Impedido de ir ao Brinco, fanático pela Ponte perde segundo Dérbi em 53 anos e espera ídolo em casa

Pontepretano fanático, bem-humorado, brincalhão e famoso pelos alvinegros, o senhor Américo Zeferino Bissoto, ou simplesmente Totó. Aos 69 anos, o fanático segue a Macaca há mais de 50. Seria mentira dizer que ele jamais deixou de ir a um Dérbi Campineiro no período, mas é quase isso.

Neste sábado, quando Guarani e Ponte Preta se reencontram pela Série B, no Brinco de Ouro, será apenas a segunda vez na história que Totó não poderá acompanhar o clássico de perto. A primeira, ao contrário do que acontece em 2018, foi por uma razão nobre, quando a sua esposa marcou o batizado da sua primeira filha justamente no dia do jogo. Agora, os torcedores da Ponte não poderão ir ao Brinco por conta da exigência de torcida única em São Paulo, vigente desde 2016 e inédita na história do Dérbi de Campinas, que volta a ser realizado após cinco anos.

O torcedor teceu críticas a Paulo Castilho, promotor do Ministério Público do Estado de São Paulo, por vetar a presença de duas torcidas.

- Dérbi com torcida única não tem nenhuma graça e perde todo espetáculo. Clássico sem a torcida visitante fica feio para todos. O mundo precisa ter menos violência, menos ódio e mais respeito ao próximo. - afirmou "seu" Totó", que atendeu à reportagem do LANCE! na última quarta-feira, horas antes de ir ao embate contra o Flamengo, pelo primeiro jogo das oitavas de final da Copa do Brasil (Ponte perdeu por 1 a 0).

- Até hoje, só teve uma vez que deixei de ir ao Dérbi. Minha filha nasceu no dia 8 de agosto de 1978. Minha esposa marcou o batizado dela justamente num dia de jogo. Isso foi em 1980. Já estava marcado o negócio, não teve jeito de ir por ser o batizado da minha filha e foi a única vez que eu não fui ao clássico. Eu lembro que eu estava escutando o jogo no radinho e a Ponte ganhou esse jogo de 1 a 0. Depois de quase 40 anos, eu vou perder o segundo Dérbi agora por causa da torcida única - afirmou.

Ele bateu um papo descontraído com a reportagem por quase 40 minutos. Sabe aquele amor em que o sentimento faz o coração bater forte? Pois então, seu Totó relatou várias histórias de paixão que envolve a Macaca.

O primeiro contato e o amor à primeira vista aconteceram há 53 anos. Isso foi em 1965, em um jogo entre Ponte Preta e Portuguesa Santista. A primeira vez dele ao estádio não foi do jeito que ele imaginava. Na época, a Ponte perdeu para a equipe da Baixada Santista e apenas um empate garantiria a Ponte de volta à primeira divisão do futebol paulista. O responsável por levar ele à arquibancada foi o seu pai, Luiz Bissoto.

Américo Pissoto fará 70 anos em setembro, é empresário no ramo de agropecuária e tem um estabelecimento local em Vinhedo (SP), onde ele mora com a família. Ele é sócio desde 1967 e tem direito a voto na eleição. Cego no olho esquerdo desde os seis meses de idade, Totó vai sozinho em todos os jogos do clube de coração, seja no Moisés Lucarelli ou fora de casa. Apesar do problema na vista, Américo não se intimida de enfrentar barreira para superar obstáculos no dia-a-dia, tem muita garra e disposição com um garoto qualquer, tanto que costuma dirigir por conta própria para ver de perto a Ponte.

- É impossível eu te dizer exatamente quantos jogos já fui até hoje. Vou acompanhar à Ponte onde ela estiver - disse o pontepretano.

Perguntado sobre a importância do Dérbi, a paixão e o orgulho de derrotar o maior rival fez o torcedor reviver o auge do clássico campineiro. "Ó, vai ter o Dérbi, vai ter o Dérbi. Vamos nos organizar, pessoal", era com essa mensagem, quatro meses antes da data, que Totó alertava sobre o duelo (leia mais abaixo). O empresário admitiu que gosta de viver o clima do clássico campineiro e disse que o duelo "vale mais do que a Copa do Mundo".

