Após 2 anos de morte, torcida única 'convence' PM e divide clubes

Há exatos dois anos, José Sinval Batista foi atingido por um bala perdida durante confronto entre torcedores de Corinthians e Palmeiras e acabou morrendo. O homem, que tinha então 53 anos, não participava da briga ocorrida em São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo. O choque entre membros da Gaviões da Fiel e da Mancha Alvi-Verde também resultou em mais de 50 feridos. No dia seguinte, as autoridades do estado tomaram uma medida drástica e vetaram a presença de torcida visitante nos clássicos. A proibição segue em vigor e não há prazo para ser abolida.

O LANCE! ouviu dirigentes dos quatro clubes envolvidos (Corinthians, Santos, São Paulo e Palmeiras), as principais torcidas organizadas desses times, a Polícia Militar, o Ministério Público do estado e o sociólogo da Universo Maurício Murad, especialista no tema, para fazer um balanço da medida após 24 meses.

A decisão foi tomada pela Secretaria de Segurança Pública em conjunto com Polícia Militar, Ministério Público e Federação Paulista de Futebol. De abril de 2016 a abril de 2018, três mortes foram registradas em dias de jogos e não há previsão de que a polêmica medida seja suspensa.

As autoridades usam dados da Policia Militar para sustentar que a torcida única reduziu episódios de violência, aumentou a renda do mandante nas partidas, permitiu que o deslocamento de efetivo para outras áreas e alterou o perfil do público nas partidas, com mais mulheres e crianças. Os dirigentes dos clubes têm opiniões divergentes, as organizadas fazem coro contrário e o sociólogo enumera quatro argumentos para posicionar-se contra (confira em detalhes mais abaixo).

Mortes após a medida

Em 17 de setembro de 2016, o corintiano Daniel Veloso, de 22 anos, foi morto horas depois do clássico entre Corinthians e Palmeiras, em Itaquera. Ele, que era membro da Gaviões da Fiel, foi espancado em Itapevi, a cerca de 60 quilômetros do estádio.

Em 13 de julho de 2017, o palmeirense Leandro de Paula Zanho, de 38 anos, foi esfaqueado também depois de um Dérbi, este válido pelo Brasileirão, em Marechal Deodoro. Em ambos os casos, torcedores rivais são apontados como os assassinos.

Já em 4 de março de 2018, o corintiano Danilo da Silva dos Santos, de 31 anos, foi espancado por integrantes da Torcida Jovem, do Santos, em Itaquaquecetuba. Todos os casos aconteceram longe dos estádios onde ocorreram as partidas.

O que diz o Ministério Público?

Para sustentar a decisão da Secretaria de Segurança Pública, o Ministério Público de São Paulo usa dados de estudo feito pela Polícia Militar. Eles apontam para uma diminuição da violência no dias dos jogos e no número de efetivo deslocado para os jogos, além do aumento do que chamam de "público familiar", que inclui mais mulheres e crianças. Outra alegação é a do crescimento de público e renda de bilheteria para o clube mandante. Para o promotor Paulo Castilho, torcidas organizadas são instituições falidas e o modelo atual teria de ser extinto

- Vamos ser realistas, com ponderação e coerência. Atualmente, nas torcidas organizadas, você tem uma filosofia de busca por poder e dinheiro. Qual o caminho para obter isso? A violência. Existem dissidências dentro da própria torcida e os líderes se impõem com violência. O modelo de organizada precisa ser revisto. Esse modelo atual sucumbiu. É inadmissível colocar duas torcidas dentro do mesmo estádio de futebol. Torcida deveria ser extinta. Se houvesse uma mudança de postura, poderia ser pensado, mas não há. Você afasta uma liderança e surge outra. Eles funcionam como uma organização criminosa. Embora sejam boas pessoas individualmente, a filosofia é equivocada - argumenta Castilho à reportagem.

Abaixo, um comparativo de abril de 2015 a abril de 2016, com torcida mista, e de abril de 2016 a julho de 2017, já com torcida única. São dados de um estudo feito pelo 2º Batalhão de Choque da Polícia Militar aponta para um crescimento de público e diminuição das escoltas.

