Citadini quer reciclagem na base e "choque de credibilidade" no Corinthians

  • Flávio Florido/UOL

Na semana da eleição para presidente do Corinthians, o LANCE! publica nesta terça-feira a entrevista com Antonio Roque Citani. Até sexta, serão publicadas as conversas com Felipe Ezabella e Romeu Tuma Júnior, os outros candidatos da eleição do próximo sábado, dia 3 de fevereiro. A com Andrés Sanchez iniciou a série, feita em ordem alfabética. Já Paulo Garcia foi impugnado e não descarta entrar na Justiça para concorrer ao cargo máximo alvinegro.

Vice-presidente do Corinthians entre 2001 e 2004, derrotado na eleição passada, mas figura constante no Parque São Jorge, Antonio Roque Citadini diz que concorrerá pela última vez ao cargo máximo do clube. Ele chegou a ser impugnado por ser conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE), mas conseguiu uma liminar para concorrer. Durante a entrevista ao LANCE!, realizada em sua casa e "supervisionada" pelo seu cachorro Dogue Alemão, chamado Bravo, Citadini se defendeu e afirmou que a prioridade é o clube.

"Se precisar me afastar (do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo), eu me afasto. Se precisar me aposentar, eu me aposento", disse o cabeça da chapa "Corinthians Mais Forte", que tem como candidatos a vices Osmar Stábile e Augusto Melo.

Com apoio de Waldemar Pires e Marlene Matheus, ex-presidentes importantes na história do clube, Citadini prega uma "limpa" na base, com o Corinthians tendo 100% dos direitos econômicos dos jogadores, e quer credibilidade em busca de parceiros. Confira abaixo a entrevista na íntegra do candidato ao LANCE!:

Por que resolveu se candidatar?
A eleição no Corinthians tem duas coisas. Não é só querer. Precisa querer e ter apoio. E nesse sentido, eu, depois da campanha passada, recebi apoio muito grande para essa eleição. Recebi apoio até surpreendente. Houve do lado da situação um esfacelamento. Então eu fui candidato. Sou uma pessoa vinculada ao Corinthians, sou conhecido pelo Corinthians e quero ajudar a resolver os problemas do clube.

Se considera o melhor?
Não diria isso, mas tenho um nível de conhecimento do clube que ajudaria muito.

Essa é a principal causa?
Sim, essa é a principal.

O tempo que ficou afastado não pode te atrapalhar de alguma forma?
Sempre fui participativo no Corinthians, mesmo não estando na situação. Para mim, nada é estranho no futebol.

O que acha que foi a principal mudança desde aquela época?
Acho que algumas coisas erramos. Por exemplo, essa parceria com empresário nas categorias de base. É um erro. Não dá dinheiro nem revela jogador. Temos que enfrentar essa questão.

Já chegou a falar até que, se continuasse assim, tinha que acabar as categorias de base.
Eu sou contra acabar, mas tem que reciclar, e passar a ser de jogador controlado pelo Corinthians.

Como fazer isso?
Quem não for do Corinthians vai para outro lugar.

Mas tem jogadores que pedem porcentagem para assinar.
Se quiser direito para si, não vai ter. Vamos fazer contrato, pagar bem, em dia, treinamento bom, técnicos bons... Vai ter tudo para subir na carreira. Se quiser dividir conosco, está fora.

Qual jogo como torcedor ou na diretoria que mais o marcou?
A coisa que mais me.. Eu sou da geração que pegou o final do time de 54, que depois iniciou-se um período sem títulos. E eu tinha uma enorme estima pelo time de 54. Fomos bicampeões, depois ganhamos o famoso título do centenário.

Mas e um jogo?
É que jogo cada um é um tipo de emoção. Um que quase me enfartei foi Corinthians contra o Santos no Paulista de 2001, com gol do Ricardinho no fim. Mas tive grandes emoções no Corinthians.

