou ao cargo na última segunda-feira.

Em campo, o empate com a Suécia antecipou a aposentadoria de três ícones da seleção: o goleiro Gianluigi Buffon, o zagueiro Andrea Barzagli e o meia Daniele De Rossi.

"A gente espera uma revolução no futebol: um treinador de alto nível, como Carlo Ancelotti, para comandar uma nova fase. Pedimos muito espaço à técnica dos jovens e menos pelo estilo de jogo. E uma reforma dos campeonatos, que possa ver as segundas equipes dos clubes mais importantes participar da Segunda e Terceira Divisões, como acontece na Espanha."

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