Método Roger: Técnico do Palmeiras vê influência de Tite e explica treinos

  • Marcello Zambrana/AGIF

    Roger Machado, técnico do Palmeiras, no clássico contra o São Paulo

    Roger Machado, técnico do Palmeiras, no clássico contra o São Paulo

Planejamento. Essa é a palavra que norteia a vida e a trajetória profissional de Roger Machado, que faz da experiência como atleta multi-campeão um combustível para se tornar um técnico igualmente vencedor. Cada movimento do técnico do Palmeiras é calculado.

Roger decidiu que só teria filhos quando estivesse próximo de encerrar a carreira como jogador. Queria ter residência fixa em Porto Alegre quando eles estivessem em idade escolar. "Eles" acabaram sendo "elas", mas o plano foi posto em prática: Julia, a primeira filha, tinha três anos quando ele se retirou dos gramados. A segunda herdeira, Gabriela, veio quase simultaneamente à aposentadoria.

O gaúcho deixou de ser lateral-esquerdo quando estava prestes a completar 34 anos. As dores na coluna o impediram de defender o D.C. United, clube americano que o contratou em 2009, e de concretizar o plano de jogar até os 35. De qualquer forma, naquele momento já estava decidido que o futuro seria à beira do campo - com uma grande influência de Tite, como ele contou nesta entrevista.

"Eu planejei toda a minha vida. Primeiro planejei dos 15 aos 25 anos, depois planejei dos 25 aos 35... Eu planejo para os próximos dez anos e reviso em cinco. Por consequência, hoje, já tenho planejado até os 53", diz o técnico, que completará 43 anos em abril.

Esse planejamento inclui se consolidar como um principais treinadores do futebol brasileiro. Roger sabe que a conquista de títulos com o Palmeiras seria um passo fundamental nesta caminhada. E é planejando minuciosamente cada treino, cada semana de trabalho e cada jogo que ele espera ter sucesso. Em uma hora de conversa com a reportagem do LANCE! em um dos bancos de reservas da Academia de Futebol, ele mostrou ter convicção sobre cada um de seus atos: por que a comissão técnica desenhou um octógono no gramado para a atividade de terça? Como será possível fazer Lucas Lima e Gustavo Scarpa jogarem juntos? Por que a média de gols de Miguel Borja em 2018 é superior à de sua avassaladora passagem pelo Atlético Nacional?

O tempo e os resultados vão dizer se os planos traçados por Roger Machado vão colocá-lo na galeria de campeões da história palmeirense. Nas linhas abaixo, entenda como o ex-jogador pretende chegar lá - e como chegou até aqui. O técnico não gosta de ver o que a imprensa escreve sobre ele, mas prometeu que leria esta entrevista. Faça isso você também!

Você já disse em outras entrevistas que aproveita o tempo na concentração para assistir a diferentes jogos. Tem encontrado tempo para isso aqui?
Sempre tem tempo para ver alguma coisa. Sei lá, no meu computador eu tenho uns 500 jogos baixados, de várias ligas do mundo. E não é só das mais importantes. Eu vejo a Ucrânia, eu vejo a Rússia, eu vejo o Japão e vejo as mais importantes também. É para olhar, estudar, ver movimentos, ver esquemas, ver pensamentos relacionados a jogo. Eu gosto. Às vezes não tem muito tempo. Se tu pegar os nossos jogos e os jogos do adversário que nós analisamos, vemos uma média de, sei lá, 400 ou 500 jogos por ano.

E qual é o campeonato mais gostoso de assistir?
Eu gosto de ver todos. Não é somente pelo prazer de ver o jogo em si. Se eu quiser ver alguma coisa de sistema defensivo, tenho que olhar a Itália. Se eu quiser ver processo ofensivo, construção ofensiva, é Brasil, é Espanha. Se eu quiser ver um jogo de transição e marcação alta, vou observar a Alemanha. Se eu quiser ver um jogo rápido, em profundidade, tenho que ver a Inglaterra. Depende do que você está procurando.

