Briga com príncipes, 'nova China' e pouco público: o que Carille vai encontrar na Arábia Saudita?

O ciclo vencedor no Corinthians está encerrado. Após as conquistas do Campeonato Paulista e Brasileiro em 2017, Fábio Carille aceitou a proposta do Al-Wehda e seguirá sua carreira na Arábia Saudita. Aos 44 anos, ele será o 16º técnico brasileiro que desembarcará no país. O que ele vai encontrar em um lugar mais conhecido pelos atrasos salariais do que pelo bom futebol? O LANCE! conversou com profissionais que viveram experiência parecida para entender se realmente existe um projeto a ser desenvolvido no país.

Os R$ 600 mil pagos ao Corinthians pela multa rescisória farão Carille conhecer o Al-Wehda, uma equipe que está longe de ser popular no país. Fundado em 1945, o clube é um dos mais antigos da Arábia Saudita e foi recém-promovido para a primeira divisão nacional. Também está longe de ser um clube vitorioso, tendo conquistado seu último título em 1996 - a Copa do Rei da Arábia.

Apesar de ser um país conhecido por sua cultura fechada, a adaptação dos brasileiros não costuma ser dificíl. Os maiores problemas esbarraram no idioma e costumes diferentes. Por exemplo, existem bares para estrangeiros no país, além de centros destinados para recebê-los. A grande questão é o centro de treinamento do Al-Wehda, sediado em Meca, cidade que só permite a entrada de muçulmanos.

- Meca não é fácil. Para ter uma ideia, vai ser muito difícil de trabalhar em Meca porque só pode entrar se for muçulmano. O centro de treinamento fica nas redondezas da cidade, porque lá não pode entrar. A tendência é que ele e a equipe dele morem em Jidá, e todo dia vão para Meca, coisa de 90 ou 100km - conta Hélio dos Anjos, que passou anos trabalhando na Arábia Saudita.

Do Corinthians, atual campeão brasileiro, para o Al-Wehda, clube de baixo apelo no futebol árabe. De uma Arena que costuma ter sempre mais de 30 mil torcedores por jogo para um campeonato com média de público na casa dos oito mil. Entre uma proposta salarial milionário e um projeto a ser desenvolvido, o que mais a Arábia Saudita guarda para Fábio Carille?

A Arábia Saudita é a nova China?

A frase foi dita por Andrés Sanchez, atual presidente do Corinthians, na primeira entrevista coletiva concedida após a saída de Fábio Carille. Claro, a afirmação tem um tom de exagero, mas não pode ser considerada uma mentira. A Arábia Saudita voltou a ser rentável para investidores por dois motivos: novas regras de mercado e boa relação com o dono da liga.

Antes de entrar na Arábia, é preciso explicar o que aconteceu na China. O salto de investimento do futebol chinês em 2015 teve ligação direta com os craques que deixaram o futebol europeu para atuar no país - também levamos em conta as dezenas de nomes que saíram do Brasil para atuar por lá. O cenário mudou em 2017, quando a Associação de Futebol da China determinou novas regras para contratação e utilização desses estrangeiros.

É explorando esse ponto que a Arábia Saudita voltou a ser atraente. Antes, os clubes chineses podiam registrar até cinco estrangeiros, agora apenas quatro. Também não havia regulamentação sobre contratações, agora são obrigados a pagar um imposto de 100% o valor da transação, destinado a um fundo de investimentos para desenvolvimento das categorias de base do futebol chinês.

Já o sistema da Arábia Saudita mudou em 2017, quando o governo árabe passou a comandar a organização da Liga. Além de não haver taxação sobre as contratações, a nova lei permite até sete estrangeiros por elenco, sendo seis jogadores de linha e um goleiro. Também existem projetos para reestruturação dos clubes no país, onde o governo decidiu colocar dinheiro para a quitação de dívidas e construção de centros de treinamento.

Turki Al-Sheikh, o homem que deseja revolucionar o futebol árabe

Considerado um dos países mais conservadores do mundo, a Arábia Saudita tem vivido uma época de mudanças radiciais desde que o novo Rei assumiu o país. No esporte, não é diferente. Com a troca no governo, coube a Turki Al-Sheikh assumir a posição de "autoridade geral" do futebol saudita em 2017 - no Brasil, é o cargo equivalente a Ministro dos Esportes. A missão do mandatário é tornar o país novamente atrativo para investidores estrangeiros.

Como primeiro ato, criou uma comissão para encontrar jovens talentos na Arábia Saudita e transformá-los em jogadores profissionais. Foram investidos R$ 10 milhões na criações de dois torneios de base, a Taça do Príncipe e a Taça das Duas Mesquitas, que selecionaram mais de 70 atletas para participar do projeto do governo para fortalecer as categorias de base do país. Antes, não havia qualquer projeto parecido nesse sentido.

