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Luiz Fernando Gomes: Heróis de verdade

2019-04-21T07:40:00

21/04/2019 07h40

Heróis de verdade, de carne e osso, não surgem das mentes criativas de roteiristas ou das pranchetas, hoje digitalizadas de designers consagrados. Heróis de verdade constroem sua própria história. Capítulo por capítulo, pedra sobre pedra. Ou, como se viu quarta-feira na Arena do Grêmio, defesa por defesa.

Paulo Victor, para tantos, foi apenas mais um desses heróis improváveis que de quando em vez surgem no futebol, notadamente nos clássicos tradicionais, nas grandes decisões. Mas essa é una definição simplista e injusta no caso do goleiro gremista. A probabilidade de que algum dia ele adquirisse o status dos que deixam seu nome na história de um clube, na memória de uma torcida, era, como se confirmou agora, diretamente proporcional à sua capacidade de trabalho e, acima de tudo, à sua resistência - ou resiliência - de quem saiu das categorias de base do Flamengo e, mesmo nos momentos mais difíceis, sempre soube que sua vez chegaria.

Júlio César foi injustiçado na Gávea. Por anos foi a sombra de Bruno, que até sair das páginas de esportes para as de polícia era o senhor da meta rubro-negra, com toda justiça, diga-se de passagem. Após a prisão do titular o clube foi buscar o polêmico Felipe e só com a saída desse PV ganhou espaço. Estava pronto, fez jogos memoráveis, mas jamais conseguiu vencer a desconfiança da cartolagem e, mesmo de boa parte da torcida. Uma falha - e quem é que não falha? - ganhava proporções acima do normal. Ainda assim, em 173 jogos disputados pelo clube teve a média de 0,91 gols sofridos por partida, a quinta melhor marca de goleiros com mais de 50 jogos realizados no Fla. Foi substituído, quem diria, por Muralha, e deu no que deu.

O Flamengo aliás, tem sido uma fábrica de gerar grandes goleiros e, com a mesma intensidade jogá-los no limbo do descrédito. Depois da era Julio César- que conquistou, esse sim, seu lugar no Olimpo rubro-negro - tem sido assim. Como PV, Marcelo Lomba, que na quarta-feira por pouco não virou herói do lado Colorado do Gre-Nal, não conseguiu se firmar na Gávea e foi brilhar em outras searas. Não será surpresa se César, hoje reserva de Diego Alves, seguir o mesmo caminho.

No Grêmio de Renato Portaluppi um mestre em resgatar talentos no desvio, Paulo Vitor foi aos poucos, no rodízio de elenco nas várias competições disputadas pelo Tricolor, ganhando a confiança dos colegas de time, especialmente da dupla de zaga, Kannemann e Geromel, e do treinador. Vive futebol - e sempre foi assim - em tempo integral. Após a decisão veio à tona a história do vizinho que se surpreendeu ao encontra-lo na academia do condomínio onde moram fazendo ginástica num dia de folga às 8h da manhã, depois de um jogo que acabara tarde da noite na véspera. Com a saída de Marcelo Grohe, virou titular. Nessa temporada levou apenas quatro gols, apenas um durante todo o campeonato Gaúcho, ajudando o Grêmio a garantir o título invicto. Na quarta-feira, se restava alguma dúvida sobre o que ele pode fazer, os três pênaltis defendidos e ao menos duas defesas fundamentais nos 90 minutos apagaram isso de vez.

Há muitos anos, de Norte a Sul do país, tantas decisões não ocorriam ao mesmo tempo envolvendo grandes rivais. Além do Gre-Nal, decidido antecipadamente no meio da semana, Vasco x Flamengo, Corinthians X São Paulo, Cruzeiro x Atlético-MG, Sport x Náutico, Avaí x Chapecoense, Ceará x Fortaleza, Goiás x Atlético-GO, CRB x CSA, América-RN x ABC. Considerando-se os principais estaduais, apenas o cada vez mais maltratado e diminuído Coritiba, no Paranaense, e o Vitória, no Baiano, ficaram de fora da festa final.

Decisões assim são um palco perfeito para o surgimento de heróis. Quem sabe um Picachu ou um Maxi López não marca dois gols e silencia o Maracanã roubando um título que os flamenguistas consideram certo? Quem sabe Cássio não vai inda além dos milagres que tem feito e segura três pênaltis dando o título ao Timão? Ou um dos meninos da base são-paulina se consagra fazendo a Arena de Itaquera calar? No fim da tarde de hoje novos capítulos da história do futebol estarão escritos. Heróis e vilões terão surgido. As páginas do livro estão abertas, em branco, para serem preenchidas.

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