Mas tem um time que te agrade mais?
Eu gosto muito do Napoli do Maurizio Sarri, que faz um jogo apoiado, um jogo de busca de profundidade depois que a bola entra às costas da primeira linha de defesa. É um jogo veloz, dinâmico. Sempre gostei desse tipo de jogo.

Esse gosto por ver futebol vem dos tempos de jogador?
Era um pouco mais difícil tu ter acesso aos jogos. Hoje, se tu não tem um programa para baixar o jogo, tu vai no Youtube e acha. Naquele momento tu tinha que pegar uma fita e gravar, era mais difícil. Mas eu já gostava. Eu acabava vendo os jogos do time que ia nos enfrentar porque gostava de ver com antecedência o jogador que eu ia marcar. O jogador tem um modus operandi. Os atacantes têm três, quatro dribles favoritos. Os craques têm um quinto, um sexto. Os ultra-craques têm um que eles inventam na hora. Com esse é difícil tu se programar (risos). Mas eu gostava de ver porque existe uma característica, eu acabava identificando o que poderia facilitar para mim no momento do jogo. "Olha, eu sei que quando ele finta para o lado esquerdo, invariavelmente vai querer sair para dentro. Sei que quando ele pedala para um lado, vai querer sair para o outro. Sei que quando ele pede no pé, vai querer sair para o fundo". Isso me ajudava na construção do jogo que eu ia fazer. Eu assistia mais aos jogos dos adversários para ver o jogador da posição, e acabava vendo outras coisas interessantes.

E hoje em dia os seus jogadores recebem por WhatsApp um vídeo recortado com os lances dos adversários que vão enfrentar.
Pois é (risos). Exato! Eu cheguei a pegar uma época em que te davam em um CD as jogadas só daquele jogador. Sei lá, cinco minutos com jogadas daquele determinado jogador. Hoje tu recebe pelo celular. Hoje, tem um programa em que dá para selecionar "ações ofensivas" de determinado jogador e ver todas. Essas ferramentas são para facilitar o trabalho que, antes, tinha um pouco de custo para fazer.

Seu primeiro contato com um software de tática foi intermediado pelo Tite, certo? Ele te deu um disquete de presente.
Sim, era o Tática 3D. Quando ele chegou no Grêmio eu estava machucado, fiquei oito meses parado por causa de uma cirurgia e fiquei no banco por alguns jogos antes de voltar a ser titular. Ali do banco, quando tu não está tão inserido no contexto do jogo, tu tem uma leitura um pouco diferente. O Tite sempre foi um cara muito aberto e permitia que a gente fizesse observações e contribuísse com ele. Vendo isso, ele me deu o disquete e disse: "Olha, meu filho, brinca na concentração, porque eu tenho certeza que esse vai ser o teu futuro". Eu achei interessante. É um programa em que tu simula jogadas, com movimentos. Eu passei a analisar isso, jogadas que aconteciam no campo. Às vezes treinadas, às vezes não, mas que podiam se tornar treináveis. Eu tentava repetir naquele programa ali e guardava em um arquivo. O disquete eu tenho até hoje. Continuo usando o programa, hoje no computador ou na tela do celular. Quando não dá tempo de fazer uma jogada estratégica no treino, ou se quero reforçar, mostro na palestra: "Olha, rapaziada, lembram que a gente ensaiou essa jogada? Acho que aqui, fazendo tal movimentação, a gente pode levar uma vantagem". É para isso que acaba servindo. Para mim foi o início de tudo, foi o despertar do gosto pelas questões táticas.

Essa era minha próxima pergunta. Quando isso aconteceu, você já tinha na cabeça a ideia de ser treinador?
Acho que a ação dele me deu algumas certezas. Alguém tinha percebido em mim aquilo que eu acreditava saber. Por jogar na defesa, ver o jogo de frente, não ser mais rápido que os atacantes que eu marcava, não ser tão hábil quanto eles, eu tinha que desenvolver algumas qualidades no meu jogo para tentar equilibrar as forças. Uma delas é tu ler o jogo e antecipar o que vai acontecer para levar vantagem sobre o oponente. Então eu já tinha esse gosto tático pelo jogo, até pela minha posição. Quando ele me presenteou e disse que com certeza aquele seria o meu futuro, acho que eu passei a acreditar (risos).

