Luiz Gomes: 'O jogo danoso da política no futebol brasileiro'

Quando o futebol vira caso de polícia, há algo que precisa urgentemente mudar. Em menos de dez dias, as diretorias de Flamengo e Vasco tiveram que ir à delegacia registrar queixa contra ameaças sofridas por seus jogadores. Só para lembrar: os rubro-negros, na semana passada, foram cercados e agredidos em pleno aeroporto do Rio durante o embarque do time para Fortaleza onde enfrentou e venceu o Ceará. E, na última sexta-feira, um grupo de vândalos travestidos de torcedores do Vasco invadiu São Januário, parou o treino para pressionar e ameaçar o elenco. Até tiros foram ouvidos

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Não são, certamente, episódios isolados frutos apenas da insatisfação da torcida com os momentos ruins vividos pelos dois times. O Flamengo, aliás, começou esta rodada como líder do Brasileirão. Por traz das manifestações, em ambos os casos, há claras motivações políticas. Na Gávea, não se deve esquecer, uma eleição se aproxima, no fim do ano. No Vasco, o tumultuado processo eleitoral que levou à escolha de Alexandre Campello, consumada após intermináveis idas e vindas na Justiça, parece que não acabou. A disputa entre os grupos continua nos bastidores do clube e inflama atitudes como a que se viu nas arquibancadas no jogo contra o Cruzeiro e na invasão de sexta no estádio.

Os problemas do Vasco não estão dentro do campo. Vão muito além de um elenco frágil, de uma defesa que mais parece um queijo suíço de tanto buraco que tem, de um ataque inconsistente e inócuo. A eliminação de uma Libertadores a que chegou por acaso, graças ao pequeno milagre promovido por Zé Ricardo no ano passado, nada mais é do que a consequência de quase duas décadas de gestões desastrosas e alternadas da dupla Roberto Dinamite e Eurico Miranda - e de seus asseclas. Uma herança que se reflete na situação financeira caótica, nas mazelas da política interna, marcada por fraudes e viradas de mesa, e na irracionalidade que se vê, com vascaínos brigando com vascaínos.

Sim. O maior adversário do Vasco hoje em dia é o próprio Vasco. E as feridas dessa truculenta batalha interna estão à mostra. Quem ouviu o som das manifestações em São Januário pode perceber que no mesmo tom e na mesma intensidade dos gritos de protesto e de cobrança aos jogadores, o nome de um candidato derrotado nas eleições passadas foi saudado pelos "torcedores". O de outro foi execrado. Alguém acredita que isso é gratuito?

Os interesses coletivos, sociais ou esportivos há muito deixaram de ser uma prioridade para quem vive na (ou da) política vascaína. O objetivo dessa gente é tão somente chegar, manter e desfrutar do poder pelo poder. Custe o que custar e independentemente do que é bom ou ruim para o clube. No Vasco, são as próprias vontades que norteiam as atitudes de quem dirige e de quem se opõe a quem dirige. O arcabouço perfeito para a proliferação da crise.

Processos eleitorais conturbados costumam prejudicar o ambiente e o desempenho dos clubes. São o ponto de partida de um círculo vicioso e de efeitos nefastos. Uma triste rotina no futebol brasileiro. Não raramente, ações como a dos vândalos rubro-negros e vascaínos são articuladas por quem usa esses grupos como massa de manobra. As organizadas invariavelmente estão envolvidas, recebendo benesses e promessas de um lado ou de outro. São manifestações que, definitivamente, não representam o sentimento dos verdadeiros torcedores.

Nas últimas décadas, é verdade, boa parte dos clubes passou por um processo interessante de democratização, alterando seus sistemas eleitorais e ampliando a participação dos sócios. Mas o cerne da questão é outro: enquanto o amadorismo prevalecer na gestão, enquanto não forem profissionalizados e geridos como empresas - num regime em que o cartolagem, de fato responda por seus atos - os clubes estarão expostos ao danoso jogo da política interna. Com tudo o que ele tem de ruim. .

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