Luiz Gomes: 'Fora você!'

Não fosse este um espaço para tratar de temas esportivos, poderíamos falar do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco. Não da brutalidade do crime ou da comoção que despertou por todo o país, mas das manifestações de ódio, intolerância e crueldade que se multiplicaram aos milhares pelas redes sociais. Comentários do tipo "comunista tem de morrer" ou "tá vendo o que dá defender direitos humanos de marginal?" soam quase como inacreditáveis diante da história da moça e das circunstâncias de sua morte. Mas são muito reais. Até uma desembargadora carioca - Marília Castro Neves, vale guardar esse nome - escreveu acusações de que Marielle era ligada a bandidos, sem ter, obviamente, qualquer elemento que isso indique. Questionada, a meritíssima disse apenas que baseou-se em informações de uma amiga que recebera pela internet. Um belo exemplo para quem tem por dever de ofício julgar fatos e não versões, provas e não suposições. Enfim...

Ok. Vamos falar de futebol. Mas vamos continuar a tratar do mesmo tema. Afinal, a intolerância, os preconceitos, a facilidade de pré-julgar e condenar os que não compartilham das mesmas ideias não é muito diferente também no mundo da bola.

Convocado por Tite para os dois últimos amistosos da Seleção brasileira antes da Copa, contra a Rússia e a Alemanha, Willian José, atacante do Real Sociedad, da Espanha, recebeu uma saraivada de críticas - o que faz parte do jogo - e insultos preconceituosos nas redes sociais. Reagiu com elegância: "As pessoas me criticam e me julgam muito pelo que aconteceu quatro, cinco anos atrás. Acho que ninguém parou para me acompanhar na Espanha desde que eu cheguei. Muita gente não tem oportunidade de assistir aos jogos", comentou. E este é um dos pontos cruciais. O jogador está coberto de razão. Quantos que condenaram sua convocação realmente o viram jogar? Quantos sabem do momento que ele vive na carreira? Willian já marcou 17 gols em 30 partidas na temporada e recebeu elogios que quase o levaram a se naturalizar para jogar pela seleção espanhola.

Nada disso importa, não há argumentos contra o vandalismo moral que domina hoje essas redes sociais. No país da intolerância, em que tudo vira um Fla x Flu, o importante é ser do contra. Não interessa o debate de ideias, o objetivo é, sempre, massacrar "o adversário". Você não gosta de Willian José? Do Anderson Talisca? É um direito seu. Mas desmoralizar um jogador, desqualificar uma pessoa - seja em que atividade for, aliás -, apenas por conta do que você acha ou deixa de achar nada tem a ver com liberdade de opinião e expressão. É, muito ao contrário, um abuso de direito. Um atentado aos direitos.

Nem Tite, até então quase uma unanimidade nacional, não escapou dessa vez. Também foi vítima de ataques hediondos. "Isso é coisa de técnico que ganha grana de empresário para convocar um jogador e valorizar seu passe", foi o que se viu escrito por aí. E olha que tinha coisa muito pior, aqui impublicável. Tite pode até ter errado. Eu também não teria convocado Anderson Talisca, por exemplo. Isso é uma coisa, outra coisa é duvidar-se da integridade do treinador.

É outra vertente do momento em que vivemos. Já não basta mais ser inocente, tem de se provar inocência. O direito de errar por mera tentativa de acerto, sem ter segundas ou terceiras intenções, foi simplesmente cassado do cidadão. Na política, no esporte, na empresa, na escola, no condomínio onde você mora. No Brasil da radicalização, fez o que eu acho certo - mesmo que isso seja errado, por vezes imoral - você está do meu lado, claro, sempre o lado do bem. Do contrário, prepare-se para virar vilão. Sejam quais forem as circunstâncias, seja o quanto um dia você já foi endeusado, elogiado e feito um rei! A palavra de ordem será Fora você!

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