Qual é o maior ídolo?
Acho que tem que separar a nossa história. Tenho uma divergência muito grande dessa diretoria que eles inventaram uma tese que o Corinthians foi refundado em 2007. Isso não é verdade. Se pegar antes, o Corinthians ganhou mais do que ganhou depois. Eu valorizo a história do clube, a história inteira, desde os fundadores e os primeiros títulos. Mas acho que a gente deve separar em partidas dentro do campo e momentos de grandes emoções fora das quatro linhas. Partidas tem um monte. Fora das quatro linhas tem muitas, como a invasão ao Maracanã. Não só a invasão em si. Foi o clima criado. O período da Democracia, foi fora de campo e uma coisa espetacular. Tem outras coisas também. Ninguém sabe por que o Corinthians é chamado de Timão. Você fala Timão e é ligado ao Corinthians. Que teoricamente, um "timão" pode ser um grande time. Mas por quê? Na década de 60, quando não ganha títulos, em determinado momento a diretoria comprou muitos jogadores, inclusive o Garrincha. Daí um jornal muito popular na época fez uma manchete: "isto não é um time, é um timão". A partir daí, a torcida grita no estádio "Timão". Muitas vezes mais "Timão" do que "Corinthians". Isso é uma coisa importante que agrega. Tem força além do futebol. Tem muitos títulos, o de 77, o da Democracia, o primeiro Brasileiro com aquele time magnífico. O Mundial em seguida, alguns meses depois do bi brasileiro. Os títulos desse período, como a Libertadores, o bi mundial, os brasileiros. Eu senti uma enorme satisfação ano passado, com um time comparado com os outros bem mais modesto e fez um campeonato lindíssimo, do começo ao fim liderou. É quase algo a ser estudado, porque é muito difícil num campeonato equilibrado um time disparar e não sair mais. É claro que teve um momento que oscilou. Mas muito causado pela mídia, como no episódio do gol do Jô com o braço contra o Vasco. Mas depois passou e superou.

E ídolo?
Para mim o maior é o Rivellino.

Por quê?
Primeiro que é um notável jogador, nasceu no Corinthians e foi um dos maiores que vi jogar. Teve muitos craques que jogaram pelo Corinthians, mas o Rivelino é a maior referência.

Quais as ideias para o departamento de futebol?
Conheço muito bem. Fui quatro anos vice-presidente. Tem que ter autonomia, organização e tem de ser blindado de influências negativas do clube, como empresários e conselheiros que todos os clubes têm, mas é uma coisa ruim. O ano passado mostrou que sem isso progride

E na comissão?
Não é hora nem de pensar nisso. Está dando certo.

O Alessandro também fica?
O que está certo tem de tocar.

Vai manter o organograma? Tem a lacuna deixada pelo Flávio Adauto, que saiu. Teria mais um diretor?
Não sei ainda, mas acho que o sentido da comissão técnica profissional é importante, e o clube tem de blindar isso.

Qual sua visão sobre Carille?
Eu gosto dele, da forma como o time joga, com duas linhas de quatro, é uma coisa que deu certo. Se você pegar o time campeão de 98 e 99 era mais ou menos assim. Depois com o Parrera, Mano Menezes e Tite era um pouco parecido. Manter a bola é importante, só arriscar quando tiver chance de gol. Eu sei que o povo não gosta muito, acha que é retranqueiro, mas acho positivo.

Como foi fazer para resolver o problema da Arena?
Primeiro caminho é negociar (com a Odebrecht e com a Caixa Econômica Federal), tentar ver se chega a um acordo. Se houver acordo, tudo bem. Senão, vai ser uma arbitragem. Mas acho que nós pagaremos tudo, não vamos deixar de pagar o estádio. O Corinthians é mais importante que a Caixa. Daqui a 100 anos provavelmente a Caixa não vai existir, e o Corinthians estará jogando bola e ganhando título.

Tem ideia de quanto deve?
Não dá para calcular.

Acha que foi um erro?
De jeito nenhum, é um estádio belíssimo. Você vê um jogo lá, depois vem para o Pacaembu e vê que é um horror perto de lá. A Arena é ótima.

Mas acha que foi um equívoco ter sido construída para a Copa?
Não foi um equívoco nada. Se não tivesse sido feito para a Copa, não teria o estádio. O resto é tudo conversa.

Falam que a Odebrecht só aceita conversar com o Andrés
Ela senta com qualquer um. Isso é uma ficção.

E a parte social? Pensa em mudanças no Parque São Jorge?
Estamos vivendo uma situação interessante, porque o futebol não vai mais ao Parque São Jorge. O time treina no CT e depois joga na Arena. A base daqui a pouco também vai para o CT. Então abre um espaço para repensar coisas para os esportes olímpicos e associados. Vamos pensar nisso.

