Filosofia e títulos: Iniesta deixa Barça com legado que vai além da Espanha

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    Iniesta se despedirá do Barcelona no domingo

    Iniesta se despedirá do Barcelona no domingo

Quando Andrés Iniesta foi substituído no minuto 88 da decisão da Copa do Rei, vencida pelo Barcelona contra o Sevilla (5 a 0), o meia foi ovacionado por mais de 67 mil presentes no Wanda Metropolitano naquele sábado, dia 21 de abril. Adeptos e rivais, todos se levantaram para aplaudir o jogador de 33 anos que deixava o gramado. Entre lágrimas e agradecimentos, a emblemática cena mostra um breve resumo da carreira do camisa 8: respeito conquistado através do tempo e um legado que marcou o futebol espanhol - e porque não, mundial. Neste domingo, na última rodada do Campeonato Espanhol, já conquistado pelo Barça, o ídolo dá adeus ao Camp Nou na partida contra o Real Sociedad, marcada para as 11h de Brasília (haverá antes, nesta sexta, no mesmo estádio, uma festa para convidados dedicada a Iniesta).

Este domingo será dedicado ao jogador, com mosaico especial ao craque, festividades e a entrega da taça de campeão espanhol da temporada.

São 16 anos de carreira a contar da ascensão aos profissionais do Barcelona em 2002, ainda com atuação pela Seleção Espanhola desde 2006. São mais de 700 jogos disputados e 32 títulos conquistados, entre eles uma Copa do Mundo, quatro Ligas dos Campeões, três Mundiais de Clubes, oito Campeonatos Espanhois, seis Copas do Rei, entre outros. A história do atleta dentro das quatro linhas com o Barça vai chegar ao fim junto com o término da temporada, o que se tornou público quando ele anunciou sua despedida.

"Queria tornar a decisão pública. E antes de acabar, que haja os atos de homenagem e o que tiver de ser. E antes de acabar gostaria de agradecer ao clube, a La Masia, porque o que sou como jogador e pessoa em grande parte foi por eles. Aos meus companheiros e todas as pessoas. Complicado. A todos os que estão no dia a dia, nestes anos, em todas as temporadas. Também a todos os torcedores que mostraram seu carinho no campo de futebol", disse o camisa 8 em sua coletiva de despedida.

O Barcelona perde um gênio clássico e inteligente que contraria a perspectiva do futebol veloz para ser dominante com um ritmo mais lento. Os amantes do futebol, no entanto, agora torcem por uma proposta do futebol chinês ao meia e ainda por suas aparições na Copa do Mundo da Rússia.

É inegável que Andrés deixa um legado, mas, que marcas são essas? Sem dúvidas, Iniesta é o maior jogador espanhol da história. Também não há discussão sobre o quanto foi fundamental para mudar o Barcelona de patamar no futebol europeu. Iniesta é um jogador diferenciado, e o LANCE! conversou com jornalistas para entender a lacuna que o jogador deixa no futebol.

'Filosofia Culé': a criação de uma nova identidade para o Barcelona

Mais do que estatísticas, Iniesta é uma lenda pelo que representou dentro e fora de campo. Seu estilo de jogo, junto com Xavi e Messi, ditou um novo modo de jogar futebol e influenciou diretamente na forma que a modalidade tem sido trabalhada. A soberania do Barcelona passava pelos seus pés e, mais do que ganhar a qualquer custo, criou uma nova identidade para o clube.

A filosofia culé, herdada do Ajax e levada por Cruyff ao Barcelona nos anos 1970, foi elevada a sua máxima potência três décadas depois. O Barcelona precisou se desfazer de um período vitorioso para dar entrada a outro. Ronaldinho, Deco e Eto'o foram dispensados pelo novato Pep Guardiola para dar chance a Iniesta, Xavi e Lionel Messi de mostrarem suas características.

"Iniesta é fundamental para entender o estilo que Johan Cruyff implantou e que o clube adaptou como filosofia própria. É o futebol desde a sua excelência, no trato com a bola, fantasia e magia. Ele elevou o DNA do clube para seu estado mais puro desde a saída de Xavi", disse o jornalista espanhol Gabriel Sans, do Mundo Deportivo.

É importante lembrar que Iniesta virou profissional em 2001, mas já mostrava sua importância mesmo antes de explodir. Na final da Liga dos Campeões de 2006, o meia entrou no segundo tempo e foi um fator-chave para a virada contra o Arsenal. Thierry Henry, que jogou pelo lado londrino naquela final, lembrou à Barça TV sobre a influência de Andrés.

