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Luta de sobra! Conheça a saga do Frei Paulistano, campeão estadual com apenas dois anos de fundação

2019-04-25T07:40:00

25/04/2019 07h40

O Campeonato Sergipano terminou a volta olímpica de um novato que soube peregrinar bastante até o caminho do título. Mesmo tendo apenas dois anos de fundação, o Frei Paulistano driblou sucessivas adversidades e, após desbancar os favoritos no hexagonal final, escreveu um capítulo vitorioso em sua trajetória na competição.

- Lutamos muito para manter um trabalho bem feito no clube. Como não temos incentivo público, dependemos dos sócio-torcedores, da bilheteria para o Frei Paulistano manter atividades na competição e lidamos com alguns problemas. Aí, após um início instável no Estadual, conseguimos a classificação para o hexagonal final. Chegamos sem favoritismo nenhum, porque íamos enfrentar equipes muito fortes. Mas pesou a determinação destes jogadores, a força, a união para surpreender quem tinha mais estrutura que a gente... - afirma o mandatário Daniel Menezes, ao LANCE!.

A equipe (fundada em 29 de agosto de 2016 e que, no ano seguinte, subiu para a elite sergipana) atualmente tem folha salarial em torno de R$ 28 mil. Um dos jogadores mais experientes do elenco, o meia Acássio não esconde a relevância que a conquista estadual tem para a trajetória do Touro do Agreste:

- É algo histórico para o clube. Inicialmente, o Frei Paulistano tinha o planejamento de se manter na Primeira Divisão. Mas as coisas foram acontecendo aos poucos e, agora, nós somos campeões estaduais.

Artilheiro da equipe e da competição (com nove gols marcados), o atacante Luan revela:

- Acho que a ficha ainda não caiu para nós.

ANDAR COM FÉ: TREINOS EM UM CAMPO MODESTO

O elenco do Frei Paulistano precisou pisar firme ao se preparar para o Campeonato Sergipano. Sem aval da Prefeitura de Frei Paulo para treinar no Titão (onde mandou boa parte de seus confrontos), a equipe lidou com jornadas difíceis para suas atividades inicialmente:

- Tinha um "terrão", era um campinho de uma associação de jogadores. No início, o Frei Paulistano treinava lá. E eram 5,5km de caminhada da sede ao local de treinos. Na ida, o pessoal descia até o campinho. Mas para voltar da atividade era uma subida. Só depois é que conseguimos ajustar isto, treinando em Ribeirópolis e até no CT do Itabaiana - recorda Daniel Menezes.

O lateral-direito Jorge confessou que era um desafio esta rotina:

- Era um campo no qual a gente não tinha condições suficientes para treinar, que era terra pura. Além disto, desgastava muito aquela caminhada da sede até o lugar do treino.

Também lateral, Matheus crê que a experiência serviu como um trunfo para o Frei Paulistano entrar em campo ainda mais forte:

- Não foi a primeira vez que passei por este tipo de situação. Mas a gente ia e lutava o quanto podia, acho que contribuiu para a gente se fortalecer de alguma forma.

'DO INFERNO AO CÉU': DO ALÍVIO DO DESCENSO À IDA PARA O HEXAGONAL

O reflexo dos percalços para treinar veio dentro de campo. Além de sofrer duas derrotas em seus dois primeiros jogos (inclusive, na estreia, com um 4 a 0 para o Sergipe), a equipe teve altos e baixos no decorrer da primeira fase.

- Tínhamos um elenco bom tecnicamente, mas os resultados não aconteciam. Com isto, muitos dos nossos atletas ficaram com a autoconfiança baixa. A partir daí, os jogadores mais experientes do elenco, como eu, foram aconselhar os atletas para que a gente reagisse de alguma forma - recorda Acássio.

Com o Touro do Agreste tendo apenas uma vitória em sete jogos, o técnico Edilson Santos deixou o clube. Gil Sergipano assumiu o comando da equipe com a missão de evitar o descenso.