Qual será a participação das mulheres?
Eu acho que é igual ao homem. Participa da diretoria e da gestão. Só que o futebol é muito machista. Na sua área, você locutora mulher? Muito pouco. Mas mulher fala mal? Não, não fala. Na minha campanha elas têm posição predominante e também terão no dia a dia.

Até no futebol?
Sim. Tem que avançar.

Tem alguém já definido para fazer parte da sua gestão?
Não tem ninguém convidado.

Parceria ou algo parecido?
Não, nada. Tudo depois da vitória. Vamos ganhar.

Acha que se ganhar pode haver mais manifestações sobre o caso da impugnação?
Ganhou ganhou. Não vejo nada de dificuldade. Quem ganhar toma posse e depois vamos resolver os problemas do clube.

Não tem risco de ter mais uma batalha judicial?
Comigo não vai ter. Pode ter, mas eu vou estar fazendo da forma legal. Se precisar me afastar (do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo), eu me afasto. Se precisar me aposentar, eu me aposento. O que não posso fazer é antes da eleição. Depois será escolhido o melhor caminho para o Corinthians e para o Tribunal.

Acha que foi um golpe?
Não gosto de dramatizar, foi um erro.

Teve participação de algum adversário?
Não sei, também não vou ficar procurando.

Essa será sua última tentativa?
Sim. Não a última tentativa. Mesmo que eu me eleja, é o último mandato. Esse negócio de ficar eternamente é um erro.

Como se vê na corrida eleitoral?
Acho que minhas chances são grandes. A disputa, com todo respeito aos outros candidatos, ficará entre mim e o Andrés. Acho.

Já falou algumas vezes que o principal motivo da dívida do Corinthians foi a falta de repasse de valores à Receita Federal por anos. Por quê?
Foi um grave erro do clube. Porque o clube ficou com uma dívida enorme, tomou multa, fez o que nunca tinha feito, de recolher imposto e depois não repassar. Eu não sabia. Quem cometeu fez um erro grave. Esse erro desequilibrou.

Dizem que não tinha outra coisa para fazer.
Não é verdade. Naquele momento o Corinthians estava contratando. Foi um erro. Não é verdade que era dívida antiga, de 2007, 2008 e 2009. Era do período da "Renovação e Transparência" (chapa da situação), não tem como eles não assumirem isso. Lamento que tenham feito isso.

Não acha que o Corinthians está mal reservado na questão de cobranças internas?
Isso agora sofreu uma grande mudança, porque o Conselho Deliberativo era todo eleito com o presidente, e isso bloqueava qualquer atuação mais ampla. Agora não, o conselho vai ser plural. Vai ter chapinha ligada a todos os candidatos (NR: antes, o presidente levava consigo todos os conselheiros. A partir desta eleição, serão eleitas oito chapinhas com 25 candidatos).

Acha que as chapinhas vão resolver?
Vão ajudar, vão democratizar.

Acredita que a Lava Jato vai chegar ao Corinthians?
Se chegar ou não, não é um problema do Corinthians. É questão da Polícia Federal e da Justiça. A nós cabe resolver o problema. O clube tem que resolver os problemas. Se alguém cometeu algum deslize, é problema dele.

Acha que isso acaba atrapalhando para conseguir parceiros?
Sim, o clube está desgastado. Ano passado ficamos o tempo inteiro em primeiro lugar e sem publicidade na camisa. Não é só questão de naming right.

Como resolver?
Tem que ter um choque de credibilidade.

Demora isso?
É rápido, o mercado começa a ver isso.

Os clubes têm tido muita dificuldade com patrocínio...
O Corinthians no marketing está zero. É uma vergonha, não temos publicidade na camisa com um time que ficou em primeiro lugar o tempo inteiro.

Acha que é um problema macro ou micro?
Macro, mas é um problema também do Corinthians que precisa ser enfrentado.

Quais alternativas tomar para conseguir parceiros?
Eu vejo a alternativa de que tem de trabalhar. O marketing não está trabalhando.

Como serão suas contratações. Acha que o clube precisa priorizar jogador mais jovem, medalhão...
É tudo, tudo. Tem que ter um grande time. Não necessariamente de medalhão, mas um grande time.

