Luiz Gomes: 'Uma mudança de postura? no combate à violência'

Há novos e bons ares na luta para levar um pouco mais de civilidade ao futebol brasileiro. A entrevista a este LANCE! do promotor Marcos Kac, do Grupo de Atuação Especializada do Desporto e Defesa do Torcedor do Ministério Público do Rio, nos permite ter esperança. ?Revela uma importante mudança de postura, da forma de tratar o problema. Historicamente, o MP tem lançado mão de subterfúgios e paliativos como afastar as organizadas dos estádios e impor torcida única nos clássicos como arma para combater a violência. Se depender de Kac, essas práticas estão com os dias contados.

"A partir do momento em que se defende torcida única, se decreta a falência do Estado", afirmou o promotor. "O bonito do futebol é ter o duelo, no bom sentido, entre as torcidas, em prol da competição", acrescentou. É o discurso de quem quer mudanças, mas entende o espírito do futebol e o que ele representa para a sociedade. Para Kac, a solução é a identificação, o controle e a punição individual dos maus torcedores, membros das organizadas ou não, para que possam, eles sim, e não necessariamente o coletivo, serem proibidos de ir aos estádios e de gravitar em torno do futebol. Algo pelo que este L! vem se debatendo há anos.

Essa nova postura do Ministério Público vai ao encontro do que realmente pode mudar a situação nos nossos estádios. Devem ser dois os focos de ação do Estado. De um lado, a personalização dos crimes que acontecem tendo o futebol como estopim - e na verdade eles vão muito além das brigas de torcida, passam por tráfico de drogas e até assassinatos qualificados, como se viu em vários casos registrados no Rio em São Paulo nos últimos anos. De outro, o aperfeiçoamento dos métodos e da ação dos aparatos de segurança pública.

O que propicia o recrudescimento da violência das torcidas - e casos como a barbárie do Maracanã, antes e depois da final da Sul-Americana?, deixam isso claro - é a incapacidade do Estado em combatê-la. Trata-se de uma relação diretamente proporcional. A ação do poder público na última quarta-feira foi desastrosa. Dentre as questões apontadas pelo Flamengo, no jogo de empurra para eximir-se de responsabilidades, uma questão é inegável: faltou por parte dos serviços de inteligência da polícia do Rio um trabalho primário para antecipar os incidentes que poderiam ocorrer. Nas redes sociais, muitos flamenguistas falavam, dias antes da partida, em montar estratégias para tentar a invasão ao estádio. No mínimo, o policiamento deveria ter sido reforçado. Da mesma forma, a "vigília" em frente ao hotel do Independiente, com foguetório e buzinaço para tirar o sono dos argentinos, e que também terminou em briga, foi convocada via internet. Portanto, tudo poderia ter sido previsto. Ainda mais em se tratando de uma final de campeonato, faltou estratégia das autoridades, ou sobrou negligência na hora de monitorar situações de risco e agir para impedi-las.

?O promotor Kac, na mesma entrevista ao LANCE!, mostra que há muito o que evoluir não só no trabalho de inteligência, na prevenção à ação da bandidagem do futebol, mas também no modus operandi do aparato de segurança, especialmente nos dias de grandes jogos. Ele defende - mesmo sem querer responsabilizar diretamente a Polícia Militar - que técnicas empregadas no exterior corriqueiramente, como a adoção de barreiras de contenção, armadas em pontos distantes dos portões de acesso, podem evitar boa parte dos problemas como os que aconteceram no Maracanã e se repetem no dia a dia de outros estádios. "Na Europa, a um quilômetro do estádio, você não acessa se não tiver ingresso", lembra. Ele propõe ainda que os clubes, assim como todos os promotores de eventos, arquem com parte dos custos dessas operações.

As consequências esportivas da batalha do Maracanã, assim como dos incidentes de Buenos Aires no jogo de ida, estão nas mãos da Conmebol. Discutir os erros que levaram à barbárie é uma obrigação das autoridades, dos clubes e das entidades esportivas. Vozes como a de Marcos Kac podem enriquecer o debate.

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