"A final foi alterada por Iniesta quando ele entrou no segundo tempo. Quando ele começou a virar com a bola, depois uma hora eu não pude seguí-lo. Iniesta me matou", declarou.

Com Guardiola, Iniesta virou titular absoluto e um pilar no meio-campo. A posse de bola virou a principal arma, potencializada por toques rápidos e inteligência de jogo. O Barcelona, marcado por ser uma equipe de dribles e vertical, virou um time que controla a posse e usa a pressão para ser ofensivo em campo. Ali nascia o período mais vitorioso da história do clube catalão.

"Ele é um exemplo que as crianças das categorias de base podem seguir. É o êxito de La Masia. Com ele, as crianças podem aprender e entender os valores do Barcelona. Subir para a primeira equipe, crescer no modelo de futebol. Suas 670 partidas oficiais jogadas com a camisa blaugrana o tornam em um ícone e um espelho", conta o jornalista.

Essa equipe foi gradualmente se separando, ano após ano: Abidal saiu em 2013, Puyol e Valdes em 2014, Xavi em 2015, Dani Alves em 2016 e agora Iniesta, deixando Messi, Busquets e Pique como o únicos remanescentes. No entanto, com Iniesta é diferente. Para seus admiradores, significa mais do que apenas um meio-campista que passou e driblou a bola com um brilho raro. Ele simplesmente significa futebol.

"Nós temos que continuar acreditando na filosofia do Barcelona. Vencer apenas não é o suficiente, mas como você faz isso e com que frequência você faz. Não é vencer de qualquer forma possível. A filosofia do Barcelona tem que estar lá e sobreviver", disse Iniesta ao canal Esport 3.

Jogo de posição e tiki-taka: a revolução sobre o conceito de tática

É impossível falar de Iniesta sem lembrar do 'tiki-taka'. O trio formado ao lado de Xavi e Messi mudou a forma de jogar futebol, literalmente. O craque não influenciou apenas a maneira do Barcelona executar seu jogo, mas tratou de elevar todos os conceitos de tática de patamar. Iniesta não só marcou o futebol, mas criou uma ideologia com os pés.

A falta de estatura e força física foi compensada em habilidade técnica. Iniesta liderou um meio-campo marcado pela visão criativa dentro das quatro linhas. Sua capacidade de consciência espacial e leitura de jogo encaixaram perfeitamente com o esquema proposto por Pep Guardiola. Mas, antes do treinador, já havia futebol. O começou dessa história, aos 18 anos, aconteceu contra o Club Brugge, pela Liga dos Campeões, onde mesmo ainda no Barça B, chamou a atenção do elenco principal.

O básico desse novo modelo foi impor a filosofia treinada pelo Barcelona durante anos nas categorias de base quando Guardiola ainda era o técnico. Os fundamentos de passe curto e posse de bola eram as principais características de um time que sufocava seu adversário dentro de campo. A melhor defesa do Barcelona era seu ataque, e assim conquistou tudo.

A primeira temporada de Guardiola no profissional será sempre lembrada como uma campanha verdadeiramente histórica. O clube se desfez de ícones como Ronaldinho Gaúcho, Deco e Eto'o, liberando espaço para Xavi, Iniesta e Messi terem protagonismo. A falta de físico fez com que Iniesta ficasse anos no banco do elenco principal, mas seu futebol desencantou com Pep.

Seu tutor e principal admirador, Guardiola revelou anos depois que vislumbrou o talento do jovem quando marcou o gol da vitória do Barcelona em um prestigiado torneio global de menores de 15 anos no Camp Nou, em 1999. Curiosamente, Guardiola disse a Xavi: "Você vai me aposente, mas ele vai se aposentar a todos nós ".

Iniesta nunca foi um meio-campista renomado por marcar gols. Sua forma de jogar consistia em inúmeros toques de bola, que passava pelos pés durante todas as partidas e se caracterizava pela manutenção da posse no campo de ataque do adversário. Isso demandava muita coordenação e movimentação, sem contar a dedicação e polivalência, pois precisavam atacar e defender com empenho e precisão. Iniesta fazia isso com maestria.

Herói nacional: o maior atleta espanhol da história

A Seleção Espanhola sempre foi conhecida como a 'Fúria', com estilo de alto vigor físico e transpiração. Iniesta nunca foi um jogador que dava carrinhos ou isolava bolas para lateral do campo, mas o conjunto de sua obra fez com que fosse o maior atleta a defender aquela pátria. É fácil lembrar de Casillas, Sergio Ramos ou Raúl, mas Andrés representa a mudança de estilo que rendeu duas Eurocopas e uma Copa do Mundo.

