De menino que narrava os próprios gols a atacante da seleção: Borja joga no país que o consagrou

No Brasil, Miguel Borja é um atacante que ainda tenta provar que o Palmeiras não errou ao comprá-lo por R$ 33 milhões. Na Colômbia, país em que o Verdão fará sua estreia na Copa Libertadores de 2018, ele é o jogador que saiu de uma cidade pequena em busca de um sonho e desfilou em carro aberto diante de uma multidão ao retornar para lá com a artilharia do Campeonato Colombiano, o título da Libertadores e o prêmio de Rei da América na bagagem.

Curiosamente, o primeiro colombiano que Borja vai enfrentar com a camisa do Palmeiras, às 21h30 desta quinta, no estádio Metropolitano, é o Junior Barranquilla, clube para o qual torcia na infância em Tierralta, município com menos de 30 mil habitantes onde ele nasceu e viveu tempos difíceis, com pouca comida na mesa e muitas bocas a serem alimentadas: Nicolásia e José, pais de Borja, tiveram mais cinco meninos e duas meninas.

O pequeno Borja não tinha muitos meios para acompanhar o Junior Barranquilla. Sua diversão, muitas vezes, era chutar bolas pela casa e narrar gols imaginários. Foi assim até que ele começasse uma peregrinação em busca do sonho, aos 12 anos, história que contou à TV oficial do Atlético Nacional em 2016:

- Desde muito pequeno eu sonhava em ser profissional e poder mencionar a minha terra nas entrevistas. Eu mesmo narrava meus gols em casa, me visualizava fazendo os gols e dando entrevistas dizendo que eram para o povo de Tierralta. Minha mãe dizia que eu estava louco (risos). "Você está louco gritando esses gols, está incomodando os vizinhos!".

- Com 12 anos, saí da minha terra e fiz teste em Envingado, mas as coisas não aconteceram por causa da minha família. Eles queriam que eu voltasse para casa para estudar. Com 15 anos, fui a Bogotá e fiz teste no Millonários, mas não tinha recursos para o transporte todos os dias. Ficaria na casa da minha irmã, mas não teria como pagar o transporte, seria uma carga extra para ela - contou.

Borja já estava trabalhando em uma loja de ferragens para colocar alguns trocados dentro de casa, mas foi convencido por amigos a continuar correndo atrás do sonho:

- Quando eu estava com 16 anos, me disseram: "treina uns cinco ou seis dias e vamos a Medellín fazer teste". Me levantava às 5h, por que às 8h já tinha que ir trabalhar. Fui para o teste em Medellín e as coisas também não aconteceram. Depois um amigo me disse que iria para Cáli e eu fui, me apresentei no América. Chegou um dia em que me pediram foto, documento... Pensei: "Agora, sim! Comecei!". Me convidaram para fazer a pré-temporada, mas o clube estava em um momento difícil e logo fui para o Deportivo Cáli. Aí, sim, eu comecei. Fiz uma partida como profissional lá e fui para o Cúcuta.

Cúcuta (COL), Cortuluá (COL), La Equidad (COL), Olimpo (ARG), Livorno (ITA)... Borja demorou a se firmar como um artilheiro. Suas aventuras fora da Colômbia, entre 2014 e 2015, ao menos indicavam que os tempos de vacas magras tinham ficado no passado. Houve um momento na Itália em que o jovem, que antes flertava com a fome, já não aguentava mais comer massa.

A volta ao país-natal representou o "boom" na carreira de Borja. Ele jogou o segundo semestre de 2015 pelo Santa Fe, onde conheceu o zagueiro Yerry Mina e acostumou-se a enfrentar o Junior Barranquilla. Marcou alguns gols, teve momentos de alta, mas preferiu retornar ao pequeno Cortuluá em 2016.

A decisão não parecia muito sábia, mas mudou a vida do centroavante. Ele marcou 19 gols em 22 jogos no Campeonato Colombiano, um recorde, e chamou a atenção do Atlético Nacional. Chegou marcando cinco gols nos quatro jogos finais da Libertadores, foi campeão, ganhou também a Copa da Colômbia (contra o Junior, no estádio do jogo desta noite), ficou com o vice na Sul-Americana e no Mundial de Clubes e foi eleito o Rei da América pelo jornal uruguaio El País. Deixou o clube com 17 gols em 27 jogos rumo ao Palmeiras.

Antes de ser recebido por uma multidão alviverde no Aeroporto de Guarulhos, Borja movimentou outras cenas de pessoas em Tierralta. O garoto que narrava gols imaginários havia se consagrado. Mas ainda falta um sonho: disputar a Copa do Mundo pela seleção de seu país. Para isso, é preciso manter os bons números deste início de temporada pelo Verdão: cinco gols em oito jogos.

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