Jakson Follmann: 'Tinha uma lesão a dois centímetros da minha medula"

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"O que aconteceu comigo foi realmente um milagre". Jakson Follmann, de 25 anos, recorre a fé para explicar como sobreviveu ao acidente aéreo na Colômbia. Goleiro reserva no grupo que jogaria a final da Copa Sul-Americana, ele foi arremessado para fora do avião após choque a 250 km/h contra o Morro El Gordo, rolou montanha abaixo e caiu numa enorme poça de barro. Estava com 13 fraturas pelo corpo, entre a vida e a morte.

Passado um ano, Jakson Follmann consegue recordar com detalhes os últimos momentos antes do acidente com o avião LaMia e sua dor na espera por resgate. O goleiro teve a perna direita amputada abaixo do joelho e perdeu o movimento do tornozelo na perna esquerda. Atualmente com uma prótese e andando novamente, Follmann virou embaixador da Chapecoense. Em visita a São Paulo para um evento, ele conversou com o LANCE! por meia hora, falou sobre a noite da tragédia, sua recuperação e planos para os próximos anos.

Lance: O que mudou na sua cabeça após o acidente?
O que mudou em mim, depois de tudo o que aconteceu, foi a maneira de eu ver a vida. Não que antes eu não valorizasse, mas hoje valorizo muitas coisas simples da vida. O simples fato de poder ficar de pé, de caminhar, poder ir ao banheiro, coisas que eu não conseguia fazer depois do acidente. Vivo muito o dia de hoje, intensamente, porque o amanhã a gente não sabe se vai chegar.

Um ano depois, qual é a lembrança mais nítida que você tem do acidente?
A lembrança mais nítida, de tudo o que aconteceu, é da gente dentro do avião. Porque as luzes se apagam e se desliga o motor. Então, essa é a lembrança, infelizmente, mais nítida que tenho. Depois acordo lá embaixo, no meio da mata, mas como era escuro e eu não enxergava praticamente nada, então o que tenho mais forte na memória é o avião desligando e as luzes apagando.

O que passou na sua cabeça quando as luzes se desligaram?
No momento que se desligam os motores e as luzes, a gente se depara com uma situação que não tem para onde correr. Só nos restou rezar, pedir a Deus para nos proteger do pior. Infelizmente a gente perdeu muitas vidas. Queria eu que fosse o milagre de todo mundo. Naquele momento só deu tempo de a gente rezar, pedir a Deus que nos protegesse. A gente rezando, queria muito que os motores voltassem a funcionar, que as luzes ligassem novamente. A gente sabia que alguma coisa gravíssima tinha acontecido, pois ninguém falava nada e a gente via no semblante das pessoas (da tripulação) que elas estavam apavoradas. É uma situação que você sabe que está acontecendo, mas que você não quer acreditar. Não sei dizer o tempo exato que durou (entre o desligamento do avião e o choque no morro), mas foi rápido, minutos.

Dava para sentir algo do seu corpo quando você despertou após o choque?
Eu sentia dor, muita dor. Tive 13 fraturas pelo meu corpo. Sentia muita dor, tinha medo de morrer e pedia socorro. Na minha cabeça não passava nada além disso. Eu não sabia onde estava. Lembro que quando abri os meus olhos, eu já pedi por socorro. E sentia frio também... Estava chovendo. Eu não sei se o frio (- 5ºC) me ajudou a sobreviver, ou se o fato de ter caído no meio do barro ajudou a estancar o sangue. Fui jogado pra fora do avião com o choque. Eu estava sem cinto, caí lá embaixo do morro. Eu e o Neto caímos lá embaixo. O Rafael (Henzel), o Alan (Ruschel) e os outros dois tripulantes (Erwin Tumiri e Ximena Suárez) ficaram lá em cima. A gente foi rolando, é uma situação que é difícil explicar. Eu estava no meio da fuselagem do avião e no barro, longe da poltrona e bastante machucado. Procuro levar muito como um milagre (ter sobrevivido), porque o que aconteceu comigo foi realmente um milagre.

Você conseguiu escutar alguma voz depois do acidente?
Não. Só escutei as vozes da Polícia Nacional, quando chegaram. Antes eu pedi por socorro a todo tempo. Apagava, acordava... Não sei quanto tempo isso durou, de ficar acordado e desacordado. Foi um filme de terror o que eu passei.

Você chegou a temer ter sua locomoção mais afetada?
Eu tinha uma preocupação muito grande com a minha cervical, porque eu via a preocupação dos doutores: "Tem que ir pro Brasil pra operar a cervical dele". Depois fui descobrir que tinha uma lesão a dois centímetros da minha medula. Era uma lesão muito grave, que me preocupava muito. A perda da perna e a questão do tornozelo já não me preocupavam muito, porque essas questões estavam sendo solucionadas. Até eu fazer minha cirurgia (em 13 de dezembro), estava muito preocupado. Poderia ter ficado paraplégico ou até ter ido a óbito.