"Iniesta é o símbolo máximo do êxito da Espanha em seus campeonato. Não apenas pelo jogo, mas pelo conceito. É um símbolo pelo que marcou na final do Mundial, por ser respeitado e aplaudido em todos os estádios do país. Ele não é visto como um rival, mas sim como o símbolo do futebol espanhol", conta o jornalista Juan Castro, chefe de futebol internacional do Diário Marca.

Na final do Mundial de 2010, na África do Sul, Espanha e Holanda empatavam sem gols, quando o meia recebeu passe de Fábregas e anotou o último gol daquele mundial, no minuto 116 da prorrogação. Foi o seu maior legado nacional. Isso explica o motivo de ser tão amado na Espanha e não apenas pelos torcedores do Barcelona. Ele mudou a história esportiva espanhola.

O lado humano de Iniesta foi visto na comemoração do gol, quando tirou sua camisa para revelar a mensagem: "Dani Jarque, Always With Us". Jarque era o capitão do Espanyol - maior rival local do Barcelona - que morreu por insuficiência cardíaca meses antes da decisão. A imagem tornou-se icônica na Espanha. A própria imprensa local não noticiava mais o episódio, mas Andrés o homenageou no maior momento esportivo do país.

São episódios como esses que mostram a lembrança que deixará. Sua saída está provocando uma onda incomum de emoção por todo o país, fazendo até rivais se renderem. Os principais jornais de Madri, por exemplo, estamparam mensagens como "O Último Imperador", ou simplesmente 'Iniesta, Don't Go!, no dia seguinte ao anúncio.

"Iniesta é um grande herói nacional. Por agora não damos conta, mas dentro de 20 anos recordaremos como o símbolo do futebol espanhol. Seu exemplo fez com que o futebol espanhol crescesse como esporte e como educador. É o exemplo visto pelas crianças de como alguém simples pode triunfar", conta o jornalista espanhol.

Outro episódio marcante: Iniesta se manifestou publicamente no auge da polêmica da independência da região da Catalunha, que desejava se tornar um país, e sofreu com a repressão policial. Nas redes sociais, o meia pediu para que o governo de Madri e o catalão dialogassem , visando evitar tensões e mais problemas.

"Nunca avaliei e nem avaliarei publicamente situações tão diversas e com sentimentos tão diversos, mas essa situação que vivemos é excepcional e uma coisa tenho clara, antes de que nos façamos mais dano: dialoguem. Os responsáveis de tudo, dialoguem. Façam por todos nós. Merecemos viver em paz", disse o camisa 8.

Marco de uma 'anistia' com o Real Madrid

A rivalidade do 'El Clasico' se estende para além do futebol, entrando em questões políticas e sociais, mas guarda capítulos interessantes - e Iniesta esteve envolvido em um deles. No dia 28 de novembro, o Barcelona goleou seu maior rival por 4 a 0 dentro do Santiago Bernabéu. Substituído no segundo tempo, o camisa 8 foi aplaudido pela torcida do Real Madrid.

Iniesta é uma das peças de uma soberania do Barcelona diante do Real Madrid, mas o respeito adquirido pelo meia é incomum. Messi e Piqué, por exemplo, são constantemente vaiados e hostilizados, enquanto Iniesta é reverenciado. É assim também contra o Atlético de Madrid ou contra o Espanyol, rival de cidade. A única exceção é o Athletic Club, de Bilbao.

"Os torcedores do Real Madrid veem o Iniesta como um jogador espanhol. O próprio Zidane disse que não o vê como jogador do Barcelona, mas espanhol. A torcida tem um carinho por ele. Sempre digo que ele é amado por todos os clubes da Espanha. Só a do Athletic (Bilbao), por causa de um episódio, onde vaiam. Em todos os outros estádios, ele é aplaudido", disse Tatiana Mantovani, correspondente internacional dos canais Esporte Interativo.

Desde 2008, quando Pep Guardiola assumiu o Barcelona e Iniesta passou a ter um papel fundamental na equipe, foram 35 clássicos disputados, com 17 vitórias do Barcelona, dez do Real Madrid e oito empates. É uma soberania culé que nunca foi vista na história do confronto. Mesmo com esses números, a despedida do meia está sendo vista com pesar em Madri.

"Ele está deixando o futebol espanhol e isso é ruim para o campeonato. O Iniesta fez mais pela união da Espanha, que é um país separado e com regiões autonomas, que muitos políticos e personalidades historicas do país. A despedida está sendo vista com muito pesar", disse Tatiana Mantovani.