O que diz a Polícia?

A Polícia Militar se apoia nos próprios dados numéricos que apontam para uma diminuição considerável dos problemas em dias de clássicos. O 2º Batalhão da PM é quem tem sido o responsável por gerenciar a segurança em dias de jogos.

- O balanço é muito positivo. Nós temos aqui uma redução de efetivo, que pode ser deslocado para outros lugares. Mais de 30% na parte interna e 15% na parte externa. Diminuímos em 65% as escoltas. E assim temos condições de empregar o efetivo em torno do estádio o em outras áreas que a cidade necessite. Por experiência de mais de 17 anos na corporação, posso dizer que houve uma mudança no público. Há um público diferenciado, com mais família. Acho difícil essa medida de forma tão imediata voltar atrás. Não tivemos mudança significativa de comportamento das torcidas. Seguem usando material proibido dentro e fora do estádio. No jogo entre Corinthians e Palmeiras, por exemplo, levaram sinalizadores, latas de fumaça - diz o Major Paulo Vilariço, do 2º Batalhão da Polícia Militar, referindo-se ao jogo do último sábado, na Arena Corinthians, pela final do Paulistão.

E o clubes, o que acham?

?O LANCE! ouviu os quatro presidentes dos clubes afetados pela medida de torcida única. No caso do Santos, o vice Orlando Rollo foi quem respondeu por José Carlos Peres, em viagem. Assim como Andrés Sanchez, que falou sobre o tema em Congresso Técnico da Federação Paulista de Futebol, Rollo é contra o veto. Maurício Galiotte, do Palmeiras, adota uma postura mais cautelosa. Já Carlos Augusto de Barros e Silva, do São Paulo, se diz a favor no no momento atuial, embora deseje uma rápida mudança. Confira:

Andrés Sanchez, presidente do Corinthians:

- Eu sou a favor de voltar as duas torcidas, mas também temos que entender o lado das autoridades. Precisamos respeitar, não podemos fazer muita coisa.

Orlando Rollo, vice-presidente do Santos:

- Sou contra torcida única, não concordo. A torcida faz parte do jogo, inclusive a adversária. Já solicitei uma audiência com Paulo Castilho para tratar do tema, ainda não tem data e falaremos apenas pelo Santos, mas sou contra o chamado futebol moderno.

Carlos Augusto de Barros e Silva, presidente do São Paulo:

- Idealmente, as torcidas conviveriam pacificamente, mas isso tem se mostrado difícil nos últimos tempos. Além disso, as estatísticas apresentadas pela Polícia Militar mostram uma redução significativa dos incidentes e enfrentamentos. Por isso, acredito que infelizmente ainda seja uma decisão que devemos manter por ora, mas precisamos buscar alternativas para que essa situação mude o quanto antes.

Maurício Galiotte, presidente do Palmeiras:

?Como torcedor palmeirense, eu lamento muito que o estádio não tenha duas torcidas. Entendo que isso tira o brilho do espetáculo. Significa uma derrota da

sociedade. Como gestor do clube, compreendo a atitude das autoridades responsáveis pela segurança do evento. Eles são os especialistas e entendem que dessa maneira conseguem garantir as melhores condições de segurança para o público. Espero que no futuro possamos ter de volta a autorização para termos as duas torcidas no estádio.

Especialista contesta com quatro pontos

?Sociólogo da Universo e especialista em torcidas organizadas e violência no futebol, Maurício Murad faz uso de quatro pontos principais para ser a favor do retorno de torcida dos dois times envolvidos nos clássicos de São Paulo. O L! lista:

- Torcida única é a declaração de incompetência das autoridades. Atingem a consequência e não a causa do problema. É como enxugar gelo. É uma canetada de cima para baixo. Fere o torcedor e o negócio do futebol como um todo.

- Festejar a redução de incidentes é como a paz no cemitério. Se eu retirar as duas torcidas, é provável que não haja conflito nenhum. Os conflitos acontecem longe do estádio de futebol. Violência não é do futebol, é no futebol. Porque no futebol é tudo acentuado, é paixão.