Como foi o período no hospital na Colômbia?
Fiquei 16 dias na Colômbia. Acordei quatro dias depois do acidente, no sábado pela manhã. Acordei com a imagem mais linda que já vi na vida, que era meus pais e minha esposa do meu lado. Três dias depois tive uma recaída muito grande, peguei uma infecção generalizada por conta da perna amputada. Fui entubado de novo, mandaram meus pais e minha esposa para o hotel e falaram pra se preparar para o pior, que talvez eu não conseguisse voltar. Nossa situação era tão grave, que a questão não era "ah, foi resgatado, sobreviveu." Nada... Aí que vêm as complicações no hospital, porque a gente caiu no barro. Sou grato a Deus pela segunda chance de viver. Essa questão da infecção foi resolvida cortando mais quatro centímetros da perna direita.

Como você recebeu a notícia da morte dos seus companheiros?
Foi um momento de muita tristeza. Passou pela minha cabeça que nunca mais veria meus amigos, nunca mais poderia estar com eles no dia a dia, abraçá-los. Quando você tem um convívio muito saudável, muito verdadeiro, você acaba sentindo muito. Apesar de eu ter só sete meses de clube na época do acidente, eu senti muito, muito mesmo. Fiquei muito mal. Eu pedia só que Deus confortasse os corações de todas as famílias, que estavam sofrendo e ainda sofrem muito. Eu estava machucado sim, mas ciente da minha situação. O que eu lamento mesmo é a perda dos meus amigos. Eu estou aqui, bem, vivo, posso fazer muitas coisas com a minha prótese. Tenho orgulho de ser um protetizado atualmente. A perda dos meus amigos que foi a situação mais difícil disso tudo. Foi o que mais me machucou e me machuca até hoje.

Como foi o processo para voltar a andar?
Foi por etapas. A ansiedade era grande para voltar a ficar em pé, caminhar, mas tinha que respeitar meu corpo, sabia que não seria da noite para o dia. Soube respeitar bem meu corpo, soube respeitar tudo o que aconteceu comigo, as fraturas que tive. Caminhei com a prótese pela primeira vez no começo de fevereiro, de muletas, e no fim do mês já consegui andar sem muletas. Aí comecei a me virar sozinho. Isso era importante para mim, não depender de outra pessoa para fazer as coisas, poder ficar de pé para dar um abraço. Eu sentia muita falta disso. Tudo foi no seu devido tempo, não atropelei nada, e tudo deu certo até aqui na minha recuperação. Estou consciente de que eu não posso atropelar nada. Qualquer coisa que eu vá fazer, mesmo uma atividade física, preciso fazer sem atropelo. Foi assim que eu cheguei até aqui.

Você ainda sente dores?
Tenho dores no pescoço. Perdi muita massa muscular na região do pescoço, praticamente tudo, e fiquei mais de 50 dias com o colar cervical. Mas as dores estão cada vez menores. É, como falei antes, dar tempo ao tempo. Hoje meu foco maior é na academia, por que a massa muscular faz sumir as dores. Já não preciso mais de tanta fisioterapia, mas quando é necessário vou ao clube fazer.

Pensa em ser um atleta paralímpico? Já se imaginou em uma Paralimpíada?
É muito cedo, tem pouco tempo do acidente. Ainda preciso me redescobrir dentro do esporte. Preciso praticar alguma modalidade que não tenha tanto impacto no meu tornozelo. Mas quero sim praticar atividades físicas, até porque ainda me sinto um atleta, não me vejo um ex-atleta. Mas, para competir mesmo, agora não é a ideia. Talvez, mais lá para a frente, daqui a alguns anos, porque ainda tenho muitas coisas para fazer dentro da Chapecoense e projetos particulares que quero realizar também. Se eu quiser abraçar o mundo, vou acabar não rendendo em nada. Depois que eu me redescobrir no esporte, talvez lá na frente eu possa ver alguma coisa.

Quais são seus projetos atualmente?
Hoje sou embaixador da Chapecoense, tenho muitas coisas para fazer dentro e fora do clube. Viagens, reuniões... Também quero ser um gestor dentro do clube, me aprimorar nesse sentido. A partir de 2018 vou começar a fazer um curso de gestão. Também estou montando uma clínica de prótese em Chapecó, para pegar toda a demanda da região Sul, para poder dar condições às pessoas que não tem como ter uma prótese, realizando projetos junto a prefeitura. Quero focar agora nesses meus dois projetos para poder lá na frente, quando estiver bem estabilizado, poder direcionar alguma coisa no esporte.