Iniesta esteve presente em duas atuações de gala contra o Real Madrid. Em 2009, a maior goleada do duelo dentro do Santiago Bernabéu: 6 a 2 - o que provocou mudanças drásticas no futebol do clube ao término daquela temporada. Em 2011, o 5 a 0 no Camp Nou, diante de um rival que estava reforçado pelas estrelares contratações de Cristiano Ronaldo e José Mourinho. Mesmo com as goleadas, Iniesta nunca fez piada com rival ou qualquer situação do tipo, um dos motivos para ser tão respeitado.

"A construção do respeito é pelo jeito que ele é, uma pessoa normal que joga futebol. Ele tem esse jeito simples, desapegado. Ele é reservado, tímido, na dele, mostra o que sabe dentro de campo e não precisa de coisas extras. Toda a construção da personalidade, o que ele fez pelo futebol, ter feito o gol do título mundial, faz ele ser visto de forma diferente. Iniesta sempre teve um respeito exagerado por todos os rivais espanhóis", declarou Tatiana.

O Barcelona 'antes e depois' de Iniesta

Iniesta participou da etapa mais vitoriosa da história do Barcelona. Apenas em Liga dos Campeões, foram quatro conquistas com sua presença contra apenas uma antes dele. Em Mundiais, foram três títulos contra nenhum anteriormente. Na Copa do Rei, aumentou sua vantagem como maior campeão. Além disso, marcou para sempre o futebol com quebra de recordes e um futebol que encantou o mundo.

Existe um porém nessa trajetória de Iniesta: a idade. Aos 33 anos, está cada vez mais difícil apresentar atuações em alto nível com frequência. As lesões foram recorrentes nos últimos anos, fazendo com que o meio-campista atuasse cada vez menos nas últimas temporadas. O corpo está sentindo o ritmo, e a saída lembra a de Xavi, que deixou o clube em 2015.

"Existe uma sensação de que vai acabando a etapa mais vitoriosa da história do Barcelona. Primeiro, se foi Xavi, o grande estandarte, agora Iniesta, o maestro. Também se foram Daniel Alves, Victor Valdés, Puyol. Hoje, ficam apenas Messi e Busquets. Andrés (Iniesta) criou uma nova maneira de entender futebol, um novo estilo para o Barcelona", afirma Ferran Martínez, repórter do Mundo Deportivo.

E o futuro? É uma pergunta difícil de responder. Assim como Xavi, não existem substitutos imediatos para Iniesta. Mais do que peças de reposição, é preciso encontrar jogadores com a mesma inteligência e leitura de jogo do meia. A solução encontrada por Ernesto Valderde, atual treinador, é se adaptar a uma nova realidade. A esperança cai no colo do brasileiro Phillipe Coutinho.

"O futuro está nas mãos de Ernesto (Valderde) e da diretoria. É impossível preencher o vazio que deixará Iniesta, assim como Xavi. Mas é preciso ser capaz de reiventar e encontrar substituto para Iniesta. É praticamente impossível encontrar um jogador como ele, mas temos sorte de ter Phillipe Coutinho, um atleta de alto nível que se parece nas características", disse o jornalista espanhol.

Foi essa geração que tornou transformou o Barcelona no clube mais vitorioso do século 21. Quando Iniesta ascendeu das categorias de base, o Barça vivia uma realidade diferente - principalmente do rival Real Madrid. Na temporada 2002-2003, o clube não conquistava títulos há quatro anos e tinha 13 taças a menos que o rival no Campeonato Espanhol. Atualmente, a diferença caiu para oito, tendo conquistado o torneio por sete vezes nos últimos 10 anos.

Os últimos capítulos ainda estão sendo escritos. Iniesta tem só mais um jogo com o Barcelona até o fim da temporada. Em seguida, irá para a Rússia defender a Seleção Espanhola e disputar a Copa do Mundo. O antes e o depois mostram o que o camisa 8 contribuiu para um novo Barcelona no futuro, sendo referência no futebol mundial.

"O Barcelona mudou muito com Cruyff, que implantou sua maneira de entender o futebol. A Seleção Espanhola que ganhou o Mundial tinha oito jogadores da base do Barcelona. Depois veio Guardiola e Iniesta está nessa geração. O Barcelona sempre será uma referência após ele. Todos querem jogar igual ou parecido com a equipe de Messi, Xavi e Iniesta", disse Ferran.

*Sob supervisão de Thiago Salata

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