O Tite foi o melhor técnico que te comandou? Na época do Grêmio já dava para saber que ele atingiria um patamar alto?
Sim, certamente. Foi o melhor porque reuniu várias questões que eu valorizo muito. Eu aprendi com muitos. Ou melhor, eu aprendi com todos. Eu estive com mais de 30 treinadores como jogador e quatro ou cinco como auxiliar. Com alguns, eu aprendi como se faz a coisa certa. Com outros, aprendi como não se faz, o que é um excelente aprendizado também. Com o Tite, eu me reconhecia em muita coisa que ele fazia. Eu objetivei que, se um dia fosse treinador, muitas daquelas características eu gostaria de ter dentro do meu trabalho. Por exemplo, a capacidade dele de ser o gestor desse ambiente todo, valorizando todas as pessoas que estão nesse processo, responsabilizando cada um por sua área, fazendo as devidas cobranças, mas dando autonomia para que possam trabalhar. A gestão do trabalho do dia a dia, a organização, a interdisciplinaridade que ele põe dentro do trabalho dele e as visões de jogo, a forma como ele entende o jogo... Dentro da construção de jogo, tem algumas diferenças entre nós. Na forma de organizar a equipe, nos termos táticos. Mas a base foi muito tirada da vivência de quase três anos com ele.

Vocês ainda conversam com frequência?
Não é frequente, mas em alguns momentos, quando eu quero saber alguma coisa ou tomar algum conselho, ainda aciono o telefone. Mando um WhatsApp antes para saber se ele está disponível e ele sempre me atende bem. Acho que tem dois meses, pelo menos, que eu não tenho contato com ele.

Ele passou por aqui também. Você chegou a pedir a opinião dele quando foi convidado pelo Palmeiras?
Não, até porque as coisas se resolveram muito rápido. No futebol, as coisas boas acontecem do dia para a noite. Quando se arrastam muito, a gente sabe que a tendência é de que não aconteçam. Mas depois ele me mandou uma mensagem, nos falamos e ele me deu os parabéns pela nova casa. Me desejou sorte.

O Palmeiras chegou a procurá-lo no ano passado, mas você acabou indo para o Atlético-MG. Você já imaginava que em algum momento viria para cá? Já planejava isso?
Na verdade, desde quando eu era jogador. No meu último ano como jogador eu ainda tive a felicidade de receber um convite do Palmeiras. O Vanderlei (Luxemburgo) estava aqui, em 2009, mas eu já tinha decidido encerrar a carreira naquele momento. Existem alguns degraus que você precisa subir para se tornar um treinador reconhecido, e um desses é trabalhar em uma equipe grande, forte, que disputa títulos, como o Palmeiras. Você passar por esse ambiente e conseguir conquistas te credencia para outras coisas. Então, desde o início, quando tu faz um planejamento mental, idealizando algumas coisas, é inevitável colocar isso no papel.

