Mesmo com pressão da Conmebol, futebol feminino ainda sofre no Brasil

  • REUTERS/Mariana Bazo

Em regulamento recente, a Conmebol definiu os critérios para licenciamento dos clubes para as competições por ela organizadas: a Libertadores da América e a Copa Sul-Americana. Dentre os critérios estão os esportivos, que falam sobre equipes juvenis, comando técnico, implementação de equipe de futebol feminino e outros. A norma de licença define que, a partir de 2019, as equipes devem "ter uma equipe principal feminina ou associar-se a um clube que a tenha".

O documento cita também que os clubes precisam ter "pelo menos uma categoria juvenil feminina ou associar-se a um clube que a tenha". Neste caso, além da criação de um time, os clubes devem providenciar a manutenção e suporte técnico, equipamentos e infraestrutura para o desenvolvimento das equipes em plenas condições. Ambas devem disputar competições regionais ou nacionais.

Os clubes que não estiverem dentro dos critérios da Conmebol estão sujeitos a punições que podem variar de advertência, multa econômica, suspensão temporária, cancelamento ou indeferimento da licença, dentre outras. As sanções podem ser aplicadas por descumprimento de um ou vários critérios e também por descumprimento do processo, que pode ser por entrega irregular de documentos comprobatórios.

Jornalista esportiva e diretora da ACERJ (Associação de Cronistas Esportivos do Rio de Janeiro), Martha Esteves conversou com o LANCE! e deu sua opinião acerca do tema:

- Não é difícil supor que os oito clubes que não têm equipes femininas não terão tempo para montar até a competição e assim deverão sofrer a mais grave punição: a exclusão. Era de se esperar. Afinal, quem ainda acredita que patrocinadores ou dirigentes iriam mesmo investir na modalidade? Nem mesmo se a Marta viesse jogar no Brasil! - comentou Marta Esteves.

A profissional destaca também a falta de visão dos dirigentes com relação ao pouco investimento na modalidade. Para Martha, existe muito potencial no futebol feminino, mas isso não é visto pelos patrocinadores:

- Realmente lastimável que os dirigentes e patrocinadores não consigam enxergar o potencial das meninas e o retorno que poderiam ter. E o fato de não ter medalha de ouro olímpica não justifica a falta de interesse. Mas se nem tendo a maior craque mundial nosso futebol feminino anda nessa indigência, temo por seu futuro. Espero que ainda haja tempo para se reverter esse quadro e que os times brasileiros possam conseguir, pelo menos, uma participação honrosa na competição - completou.

Quem também falou ao L! sobre o tema foi Isabelly Morais, a primeira mulher a narrar uma partida de futebol por uma rádio mineira. Para a repórter da rádio Inconfidência, os clubes não podem simplesmente criar equipes por pressão; o ideal seria entenderem a importância de investir na modalidade:

- Quando a Conmebol estipulou essa medida, a entidade nitidamente lançou uma pressão sobre os clubes. Com isso, assim que foi lançada, minha maior preocupação foi como cada equipe se mexeria pelas exigências. Dar nome a um time ou apenas associar sua imagem não é suficiente, tendo em vista todas as demandas e necessidades de um time de futebol feminino - recordamo-nos bem do exemplo recente do Santa Cruz, que tinha uma equipe mas não dava o devido suporte - comentou a primeira mulher a narrar uma partida de futebol em Minas Gerais.

Peça importante na relação entre mulheres e futebol, Isabelly destacou seus desejos para a criação da modalidade. A jovem jornalista reafirma a importância da organização nos planejamentos e uma preocupação real com o desenvolvimento do futebol feminino:

- Quero dos clubes planejamentos bem organizados, para que não sejam apenas ações de fachada para a Conmebol e a consequente permissão de acesso à Libertadores. Pelo pouco tempo, já passou da hora dos clubes se movimentarem, e não só porque a entidade sul-americana forçou, mas porque o futebol de mulheres carece de mais atenção e investimentos. O relógio está correndo, e só espero que lá para o fim do ano as instituições não apareçam com projetos pouco fundamentados ou sem preocupação alguma com o desenvolvimento real do futebol feminino, numa pressa desproporcional com o cuidado que a modalidade exige - finalizou.

O LANCE! entrou em contato com os clubes da série A do Brasileirão 2018 que ainda não estão regularizados, em busca de informações sobre o andamento do planejamento de criação de equipes femininas. Dos oito que não possuem equipes, apenas cinco responderam sobre o planejamento. Em grande maioria, as equipes estão estudando a implementação, mas não tem um planejamento contrato.

*As assessorias de Atlético Paranaense, Fluminense e São Paulo não responderam até o fechamento desta matéria.

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