"Único lugar onde eu podia estar esse ano", diz Túlio de Melo sobre Chape

  • CARLOS COSTA/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Individualmente, Túlio de Melo tem bons motivos para comemorar a temporada de 2017. Após marcar o gol do título da Taça Sandro Pallaoro, cravar a permanência da Chapecoense na primeira divisão e fechar a temporada com chave de ouro ao balançar as redes na vitória por 2 a 1 sobre o Coritiba, que garantiu o Índio Condá na fase preliminar da Libertadores, o atacante aproveita as férias merecidas sem desviar o pensamento no futuro.

Além de ter se tornado um dos principais destaques do time, o trabalho do atacante ultrapassa os gramados. Comovido com a situação vivida pelas famílias das vítimas do acidente aéreo, ocorrido em 28 de novembro de 2016, Túlio de Melo teve a ideia de fundar a Abravic na semana seguinte a tragédia. A principal intenção da Associação Brasileira das Vítimas do Acidente com a Chapecoense é arrecadar fundos para a instituição, que atende os familiares com pagamento de estudos, assistência médica, psicológica e até com remédios.

Em sua primeira passagem pela Chapecoense, Túlio de Melo chegou à Arena Condá já em agosto para a sequência do Campeonato Brasileiro. Com apenas 17 jogos disputados, o atacante acertou sua ida ao Sport em dezembro do mesmo ano e retornou à Chapecó em janeiro de 2017 por empréstimo de um ano para dar alegria e recuperar a confiança dos torcedores.

Em entrevista exclusiva ao LANCE!, o jogador comentou o ano no clube, contou sobre o projeto, que não deixa de eternizar o 'Time de Guerreiros', e revelou a intenção de voltar a jogar no exterior para fugir do calendário complicado do futebol brasileiro e dar mais atenção ao crescimento de seus filhos.

Após passagem pelo clube em 2015, você retornou em 2017 e foi o autor do gol que deu origem ao primeiro título do Verdão após o acidente aéreo. Como descreve a emoção de marcar o gol da conquista da Taça Sandro Pallaoro no segundo turno do Campeonato Catarinense?
Fazer aquele gol foi muito importante para mim por tudo o que ele representava simbolicamente. Estávamos conquistando a taça com o nome do nosso antigo presidente, que foi um cara que levou a Chape lá de baixo até a Série A e que participou diretamente do crescimento do clube, além de ser amigo dos jogadores e uma excelente pessoa. O bom desempenho na conquista da taça Sandro Pallaoro também nos permitiu manter a Chapecoense no posto de campeã catarinense, como tinha sido no ano anterior.

Após ser líder do Campeonato Brasileiro em meados de abril de 2017, a Chapecoense sofreu com uma campanha oscilante na competição. Além de ter conhecido a zona de rebaixamento, a equipe teve quatro mudanças de técnico, mas se adaptou sob comando de Gilson Kleina e voltou para a parte de cima da tabela. Depois de um ano intenso de dedicação, como você avalia a temporada do grupo?
Sabíamos que o ano seria difícil pela formação completa do time para a temporada. Nos sabíamos que a adaptação e o entrosamento seriam complicados e que teríamos que superar tudo isso para alcançarmos os nossos objetivos na temporada. Quando estávamos lá em cima, no início do Campeonato Brasileiro, conversamos no vestiário e falamos que não íamos nos empolgar, porque aquilo era uma realidade passageira. Ainda não estávamos brigando por algo na parte de cima da tabela, mas sabíamos os nossos objetivos e as dificuldades que viriam pela frente. Isso ajudou para que atravessássemos momentos de dificuldades, como quando a Chapecoense entrou na zona de rebaixamento. Tínhamos que ser fortes para tirar a equipe daquela situação.