Você chamou a atenção no ano passado com a decisão de não assumir nenhuma equipe no meio da temporada. Você fez essa opção para não se expor ou foi uma questão mais política diante da instabilidade do mercado de treinadores?
Na verdade, são três motivos, nenhum mais importante que o outro. Não é simplesmente não pegar um trabalho em meio de temporada. Até porque, em um caso assim, muito do que aconteceu antes de tu pegar não foi sua responsabilidade. Acaba que você tem até um peso menor quando assume. Quando você começa uma temporada a responsabilidade é maior porque você participou daquele processo desde o começo. Se as coisas não andarem bem a responsabilidade é completamente sua e do seu grupo de trabalho. A minha decisão é pautada em três alicerces importantes. O primeiro é que preciso, depois de um trabalho finalizado, seja por vontade própria ou por decisão do outro lado, avaliar o que aconteceu, o que foi bom, o que poderia ter sido diferente, estudar um pouco mais para o próximo compromisso ser melhor do que esse que se encerrou. O segundo é que, desde que iniciei como treinador, tenho uma questão familiar muito importante. Eu planejei toda a minha vida, desde quando eu era jogador, para ter filhos já próximo de encerrar a carreira, para que quando eles estivessem em idade escolar eu já estivesse parado na minha cidade, Porto Alegre. Então eu prezo muito esse momento de estar com as minhas filhas. Na medida em que decidi me tornar treinador, esses períodos de entressafra servem para que eu acompanhe o crescimento delas e não perca isso de vista, eu não abro mão disso. Se algum dia eu entender que algo está atrapalhando minha vida familiar, pode ter certeza que eu opto pela minha família. Em terceiro lugar, tem uma questão política também. Assim como eu não acho correto a gente ter o trabalho interrompido brevemente, pelos maus resultados, também não acho justo o treinador se empregar duas, três vezes no mesmo ano. Eu sei que em algum momento eu vou iniciar um emprego em janeiro e sair em março. Isso vai me fazer repensar em alguns momentos. Nesse caso, eu não posso ser penalizado e não me empregar no mesmo ano. No Atlético-MG, eu já tinha feito 30% do Brasileiro, tinha ido até julho, então achei coerente permanecer (sem clube) até o fim do ano. Se em outro momento o período for muito breve, pode ser que eu reveja isso e inicie um processo em um campeonato que nem começou ainda, por exemplo. Mas são três pilares, como eu disse: a avaliação do trabalho, a família e a profissão.

Outra coisa que chamou a atenção foi que, no Grêmio, quem encerrou o trabalho foi você. No Atlético-MG, por outro lado, você foi demitido com um aproveitamento alto. Qual é o balanço da sua passagem por esses clubes?
Então, é uma relação, é um casamento. É bom enquanto dura, enquanto há perspectiva. Cada trabalho terminado te dá uma bagagem. Engraçado que meu trabalho no Grêmio, em que não houve conquistas, é comentado como um grande trabalho. E o trabalho no Atlético-MG, que não foi finalizado, e teve conquista (Campeonato Mineiro), é considerado um insucesso. No Brasil, se você não é o primeiro, é atribuído como fracassado. Eu sempre transfiro a pergunta: se em um universo de dez grandes profissionais do Brasil você for o segundo, em qualquer categoria, acho que você vai ser bem reconhecido. Infelizmente no futebol não funciona bem assim. Mas a minha avaliação dos trabalhos é sempre positiva, independentemente da avaliação externa. A gente sempre aprende para posteriormente utilizar em uma outra empreitada.

Aquele Grêmio de 2015, que fez uma grande partida contra o Atlético-MG no Mineirão e goleou o Inter por 5 a 0, é a sua grande equipe como treinador?
Foram um ano e seis meses de trabalho. Quanto maior o tempo, mais elementos você consegue colocar. Naquele momento eu conseguia mudar a formação tática, o modelo tático, por vezes, com um treino. A base já estava muito feita. Quanto mais recente é o trabalho, mais dificuldade você tem. Você precisa de horas/treino para que aqueles conceitos sejam introjetados no atleta, para que eles gerem comportamentos e no dia do jogo não precisem pensar muito. É treinar o jogo para jogar o treino. Aquele momento, de um ano e meio no clube, também pela característica dos jogadores, nos permitiu fazer aquele tipo de jogo. E pode ser que em outro momento, com outras características, aquele tipo de jogo não possa ser repetido. É uma alquimia, com a característica do clube, a característica dos jogadores. Muitas vezes tu tem uma ideia do que vai sair, mas muitas vezes a conjunção daquilo te gera um elemento diferente do que o esperado.