Totó revelou que seus amigos estão se mobilizando e até convidaram o ex-atacante Dário Gigena para assistir o clássico em sua casa, neste sábado. Ele gostaria da presença do argentino para tomar um chope e comer churrasco. Gigena caiu nas graças do torcedor pontepretano ao marcar três gols em um Dérbi de 2003. O ex-atacante saiu carregado pela torcida e entrou para a galeria de ídolos dos alvinegros.

- Ele é um ídolo nosso, né? Tem uma amiga nossa que conversou com ele e o Gigena confirmou mesmo que está vindo mesmo para Campinas ver o jogo. Então estamos na expectativa para que ele compareça aqui em casa. O convite para ele já foi feito. Sei que ele vai fazer algumas participações nos programas aqui e quem sabe que o Gigena vem para cá tomar um chope. Vou ficar emocionado e honrado se vier - disse. Veja abaixo um vídeo de 2011, quando o ídolo visitou o Moisés Lucarelli e repetiu o que fez em campo contra o Guarani: colocou uma máscara da Macaca. Totó reconhece que a equipe do Bugre está mais entrosada do que a Ponte e prevê empate com gols, no sábado.

Um bate-papo com Totó

LANCE!: Como nasceu a sua paixão pela Ponte Preta?

Totó: A história começou em 1965. Meu pai me levou para ver um jogo da Ponte Preta contra a Portuguesa Santista. A Ponte precisava de um simples empate para subir à Primeira Divisão. Perdemos de 1 a 0, com gol de Samaroni. Eu precisava escolher um time de futebol para torcer e eu falei: "Pô, para que time eu vou torcer?". Eu me encantei pela torcida da Ponte nesse jogo, pela história do clube e foi daí que nasceu essa paixão. Dois anos depois de me tornar pontepretano, eu já era sócio do clube. Em 1969, eu vi o primeiro acesso da Ponte estando nas arquibancadas. Foi emocionante.

L!: Como está sendo o clima em Campinas essa semana para o preparativo do Dérbi? O que é um Dérbi para um pontepretano?

Totó: O Dérbi, eu vou contar para você, viu: é uma coisa em que Campinas chega a parar, pois esse assunto chega a falar durante a semana toda. Só que antigamente era muito mais repercussão, porque tinha muitos mais jogos para ver, seja no Paulistão, Campeonato Brasileiro... Antes de começar o Dérbi, eu já me programava com os amigos uns quatro meses antes para ir ao jogo e eu falava para eles: "Ó, vai ter o Dérbi, vai ter o Dérbi. Vamos nos organizar, pessoal". Não tinha essa confusão como tem hoje. O Dérbi para mim, como também para muitos pontepretanos e bugrinos, é uma grande festa e tinha a mesma importância de Palmeiras x Corinthians, Grêmio x Internacional. Para gente que é do interior, é coisa de outro mundo.

Hoje o futebol está muito esquisito, o nível técnico dos dois times caiu muito, mas uma coisa nunca vai mudar: Dérbi é Dérbi. O Dérbi Campineiro é um dos maiores acontecimentos na história do futebol brasileiro, junto com Palmeiras e Corinthians, GreNal, Vasco e Flamengo, todos esses clássicos tradicionais têm suas importâncias. O Dérbi mexe com o clima da cidade, com os jogadores, imprensa. O Dérbi é muito diferente e eu gosto de viver esse clima de Dérbi. Vou em todos os jogos da Ponte, conheço quase o Brasil inteiro, porque viajo bastante para ver a Ponte e na Copa do Brasil eu vou em todas. Mas eu vou falar uma coisa para você. Nunca fui em uma Copa do Mundo, vivo acompanhando futebol, eu adoro futebol, porém eu não tenho vontade de ver um jogo da Copa. O Dérbi vale muito mais do que a Copa do Mundo. De 50 e tantos anos que eu vejo futebol, sei que a gente nunca ganhou nada de título, então já vi muitos Dérbis e é uma coisa que mexe com a cabeça da gente.

L!: Qual é o Dérbi mais marcante para você?