- No Sul, houve redução dos números de violência e não foi por torcida única, mas sim torcida mista em clássico de temperatura alta, que é Internacional e Grêmio, uma das maiores rivalidades do país. Uma medida que não fere a cultura do futebol.

- Por fim, não adianta dizer que houve redução do efetivo e dos gastos. Segurança Pública é caro, custa muito. Mas o retorno é positivo. É preciso tratar a causa. E a causa são as gangues dentro das torcidas organizadas, que vêm do tráfico de drogas e armas. É preciso criminalizar a torcida como um todo. É preciso separar a erva daninha do restante, não é 100% da organizada que é problema, mas o problema está 100% nela. As punições têm de ser duras e não podem ficar pela metade do caminho.

Organizadas pedem diálogo e contestam punição

Principais "culpados" pelo veto às torcidas visitantes nos clássicos, as maiores torcidas organizadas dos clubes paulistas são unânimes em criticar as autoridades. O discurso dos líderes é praticamente o mesmo: querem diálogo e uma revisão da punição, que até então era vista como necessária quando um inocente morreu durante confronto. ?

?

Rodrigo Gonzalez Tapia, presidente da Gaviões da Fiel, do Corinthians

- Os Gaviões da Fiel são totalmente contra a medida de torcida única. Essa punição tira o clima de festa e a empolgação dos torcedores que estão nas arquibancadas. O principal papel que a torcida exerce dentro do estádio de futebol é levar o seu time até a vitória, infelizmente as autoridades que entendem esse nosso mundo, nos tiraram o direito de ocupar o nosso lugar. Medida, que na prática, não teve resultado. Brigas e mortes já ocorreram pra comprovar que tirar a torcida do estádio não é a solução. Sempre alertamos que essas medidas só servem pra abafar a pressão da opinião pública, para dizer que estão fazendo algo. É muita proibição para pouca solução ou vontade de achar um caminho, estamos disposto a dialogar com todos e achar a forma correta para que tenhamos visitantes e festas nos estádios.

?Rafael Soares, diretor-geral da Torcida Jovem, do Santos

- Eu, como diretor-geral da Torcida Jovem, sou totalmente contra. Não é a solução para o problema. Acaba com o espetáculo. Não tem aquele sarro, aquela brincadeira, cantar mais alto do que a torcida rival. Eles não queriam diálogo, agora querem. As brigas acontecem longe dos estádios, é questão de segurança pública, prevenção, ter o cuidado de evitar esse tipo de coisa. Estado de São Paulo decretou falência com essa medida. Eles têm um problema e não sabem como lidar com ele.

Henrique Gomes de Lima, presidente da Independente, do São Paulo

- Somos contra. O problema social está na falta de educação e na violência que estão presentes na vida de grande parte dos brasileiros desde sempre. A festa no estádio acabou em 1992, quando proibiram bandeiras, festa de massa (punição imposta após confronto entre são-paulinos e corintianos). Somos reféns do sistema. O estado do Rio de Janeiro está falido e, mesmo assim, tem duas torcidas. Como aqui não tem? Tem de punir com CBF e não com CNPJ. Não é a entidade que deve ser punida. Mas que fique claro que não estamos querendo comprar briga com ninguém. Somos a favor do diálogo. No começo, a medida foi válida. Já não é mais.

André Guerra, presidente da Mancha Alvi-Verde, do Palmeiras

- Achamos que é uma medida totalmente errada. Não trouxe benfício algum. Palmeiras e Corinthians não acontecia há muito tempo. É absurdo, ineficaz. Só perde o espetátculo, perde rivalidade entre os times. É uma questão de segurança pública. Quando a medida foi colocada em prática, foi certo. Tinha que dar um choque de realidade em todo mundo. Morreu um inocente. Só que ficar dois anos com isso não adianta. O que adianta é ter diálogo, ter conversa com as autoridades. O futebol não pode pagar pela falta de segurança pública no páis. No ano passado, tivemos um contato com Dr. Paulo (Castilho), pedimos um voto de confiança. O caminho é o diálogo.

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