Você costuma variar bastante o tipo de treino. Hoje (terça), por exemplo, havia um octógono desenhado com fitas no meio do espaço reservado para a atividade. Qual era a sua ideia com essa atividade?
A variação do treino é ampla, mas os conceitos são poucos. Hoje o treino foi todo baseado em comportamento de pressão pós-perda. Posse para alguns e comportamento de pressão pós-perda. A figura que a gente fez em campo, com as fitas, acabou sendo um octógono. É a que mais se assemelha à forma de um círculo. Eu costumo dizer que o jogo é um bobinho gigante e móvel. Se tu conseguir preservar a figura do círculo, com sete jogadores pela periferia e três jogadores por dentro, alternando as posições e mantendo a figura de círculo, tu leva vantagem. O círculo não deve ser tão grande a ponto de as conexões ficarem muito longas e nem tão apertado a ponto de quem está dentro da roda roubar a bola. Esse é o jeito que eu vejo futebol. E como consigo transferir isso para o campo? No treino. E como consigo colocar no treino? Tentando simular isso. Se tu pegar exatamente, hoje eu tinha oito contra seis dentro do círculo. O jogo, para mim, não é dez contra dez o tempo inteiro. Se tu bater uma foto de cima, tu vai ver que nos melhores momentos do meu time tem seis jogadores do adversário dentro do círculo e que os quatro jogadores de defesa deles estão fora. Eu não quero que meus atacantes fiquem brigando com os zagueiros no corpo, eu quero que eles ocupem o espaço. Se eles brigarem e quiserem medir forças, eles vão trazer o defensor para dentro do círculo. Entende o que eu estou dizendo? O octógono que a gente fez ali é justamente isso. Aquilo ali é o jogo para mim. A diferença é que, no jogo, ele é móvel. Um mantém a posse, outro pressiona. Hoje foi um treino de comportamento de pressão. Aí não é só a questão técnico-tática. Foi a continuidade do trabalho metabólico que o preparador físico fez. Teve um treino glicolítico aqui (em um campo) e o restante do glicolítico lá (em outro campo). Ele foi mais curto? Claro, tu não consegue fazer muito isso, senão cai o rendimento. É um trabalho curto e grosso. É interdisciplinar. Iniciou com a parte física, com movimento de saltos, troca de direção, e foi para o trabalho técnico-tático junto com a parte física. A minha formação como educador físico me deu essa facilidade. Talvez, se eu não tivesse essa formação, só a história como jogador, eu repetisse muitas coisas que eu gostava de fazer e que nem sempre são apropriadas para o momento.

Às vezes, até o treinador faz o treino físico.
Eu falo para os caras que o meu prazer quando jogava era fazer a parte física, tu acredita? Eu adorava fazer, não reclamava dela. Hoje, se pedir para entrar no treino com bola, eu não vou querer. Mas a parte física eu faço com eles às vezes.

Mas você ainda joga uma peladinha.
Com o pessoal da comissão eu tenho jogado, mas eu tenho um medo danado de me machucar. A cabeça ainda pensa rápido, né?

Você parou de jogar por causa de lesão, não é?
Por causa de todas as lesões, né? Não fui eu que parei, foi a bola que me parou. Ela que não quis mais ser minha amiga. Meu planejamento era até os 35. Eu planejei toda a minha vida. Primeiro planejei dos 15 aos 25 anos, depois planejei dos 25 aos 35... Eu planejo para os próximos dez anos e reviso em cinco. Por consequência, hoje, já tenho planejado até os 53. Eu já tinha artrose nos dois tornozelos, quatro cirurgias de joelho, uma de púbis, três hérnias de disco, uma coleção de lesões que meu esqueleto acusa hoje. Se tem uma nuvem no céu, alguma coisa está doendo no meu corpo.