Acredita que o trabalho do técnico Gilson Kleina foi fundamental na 'volta por cima' da equipe? Como você analisa a adaptação do time ao treinador?
Com certeza, todos os treinadores que passaram pela equipe foram importantes. Sob comando do Gilson, o time se achou, se adaptou bem e começou a sentir mais estável. No fim das contas, foi um ano sensacional. Um ano maravilhoso por todas as circunstâncias. Conseguimos alcançar o nosso objetivo, que era manter o time na Série A e, além disso, fizemos a melhor campanha da equipe na primeira divisão. Foi um ano melhor do que esperávamos. Sem dúvida, a chegada do Gilson tem uma contribuição gigantesca e totalmente direta em tudo o que aconteceu. Ele simplesmente não perdeu no comando da Chape e acabamos nos tornando campeões do segundo turno do Campeonato Brasileiro com grande ajuda do trabalho dele.

Com o final do ano se aproximando e o período de mercado em ebulição, o clube já entrou em contato com seus representantes para tratar da renovação contratual?
O clube me procurou e, desde o início, eu falei sobre a minha situação pessoal e por este ano ter pesado de mim, mas que valia qualquer sacrifício por ser o período de reconstrução. Por conta do calendário, até agosto e setembro foi muito pesado e só pude ter um contato maior com meus filhos na reta final do Brasileirão. A gente (jogador) estava sempre viajando ou concentrado e isso pesa muito nesta altura da minha carreira. Volto a dizer que a Chape vai sempre fazer parte da minha vida, mas acho que a missão era deixar o clube em 2018, no mesmo lugar em que ele tinha ficado no final de 2016. Então, a gente conseguiu bater todas as metas para terminar o ano com o clube da maneira que os nossos amigos, que se foram, deixaram.

Você jogou no exterior durante dez anos e há rumores de que recebeu proposta de clubes de fora no final deste ano. Entretanto, o fato de a Chapecoense disputar a fase preliminar da Libertadores 2018 com boas chances de chegar à fase de grupos é um fator que pode pesar na sua decisão. Quais são as pretensões para o próximo ano: Continua em Chapecó ou vai dar sequência à carreira internacional?
A Chape faz parte da minha vida e era o único lugar em que eu podia estar esse ano. Depois de tudo o que aconteceu, o diretor me fez um convite e mandou um áudio do próprio Neto, então eu não poderia negar. Sabia que este seria um ano de sacrifício, de passar por cima de tudo para garantir os objetivos da Chape e pensar totalmente na reconstrução, com a missão de deixar o Verdão no lugar em que ele merece estar. No ano que vem, eu tenho o objetivo de jogar fora do Brasil e ter uma experiência diferente, se receber oportunidade. Apesar de já ter jogado fora durante dez anos, eu gosto dessa realidade. Esse ano foi de muito sacrifício pessoal também. O calendário brasileiro é muito cheio e complicado. A gente passa mais tempo fora de casa do que dentro. Eu tenho filhos pequenos, então isso me impede de estar acompanhando o crescimento deles as vezes. Uma oportunidade fora, é algo que me interessa. Mas, no Brasil, a Chape é a minha prioridade.

Caso siga na Chapecoense, o que espera da Libertadores no ano que vem? Acredita que a experiência você adquiriu entre as disputas da competição deste ano contribuirá para que o time chegue mais forte em 2018?
Com certeza é importante ter experiência na competição, principalmente, porque já tendo disputado a Libertadores em 2017, a equipe chega ainda mais calejada para as disputas do ano que vem e mais preparada para buscar o título.

A Chapecoense atingiu os principais objetivos definidos pelo clube nesta temporada: conquistar o Campeonato Catarinense e permanecer na Série A. Além das metas iniciais, a equipe ainda conseguiu se livrar do risco de ser rebaixada e garantiu vaga na Libertadores com a melhor campanha do returno do Brasileirão. Como você avalia o fim de ano do time após uma temporada oscilante? O dever foi cumprido?
O sentimento é de missão cumprida, com certeza! Queríamos muito ganhar o Campeonato Catarinense e o principal objetivo do clube era se manter na Série A, que foram concluídos. Além disso, ainda conseguimos primeiramente a vaga na Sul-Americana e, em seguida, vaga na Libertadores. Foi um ano dos sonhos. É até difícil acreditar que, com tudo o que aconteceu, a gente conseguiu levar o time à Libertadores. É missão mais que cumprida. A Chape merece isso.