Como está a montagem da clínica?
Acredito que até o fim do ano esteja funcionando. A clínica é a mesma que me reabilitou (IPO - Instituto de Prótese e Órtese). Ela existe em São Paulo e Campinas. Os doutores fizeram um convite para mim, para eu ficar à frente em Chapecó, para pegar a região Sul, e achei super bacana. Quero que as pessoas tenham as mesmas condições de prótese que tive, as mesmas condições para poder tocar a vida. A gente terá projetos junto a prefeitura para ajudar pessoas sem condições financeiras. Hoje, infelizmente, uma prótese não é tão barata. Será uma clínica particular que fará iniciativas em parceria com a prefeitura.

Como é sua vida no clube hoje?
Participo de reuniões, palestras e eventos levando o nome do clube, contando minha história e contando junto a história do clube. Já fui para fora do país nos jogos que tivemos no exterior. Fico muito com o presidente, participo de reuniões internas do clube. Isso é importante também, para o que eu escolhi e quero ser, participar das coisas de dentro do clube. Embaixador tem muita coisas para fazer. Visito muitas escolas. Tudo o que a gente pode fazer, estamos fazendo. Há dois meses consegui levar o futebol dos amputados do Audax para fazer uma apresentação no intervalo de Chapecoense x Cruzeiro. Foi bacana poder mostrar que um amputado pode jogar futebol. Também acompanho o dia a dia do grupo, os treinamentos. Tenho muito o que fazer. Está sendo puxado e cansativo, mas muito prazeroso. Mais para a frente quero ser um gestor do clube, quero trabalhar como diretor. Eu não quero sair do clube, o clube me faz bem, o dia a dia do clube me faz bem. O clube está me dando totais condições de trabalho e liberdade para fazer um monte de coisas.

Você tem recebido muitos contatos de hospitais e instituições?
Recebo muitos contatos, visito muito os hospitais da Chapecó e da região, principalmente as pessoas amputadas. Já visitei inúmeras pessoas amputadas, para eu colocar um pouco do que eu passei, da minha experiência. A maioria dos casos de amputação ocorre repentinamente. Da noite para o dia a pessoa é amputada por uma infelicidade, uma fatalidade. Então eu vou conversar com as pessoas, tranquilizar as pessoas. As dúvidas que elas têm eu também tinha. A mesma incerteza e o medo eu também tinha. Poder dar uma palavra de conforto, explicar o que virá, é algo que me alegra. Eu tive isso também e sei o quanto é importante. Quando estava internado, o Renato Leite, grande amigo que ganhei, que é capitão da seleção paralímpica de vôlei sentado, foi me visitar no hospital. Não conhecia ele, ele foi por livre e espontânea vontade. O Mizael (Conrado), presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro, também foi. Eles me deixaram tranquilo, falaram como seriam os próximos dias, se eu sentiria algum desconforto. É importante saber de detalhes, pois é um mundo novo.

Pensa em entrar na política?
Jamais. Acho que, para ajudar as pessoas com deficiência, existem várias maneiras, e a política é um meio que eu não quero participar, porque se tem muito mais pessoas sujas que pessoas honestas. Vou brigar pelos amputados, pelos cadeirantes, de outras formas.

Como seria o seu 2017 se o acidente não tivesse existido?
Ainda tinha mais um ano de contrato com a Chape. Meu contrato acabava no fim deste ano, e a ideia era renovar. A diretoria já estava com a vontade de renovar comigo. Eu estava muito tranquilo sobre essa questão. A gente precisou rescindir o contrato como atleta neste ano, porque eu não tenho como exercer, mas assinei outro contrato como funcionário, de três anos. E com certeza virão anos e anos mais na Chape, crescendo junto com o clube.

Quem era o seu melhor amigo no grupo do ano passado?
Eu tinha muitos amigos, tenho uma facilidade grande de ter amigos. Mas não tem como esconder que o meu melhor amigo era o Danilo. Até porque a gente treinava junto e frequentava a casa um do outro. Josimar também era muito meu amigo, (Bruno) Rangel era muito amigo... Era um grupo diferenciado, porque todo mundo gostava de todo mundo. Tenho contato com alguns familiares. A gente precisa respeitar o luto deles. Quando encontro os familiares, a gente conversa, dentro do possível, e procura dar o maior carinho.

Você ficou com algum medo de avião?
Fiquei com medo de entrar em avião, tenho medo de voar, mas voar acabou se tornando uma necessidade. Depois do acidente eu já voei umas 50 vezes. Eu entro no avião, faço minha oração pedindo proteção e sigo viagem. O que mais me incomoda a viajar de noite. Gosto de viajar de dia, olhar para baixo, ver o chão. Medo agora eu sempre vou ter, não tem como ser diferente, mas eu entro, faço minha oração e dou sequência. Antes eu não tinha medo. Já passei por turbulências grandes depois do acidente, mas eu fiz minha oração e segui.

Qual é a maior dificuldade para um amputado no Brasil?
Nenhuma. A dificuldade está na cabeça. Se você está com a cabeça boa, as coisas funcionam. Eu dirijo, corro, se quiser bater uma bola de brincadeira eu bato. Hoje vejo que com uma perna posso ir mais longe que se tivesse as duas.

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