O jogo contra o São Paulo, principalmente o primeiro tempo, foi o que mais exibiu os conceitos treinados aqui?
Bah! Perfeito! Acho que sim. Ali se cristalizou tudo o que a gente trabalha. Por vezes tu faz uma semana maravilhosa de trabalho e pensa: "se a gente conseguir reproduzir o que treinou vai ser bom". E às vezes aquilo não se reproduz nesse jogo imediatamente, se reproduz em outro jogo. Isso é a mágica do futebol. O jogo contra o São Paulo, principalmente o primeiro tempo, foi tudo o que a gente trabalha, tudo o que a gente estimula no dia a dia: a pressão pós-perda, a posse de bola, as inversões de lado, a velocidade na troca de passes, a compactação tanto no sentido de ataque quanto na defesa, fazer a manutenção do zero no placar... Contra o Ituano, os mesmos princípios que a gente viu contra o São Paulo, vimos com uma equipe diferente. Isso, para mim, denota que o treinamento está funcionando.

O time não conseguiu fazer o mesmo contra o Corinthians?
Acho que nós fizemos por muitos momentos. Em outros, a qualidade e a estratégia do adversário se sobrepuseram. Teve a inferioridade numérica, que dificultou a nossa reação no segundo tempo, quando entramos no jogo. Logo com cinco minutos, o Borja entrou em uma bola enfiada pelo Lucas e o Cássio defendeu muito bem. Talvez, com um gol de empate ali, o jogo se tornaria outro.

Falando em Borja, a evolução demonstrada por ele é nítida. Além do número de gols alto, está mais participativo, aparecendo diversas vezes na cara do gol fazendo as diagonais que você tanto fala. Quanto dessa evolução é mérito seu?
Primeiro tem a questão da adaptação, que a gente não pode desconsiderar. Qualquer profissional que vai para outra empresa e chega com a missão de resolver os problemas que havia anteriormente precisa de um tempo. É um novo país, uma língua nova, mesmo que seja parecida. São novos companheiros de trabalho também. Alguns têm uma adaptação muito rápida e outros nem tanto. Geralmente essa adaptação demora um pouco. Assim como os jogadores brasileiros que ficam muitos anos jogando fora do país precisam se adaptar quando voltam para cá. Não à língua, não ao país, mas ao futebol. O segundo momento é a questão do treinamento e da forma de jogar. A forma de jogar proporciona que aqueles espaços entre os zagueiros para que as bolas sejam enfiadas e as diagonais sejam feitas, que muitas vezes não existiam, apareçam mais. Quando o atleta, que tem por virtude essas características, percebe que esse modelo de jogo se adapta ao que ele gosta de fazer, a confiança retorna. Com a confiança retornando, naturalmente as coisas vão acontecer bem. Ele tem por virtude essas diagonais, a finalização de esquerda e de direita. É um jogador muito potente. Se o "timing" for bem feito, ele vai chegar cara a cara com o goleiro. São essas duas coisas: a adaptação e o modelo de jogo. E o resgate da confiança, né? Não é a comissão resgatando, é o jogador resgatando a confiança no seu jogo.

Você acompanhava os jogos dele pelo Nacional?
Acompanhava. Ele foi o melhor jogador da América, né?

E o Borja do Nacional era esse Borja que estamos vendo aqui? Ou ainda falta?
Sim, esse é o Miguel que vi jogar e que chamou a atenção da América inteira. Um jogador potente, que está sempre muito próximo da área, que tem uma velocidade grande em espaço curto, finaliza com as duas pernas, é forte para aguentar zagueiros vigorosos que se tem no futebol brasileiro e sul-americano. Está bem próximo, sim. Em números, com certeza, está muito melhor do que no passado recente. E na comparação com os números do Atlético Nacional também é muito parecido.

A média dele em 2018 é maior do que a média da passagem pelo Nacional.
É maior? Então, isso mostra, primeiro, que o atleta está feliz. Às vezes a gente não aceita: "ah, os jogadores são muito bem remunerados, esse tipo de problema eles não podem ter". Eles têm, são seres humanos. Costumo dizer que ninguém chega com a sua mochila dos problemas, deixa ela no armário e vem para o campo treinar. Nós somos seres humanos, com todos os problemas que vivemos dentro e fora do clube. Muitas vezes a gente precisa de um carinho, de um aconchego para se sentir à vontade. A gente sabe que, por vezes, a exigência do torcedor e a cobrança nos machucam e nos impedem de, no momento imediato, fazer tudo aquilo que a gente sabe.