Você foi o idealizador da Abravic (Associação Brasileira das Vítimas do Acidente com a Chapecoense), que visa auxiliar os familiares das vítimas do acidente aéreo. O projeto vem sendo desenvolvido com sucesso e tem capacidade para atender mais de 70 pessoas. Pode nos contar um pouco como surgiu a ideia de fundar a organização?
A Abravic surgiu junto com a ideia de que os familiares precisariam de apoio depois do acidente, incluindo apoio psicológico. Nós sabíamos que, a longo prazo, a comoção passaria e as necessidades surgiriam. Grande parte dos jogadores de futebol voltam para uma situação financeiramente ruim no final da carreira e tínhamos a preocupação inicial de manter o nível de sustento dessas famílias, de quando os provedores estavam presentes, manter os filhos na escola particular e em um curso ou faculdade, poder custear uma consulta médica. Então, no primeiro momento, o pensamento foi nas crianças, nos filhos.

Como foram identificadas as pessoas que fariam parte do setor administrativo do projeto começando pela escolha do representante da presidência?
Eu liguei para o Gabriel, que além de ser meu amigo, é meu advogado e presidente da Abravic, e falei "A gente tem que fazer alguma coisa, cara. Eu vou entrar em contato com alguns jogadores e você, como advogado, me diz se é melhor criar uma fundação, associação ou fundo monetário. O que temos que fazer?". Daí, ele falou sobre a criação de uma associação para ajudar as famílias e eu pensei que ele mesmo seria a melhor pessoa para tocar o projeto, já que eu tinha que estar completamente focado em campo para manter a Chape na Série A. De prontidão, o Gabriel aceitou o convite e eu entrei em contato com alguns jogadores do time que já conhecia e confiava, casos do Grolli e Nenê, que também nos ajudaram. Outros atletas brasileiros também se solidarizaram e fizeram doações. Chegando em Chapecó, a gente criou a diretoria e o corpo da Abravic. Convidamos duas viúvas para fazerem parte da diretoria e o Porto, vice-presidente, que é essencial na associação. Logo depois, parceiros e pessoas boas compraram a ideia, como o Tinga, que tem nos ajudado muito e é um cara do bem.

Como a participação dos colaboradores contribuiu para a evolução do projeto e quando percebeu que o foco deveria se estender aos familiares próximos, que também necessitavam de auxílio?
A Abravic foi ganhando corpo, crescendo e nós fomos pensando em ideias maiores para auxiliar também as esposas, pais e parentes próximos as vítimas através de um trabalho sério realizado por toda a diretoria, formada por pessoas que eu tenho que agradecer demais por terem comprado a ideia e aceitado doar o seu tempo, já que não é um trabalho remunerado. Pela total dedicação à causa, essas pessoas merecem todo o mérito da Abravic.

Você ainda acompanha o andamento do trabalho e das condições oferecidas às famílias que recebem acompanhamento da Abravic?
Eu sempre fico par de tudo o que acontece na Abravic. Converso muito com o Gabriel, com o vice-presidente e com o Tinga para resolvermos as situações da instituição. Durante o Campeonato Brasileiro, não falamos abertamente sobre a situação porque eu tinha que estar focado no futebol, mas sabia que tinha gente de total competência tocando a Abravic. No início, nós contamos com as doações de vários jogadores e também do sindicado Fenapaf (Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol). Hoje em dia, a Chapecoense é uma parceira da Abravic e ajuda com uma doação mensal. Desde o início, quando a ideia ainda era embrionária, o clube deu todo o apoio. O presidente Maninho sempre foi solicito com os pedidos da instituição. Aproveito para deixar claro que a Abravic e a Chapecoense são organizações completamente independentes uma da outra. O clube é um apoiador e posso afirmar isso.

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