Totó: Já fui em muitos, mas tem três Dérbis que me marcam: Teve o Dérbi do dia 5 de agosto de 1981 em que a Ponte foi campeão paulista em cima do Guarani no primeiro turno. A Ponte ganhou o jogo de 3 a 2 e aconteceu no Moisés Lucarelli. Outra memória que eu tenho do Dérbi foi quando o clássico ocorreu no Pacaembu. A Ponte perdeu para o Guarani por 2 a 0 e o estádio estava cheio. Tinha quase 40 mil pessoas naquele dia. O Dérbi em que eu mais vibrei foi quando a Ponte quebrou o jejum do Guarani. Isso aconteceu em 2002. A gente ficou 15 anos sem ganhar deles. A Ponte começou a ser alvo de gozações deles, o narrador que estava no alto-falante mandou tocar antes do jogo a "Valsa do Debutantes". O Guarani começou fazer 2 a 0, mas viramos o jogo e ganhamos de 4 a 2, lá dentro do Brinco de Ouro. Todos esses três Dérbis estão marcados na minha memória.

L!: O que o senhor pensa sobre a torcida única?

Totó: Eu acho um absurdo ter torcida única em clássicos. Eu já assisti a tantos clássicos e é a primeira vez eu vejo essa medida a ser adotada em mais de 40 anos. É possível fazer clássicos com duas torcidas. Só é preciso tirar os baderneiros do estádio e as autoridades sabem quem eles são. É a primeira vez na história que vai ter esse Dérbi. É um absurdo isso aí. Eu não sei o que passa na cabeça desse excelentíssimo (promotor Paulo Castilho).

L!: Já que o senhor não vai ao jogo, vai reunir os amigos em casa? Qual é o seu plano para assistir o clássico?

Totó: Muita gente me ligou o que eu iria fazer e resolvemos fazer um churrasco aqui em casa, vamos tomar um chopp. Só vai vir os amigos pontepretanos. Combinamos de começar na parte da tarde, pois trabalho de manhã. "Pô, depois de 40 anos ficar sem ver o Dérbi no estádio. Puta vida. Mas fazer o que, né?"

L!: Como está o coração para sábado?

Totó: Vou falar uma coisa para você, viu: "Coração tá bem, mas a ansiedade é grande". O Dérbi não tem favorito, mas o Guarani está em uma evolução, tem time mais encorpado, porque eles acabaram de subir para a primeira divisão do Paulista e então eles têm essa vantagem por ter time mais entrosado. Já a Ponte ainda está em formação, aos poucos vai ganhando confiança. O Dérbi é imprevisível e tudo pode acontecer. Eu não sei como vai ser esse jogo, mas vai ser difícil e equilibrado. Acho que esse jogo irá terminar empatado em 1 a 1.

L!: O que é ter o Guarani como rival?

Totó: Os bugrinos querem ver a Ponte lá em baixo e os pontepretanos querem ver eles lá na terceira divisão. Mas eu tenho um pensamento diferente, sabe. Isso não é bom para o futebol de Campinas. Nós já fomos a Capital do futebol brasileiro durante os anos 70 e 80, os dois times tiveram jogadores na Seleção Brasileira. Eu acho que precisa haver uma união entre os dois times da cidade, pois só assim teremos a mesma força de antes. Não é bom ficar muito tempo sem Dérbi. As torcidas precisam conviver com uma rivalidade sadia e assim todo mundo vai sair ganhando. É bom ver os dois times brigando lá em cima, eleva o patamar dos dois, é bom pra cidade e o Dérbi é gostoso de ver.

L!: No último Dérbi que aconteceu entre os dois times (2013), como foi acompanhar a vitória (3 a 1) lá dentro do Brinco?

Totô: A Ponte saiu na frente com o Willian Batoré, depois o Guarani empatou com o Fumagalli e a Macaca passou na frente com um golaço de falta do Luís Ramirez. Eu não sei como aquele peruano fez aquele golaço. Até hoje não consigo entender se a intenção dele foi cruzar para a área ou se resolveu mandar direto para o gol mesmo. O Bruno Silva fechou a conta aquele dia. Foi um dia em que eu nunca vou esquecer. Aí depois que acabou o jogo foi aquela festa da nossa torcida. Calamos o estádio inteiro. Outro Dérbi que eu gosto de falar foi quando o Dário Gigena fez três gols em cima deles, lá no Brinco de Ouro. Ganhamos de 3 a 1, sobre o Guarani. Aquele argentino era desconhecido, se identificou com a Ponte, caiu nas graças da torcida e virou nosso ídolo. Foi uma chuva do caramba naquele dia. Esse jogo aí aconteceu em 2003. Eu soube que o Gigena está vindo para Campinas ver o jogo e quem sabe ele venha até aqui em casa para ver o jogo com o pessoal.

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