O Lucas Lima não esconde de ninguém que está em meio a um projeto para disputar a Copa do Mundo. O posicionamento que você escolheu para ele, por ser parecido com o que ele poderia fazer com o Tite, ajuda?
É, mas não foi por isso, né? (risos) Ajuda porque o Tite joga com um tripé de meio forte, com três jogadores por dentro para que tu consiga liberar um pouco os jogadores de lado, mais leves, para que eles sejam desobrigados em alguns momentos da fase defensiva e que ainda assim tu tenha sete jogadores de peso forte para marcar atrás da linha da bola. Não tem segredo. No futebol você precisa ter sete jogadores o mais rápido possível com força para tomar a bola do adversário. E três jogadores vindo um pouco depois dessa linha para que a bola não tenha circulação de retorno e não entre pelo outro lado. Dá para defender dessa forma. O Lucas, jogando ali, contribui muito defensivamente. E muitas vezes a gente já viu o Lucas, ou pelo lado do Dudu ou pelo lado do Willian, na ausência desse retorno, fechando o setor. Aí aquele jogador vem recompor por dentro. Isso facilita. Não é a mesma forma, mas é semelhante do que o treinador da Seleção gosta na sua equipe. Foi dessa forma que a gente conseguiu encaixar o melhor jogo do Lucas, que é nos ajudando defensivamente, mas sem deixar de ter seu jogo, que é criar as oportunidades. Acho que hoje ele é o maior assistente do time na temporada, com quatro assistências e um gol. Ele está muito motivado. Jogador que tem os horizontes promissores na carreira sempre é muito motivado para trabalhar.

Você já disse que o Gustavo Scarpa pode jogar centralizado ou por qualquer um dos lados. Falando especificamente dele, desconsiderando o contexto do time, onde ele joga melhor
Depende. Quando eu conversei com ele, ele me relatou que jogou nas três posições. Quando tu pega um time muito fechado e consegue levar o adversário até perto da área lateralmente, mas não tem mais espaço, é melhor tê-lo com o pé invertido (jogando pela direita para finalizar de esquerda), para que ele consiga trazer para dentro e finalizar de longa distância. Quando você tem um jogador de área, ele é usado pelo lado esquerdo do campo. Assim, ele tem também o chute cruzado. E jogando centralizado eu tenho nele um jogador que tem capacidade de passar pelo adversário com a bola em jogada frontal, finalizar de média distância ou enfiar para um Borja, por exemplo. O que ele mais jogou, de fato, foi aberto pela esquerda ou pela direita. Parte do treinador conversar com o atleta e saber onde ele se sente mais à vontade. E se dentro da formação tática da equipe isso se encaixar, é onde ele mais vai ser usado. Até agora eu usei nas três posições.