Agora o torcedor já pode esperar grandes contratações se for eleito?
Agora nem tem grandes contratações. Na verdade não dá para esperar grande coisa porque não tem.

Acha que esse time precisa?
Isso é uma coisa para depois. Não é agora que vamos atrás. Mas o time tem de ser competitivo.

Se pudesse escolher um jogador com identificação com o clube, quem traria?
Ninguém. Não acho que devemos procurar jogador que passou por aqui. A volta nunca é muito boa. Quase sempre não é a mesma coisa que a primeira vez.

Relembre um pouco a época da MSI (na época, Citadini era presidente do Cori - Conselho de Orientação do clube).
Foi um erro do clube porque o contrato era ruim. Todo me pergunta por que eu era contra, se era porque era russo, lavava dinheiro... Isso para mim não tem nada a ver. A questão básica era que o contrato era ruim. Foi isso, nada mais.

Por que o clube aceitou?
Eu fui contra, fiz o que pude.

Acha que haveria espaço para uma parceria hoje em dia?
Não é viável, esse tipo de parceria não.

Mas não pelos problemas, digo grandes parceiros comerciais.
Uma coisa é uma empresa que você faz contrato, mas esse tipo de parceria eu já não gosto.

Qual será a relação do clube com torcida?
Tem de ser igual a todas as torcidas. Não vejo por que ter privilégio com um torcedor e outro não. Respeiro, mas não é torcida organizada que escala e manda no time. Acho que devemos ter uma relação de respeito.

Aceita receber?
Eu, sim. Mas não gosto da ideia de torcedor dar palpite para jogador. Até porque não resulta em nada, só dá matéria no jornal

Até a eleição, quais as estratégias de campanha?
Estou trabalhando que nem um louco, todo dia, com muitas reuniões, e está indo muito bem.

Para onde acha que o Corinthians pode crescer?
Acho que o Corinthians precisa resolver coisas que estão bem complicadas. Primeira coisa é ter um equilíbrio financeiro, isso é fundamental. Se não tiver equilíbrio financeiro, você não vai para lugar nenhum.

A Arena não deixou o Corinthians se elitizar?
Por quê? Fomos para Itaquera, o núcleo central da zona leste. Não vamos esquecer do nosso torcedor popular, mas não vamos fazer como alguns clubes que colocam ingresso a R$ 1. Isso desqualifica o futebol.

Acha que os rivais ficaram para trás?
Acho que minha impressão, neste momento, é que Corinthians e Palmeiras ficaram em posição de grande destaque. Isso é fruto direto das duas arenas, acaba tendo impacto.

E o São Paulo?
Tem lá os problemas deles, tem de repensar no Morumbi, mas eles que cuidem de lá.

Acha que parou no tempo? O São Paulo foi o maior rival da sua época.
Há muito tempo o São Paulo não é rival.

Se for eleito, qual a primeira medida?
Primeiro vamos nomear uma boa diretoria.

E lá no Parque São Jorge, qual a primeira coisa que vai fazer?
Tem tanta coisa para lembrar e agradecer que eu prefiro esperar para ver.

Gostaríamos que você comentasse sobre a candidatura de cada um de seus concorrentes. A começar pelo Andrés.
É líder de um grupo, que eles não tinham outro candidato, e ele teve de ser candidato. É um candidato forte, tem presença grande no clube, tem uma história no clube, e é um candidato com muito gente que o acompanhar. Diminui muito com as dissidências que teve, foram muitas, mas é um candidato com peso.

É o candidato a ser batido?
Não gosto dessa expressão. Mas é um candidato que tem uma campanha encorpada.

Agora sobre Felipe Ezabella.
É uma pessoa que tem uma ascensão no clube basicamente ligada ao grupo Renovação e Transparência, tem boas ideias, em geral é uma pessoa esclarecida.

Paulo Garcia.
Ele é meu amigo, então eu diria que o Paulo, a família dele e especialmente ele, é um corintiano apaixonado que algumas vezes até prejudica por ser apaixonado. Eu respeito ele.

Romeu Tuma Júnior.
Ele é, embora conselheiro vitalício há um tempo, a militância dele é mais recente. Mas também respeito como candidato.

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