- Para ser sincero, não existia projeto nenhum. Nada que chamasse atenção. Ativaram bem os trabalhos nos campeonato sub-17 e sub-19. O clube que trabalhei mais (Al-Qadisiyah), revelava muitos jogadores. Com relação às equipes profissionais, não havia nada que chamasse atenção - conta Hélio dos Anjos, técnico da seleção árabe entre 2007 e 2008.

Quanto aos clubes profissionais, ele deu apoio financeiro nas contratações dos técnicos estrangeiros que estão chegando na Arábia Saudita. O Al-Wehda, na contratação de Fábio Carille, não foi o único negócio que teve ajuda do governo. É o caso de Ramon Diaz, ex-técnico da seleção paraguaia, que foi contratado pelo Al-Ittihad. Também de Jorge Jesus, de saída do Sporting (POR), que se aproxima de acerto com o Al-Hilal. Todos tiveram ajuda financeira do Ministro.

O caso mais extremo foi quando Turki Al-Sheikh exigiu a troca do presidente do Al-Hilal, clube de maior torcida e mais vitorioso do país. O ex-jogador Sami Al-Jaber, que estava atuando como técnico do Al-Shabaab, foi retirado de sua função e colocado na presidência por ordem do Ministro. Por ter feito grande parte da carreira no Al-Hilal, foi o escolhido para assumir a função.

Briga entre príncipes e atrasos salariais

O Ministro usa seu poder no futebol para promover avanços no país, mas com tantos reis, príncipes e monarcas disputando entre si seus poderes e influências no esporte, não é difícil imaginar a bagunça que os clubes enfrentam. O maior problema são os atrasos salariais, casos vividos por atacantes brasileiros que não são difíceis de ser enumerados.

Foi o exemplo do atacante Felipe Adão, contratado pelo próprio Al-Wehda em 2016. Ele teve de acionar a Fifa para receber salários. Hernane deixou o Flamengo em 2014 para acertar com o Al-Nassr, fez quatro partidas como titular e não recebeu o que era devido. Outro que teve problemas com isso foi o técnico Hélio dos Anjos, que considera a briga entre príncipes como um dos principais fatores.

- Lá, os príncipes vêem isso como uma brincadeira, é o brinquedinho deles. Eles têm dinheiro demais. O rei e o ministro estão mudando tudo. O rei liberou as mulheres para dirigir, para irem aos jogos e tenho certeza que querem revitalizar o futebol. Esse ministro está batendo de frente com esses príncipes - diz o treinador.

As situações são parecidas com patrocinadores que não conseguem pagar o previsto. Os príncipes resolvem assumir um clube e decidem largá-lo de uma hora pra outra quando percebem que não vão conseguir cuidar dos custos. Assim, o problema fica para seu sucessor:

- Ninguém tem coragem de mexer com os príncipes de lá - lembra Hélio, que presenciou o problema em 2008.

O atraso salarial é uma das questões consideradas fundamentais para Turki Al-Sheikh resolver. O ministro tem como meta zerar as dívidas dos clubes, resolver as pendências jurídicas com a Fifa e fazer com que as equipes do país voltem a disputar a Liga dos Campeões da Ásia sem restrições. Atualmente, Al-Nassr, Al-Raed, Al-Shabab e Al-Tawoun estão vetadas do torneio por atrasos salariais.

Mulheres na arquibancada e árbitro suspenso por corrupção

Se Turki foi promovido à ministro do esporte, muito se deve ao Rei Salman, que está promovendo reformas marcantes desde que chegou ao trono em 2015. As mais marcantes envolvem o público feminino, como o decreto que autorizou que mulheres dirigissem, e principalmente a lei que permite elas pudessem frequentar estádios de futebol.

A partida entre Al-Ahli e Al-Batin, pela 17ª rodada do Campeonato Saudita, foi o primeiro a ter presença de mulheres nas arquibancadas. Foram criados novos setores nas arquibancadas dos estádios, além de espaços para banheiros femininos. No ano passado, também foi liberada a presença de mulheres para acompanhar as comemorações do Dia Nacional da Arábia Saudita.

Outro caso extremo foi o anúncio da Federação de Futebol da Arábia Saudita, que suspendeu o árbitro Fahad Al Mirdasi por tempo indeterminado após ter admitido que tentou subornar o presidente do Al-Ittihad para manipular o resultado de uma partida do campeonato local. Ele estava entre os relacionados para representar o país na Copa do Mundo de 2018.

Mohammed bin Salman é um dos filhos do rei Salman bin Abdulaziz al-Saud, que carrega planos para reformar o país nas áreas econômica e social. Diferentemente de seus antecessores, ele carrega o apoio da maioria jovem do país. Fora do futebol, um de seus grandes projetos é a construção de uma megacidade, batizada Neom, com intuito de atrair novos investidores ao país.