As características dele são diferentes das características do Dudu e do Willian, que hoje são seus titulares pelas pontas. Para colocá-lo, então, será preciso mudar um pouco a estrutura da sua equipe?
Então, pois é. Um dos motivos de passar o Dudu do lado esquerdo para o lado direito é que tenho o Lucas como meia de articulação. O Dudu, que também foi meia na sua formação, pelo lado esquerdo traz a bola muito para dentro, em uma zona de articulação, e eu acabo ficando com dois meias no time. No ano passado, quando o Dudu trazia a bola para dentro, um dos jogadores do tripé de meio atacava a profundidade. O time perdia a profundidade com ele, mas um outro substituía. Hoje, como tenho o Lucas logo atrás, quando ele traz para ser um articulador, eu fico com ele e o Lucas por ali e perco a profundidade. Do lado direito, o Dudu se torna mais agudo. Eu ganho um jogador em profundidade para empurrar a linha de defesa para trás. Com o Scarpa, é a mesma coisa: depende do casamento das características. Vai ser o Lucas centralizado e o Scarpa pelo lado esquerdo, para ser outro articulador ao lado dele? Ou pelo lado direito, em que ele pode dar a profundidade e o Lucas ser o articulador? Isso depende de como casa. Eu gosto de ataque à profundidade. Depois que você conseguiu passar a primeira linha do adversário e caiu a bola na entrelinha, é o momento de atacar profundidade. Se eu não tiver jogador com essa característica, eu vou fazer um jogo muito apoiado e muito demorado para chegar no gol adversário. Eu preciso roubar essa bola e ter o Dudu do lado direito para puxar essa diagonal, ou ter um Keno. O Keno leva a bola até o terço final, com o pé invertido, para trazer para dentro e chutar. Ele é um jogador de velocidade, que joga de pé invertido e procura as costas do adversário para drible e chute. O Lucas é um articulador, ele precisa ter um cara como esse para municiar, senão ele vai fazer só um jogo muito curto. É um casamento, esse é o segredo. Tem espaço para todas as características, mas precisa ver o casamento delas.

Pelas variadas características, seria possível escalar um time para cada jogo, dependendo do adversário. Mas essa não me parece ser a sua ideia.
Tem alguns detalhes, algumas estratégias, que dá para fazer assim. Mas eu não consigo enxergar muito benefício em escalar um time por jogo. Você faz adaptações ao adversário, ao esquema que ele joga, porém não posso ficar refém dos adversários e me movimentar em função deles. Pode ser que eu treine a semana toda esperando que o adversário saia em X, e no jogo ele chega e sai em Y. O que eu faço com o que treinei? Então primeiro eu treino no nosso time, nas fortalezas e as características dele. E aí, sim, na adaptação ao que o adversário tem de melhor. Isso pode incluir uma mudança de lado, uma mudança de características, uma mudança de jogador, uma alternância em momentos do jogo. Vai depender do que o jogo vai pedir.

A base titular é a que terminou a fase de grupos, então? Pelo menos por enquanto, a ideia é não ter mudanças?
Depende (risos). Depende do que o jogo vai pedir.

Falando sobre a posição que você conhece melhor: Victor Luis, Diogo Barbosa e Michel Bastos brigam por vaga na lateral esquerda. Três é um número viável? Ou tem gente demais para pouco espaço?
O Michel, na verdade, é um misto. Ele joga em três funções: lateral, terceiro homem por dentro e aberto pelo lado esquerdo, porque também tem chute de média distância, foi onde eu vi ele jogando muitas vezes lá fora. No início, ele jogou como lateral, porque eu ainda estava procurando o casamento de características pela esquerda. Do Dudu com um jogador mais técnico, que pudesse ter essa aproximação. No início o Dudu estava sentindo um pouco porque, por vezes, só tinha ele naquela posição e o Victor é mais de força. Ele ficava um pouco isolado do jogo. Mas é sempre um problema bom, dependendo da forma como é administrado. O que o atleta de alto nível entende sempre é que ele tem que estar muito disponível no sentido físico e emocional para quando receber a oportunidade. Se em alguns momentos eu tiro um jogador e coloco outro na sua função, e aquele jogador desmotiva e baixa a qualidade do seu treino, isso vai fazê-lo me dar razão por tê-lo tirado. Tudo o que eu quero é não ter razão. Se eu preteri um jogador por outro, ele pode mostrar um bom futebol quando a oportunidade reaparecer e me dizer: "a razão estava comigo, quem errou em me tirar foi o treinador". É tudo que eu quero, ótimo, me dê esse problema de novo.

E eles estão entendendo isso?
Não tenho dúvida disso. Todos, sem exceção. Os que estão jogando estão motivados e quem está esperando a oportunidade também. Acredito que, nessa primeira fase do Paulista, todos aqueles que estavam inscritos jogaram. Claro que todo mundo deseja jogar mais, mas o objetivo é o ponto final. Jogando mais ou menos, todos são valorizados quando as conquistas acontecem.

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