Baixo público, trio tradicional e relevância internacional

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Não vai demorar para Fábio Carille perceber que deixou um dos clubes de maior torcida do Brasil para trás para assumir uma equipe que conta com pouco apoio na Arábia Saudita. O Al-Wehda é um breve reflexo do que é o campeonato local: a média é de oito mil torcedores de público. Sem os clássicos, o número cai para dois mil presentes por partida.

- Você não vai ter mais de duas mil pessoas em jogo normal. Quando jogam o Hilal, Ittihad, ou Nassr, aí tem torcida do país todo, mas não passa de 8 mil em jogos grandes. Já nos clássicos entre os três é loucura. Eu já fui em jogos om mais de 80 mil pessoas. Na Champions Ásia é cheio também - conta Hélio.

Os três clubes de maior torcida, consequentemente, são os maiores vencedores do país. O Al-Ahli, com 15 títulos, é a maior potência do país e nunca foi rebaixado da primeira divisão nacional. Al-Ittihad e Al-Nassr, ambos com oito conquistas, completam o "trio de ouro" da Arábia Saudita. O Estádio Internacional Rei Fahd é o maior do país, como capacidade para 62 mil pessoas.

Pela Liga dos Campeões da Ásia, o Al-Hilal e o Al-Ittihad são dois dos clubes mais tradicionais do torneio. Respectivamente, o primeiro levantou o troféu em 1992 e 2000, enquanto o segundo foi bicampeão em 2004 e 2005 - neste ano, disputando a semifinal do Mundial de Clubes contra o São Paulo. O maior campeão é o Pohang Steelers, da Coréia do Sul, com três conquistas.

Fora do trio, a relação dos torcedores com os clubes também é diferente do Brasil. Não há muita cobrança, além de ser difícil que os técnicos caiam por resultados ruins. A relação dos árabes com a seleção nacional também é parecida com a dos brasileiros no quesito fanatismo, mas não há tanta proximidade física por conta dos costumes.

Como funciona o Campeonato Saudita?

A 'Premier League', ou Primeira Liga Saudita, passou a ser chamada de Liga Abdul Latif Jameel devido ao patrocinador Grupo Abdul Latif Jameel que comprou os direitos do torneio. É um modelo de negócio bastante usado na Europa, por exemplo, com a La Liga Santander (Campeonato Espanhol) ou a Série A Tim (Campeonato Italiano).

O torneio é disputado por 14 clubes, que se enfrentam em turno e returno somando 26 rodadas. O formato é parecido com o Brasileirão de pontos corridos: quem somar mais pontos, fica com o título. Os dois primeiros se classificam diretamente para a fase de grupos da Liga dos Campeões da Ásia, enquanto o terceiro colocado vai para um mata-mata antes do torneio.

- Você não tem essa pressão natural que nós gostamos. É uma cobrança que a gente gosta, que serve de estímulo. Você perde um jogo e o torcedor vem te dar um beijo na testa. Você está irritado porque perdeu e ele está te abraçando, te beijando... É a parte mais difícil - conta Hélio dos Anjos.

Para a próxima temporada, o torneio passará de 14 para 16 clubes na primeira divisão. O rebaixamento é definido através de outro mata-mata. Os dois últimos colocados da elite enfrentam os terceiros e quarto colocados da segundona (chamada de Divisão 1). Quem vencer o duelo é promovido.

Nesta temporada, os dois primeiros classificados da Divisão 1 se classificaram direito para a elite, sem necessidade de participar de um mata-mata. O Al-Wehda, time de Fábio Carille, foi um dos beneficiados pelo regulamento após ter sido campeão com 58 pontos conquistados.

Quais brasileiros estão lá?

Entre os brasileiros que atualmente estão atuando na Arábia Saudita, os mais famosos são o zagueiro Bruno Uvini, que teve passagens pelo Tottenham e Napoli, e o atacante Zé Love, campeão da Libertadores pelo Santos. No total, são 21 atletas brasileiros atuando na primeira divisão. Confira a lista:

Al Nassr: Bruno Uvini e Leonardo

Al Fateh: Sandro Manoel, João Pedro

Al Faysaly: Evson, Igor Rossi, Luisinho, Rogerinho, Ze Love

Al Batin: Dionatan, Jhonnattann, Guilherme Schettine, Willen

Al Qadisiya: Bismark, Elton, Jorginho, Paulo Sergio, técnico Paulo Bonamigo

Al Raed: Daniel Lopes, Edison Luiz

Al Ahli: Claudemir e Leonardo

*Sob supervisão de Thiago Salata

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