- Quando Gil Sergipano assumiu e a gente venceu aquele jogo "de vida ou morte" contra o Guarany-SE (triunfo por 2 a 1), tive a sensação de que a gente estava em outro momento. Logo depois, ganhamos do Itabaiana por 1 a 0. Nós, que antes jogávamos bem, mas tomávamos muitos gols, começamos a nos encaixar - crê Jorge.

Além de escapar do rebaixamento, a equipe obteve, aos trancos e barrancos, o acesso ao hexagonal final. O goleiro Geovani é categórico ao recordar:

- A gente saiu do inferno ao céu. Estávamos desacreditados, já davam o time como rebaixado e, com muita dedicação, conseguimos este momento histórico.

BETINHO: O 'PAIZÃO' (LITERALMENTE) QUE APRUMOU A EQUIPE

Nem mesmo a classificação ao hexagonal final foi suficiente para evitar um novo obstáculo no caminho do Frei Paulistano. Devido a problemas pessoais, Gil Sergipano deixou o comando do clube. Contudo, o Touro do Agreste teve uma cartada e tanto a seu favor: logo depois de ser demitido do Confiança, Betinho (técnico de destaque no futebol sergipano) assumiu o comando da equipe.

- Eu já acompanhava o Frei Paulistano à distância. Via que o time tinha qualidades, mas faltavam alguns ajustes no posicionamento tático e também que se sentissem mais confiantes.

O treinador teve um motivo especial para aceitar o cargo: pela primeira vez, pôde trabalhar com seu filho Matheus. O lateral-esquerdo destacou como foi esta situação:

- Ah, é diferente, né? A gente só tinha se enfrentado antes, e ele venceu nas duas vezes. Quando meu pai aceitou, foi muito bom, mas deixou um pouco mais de responsabilidade para mim. Não era por ser filho que eu teria um tratamento diferente em relação aos outros.

Aos olhos do elenco, a primeira partida do hexagonal final trouxe um divisor de águas em todos os sentidos. E, para Betinho, teve um gosto especial:

- A gente estava enfrentando o Confiança, logo depois de eu ter saído de lá. Perdíamos por 2 a 0, mas conseguimos reagir e empatar. E, para completar, meu filho fez o segundo gol.

O atacante Luan destacou que o treinador foi crucial para a mudança de postura da equipe:

- É um cara inteligente. Ele deu motivação para os jogadores no dia a dia, disse que tínhamos condições de ir longe.

Betinho também buscou melhorias para o elenco:

- Tentei dar uma estrutura melhor para eles. Dei sugestões para uma alimentação mais forte, para que a gente tivesse outros lugares para treinar. Acho que isto pesou.

O goleiro Geovani não esconde a relevância do técnico na conquista inédita:

- Ele foi um "paizão" para o grupo. Apontou nossas qualidades, trouxe a força que a gente precisava e deu a certeza de que a gente podia ir longe.

'VI UM GRUPO QUE QUERIA FAZER HISTÓRIA': A ARRANCADA À FINAL

Nem o fato de atuar como franco-atirador no hexagonal final intimidou o Frei Paulistano. Segundo Betinho, não faltou força de vontade ao elenco:

- Quando cheguei, eu vi um grupo disposto a fazer história. Tivemos que enfrentar os três grandes daqui (Confiança, Itabaiana e Sergipe), mas, mesmo assim, soubemos jogar de igual para igual, sem medo. Muito pela mobilização dos atletas, que vieram com uma postura diferente.

De acordo com Acássio, o alívio com o risco do rebaixamento aliado à chegada de Betinho contribuíram para a ascensão do Touro:

- A gente viu que podia ter um rendimento melhor. E Betinho tem conquistas expressivas aqui no estado. Aquilo nos deu uma certeza de que podíamos almejar até ser campeões. Com isto, jogamos um futebol até mais alegre, pensando que o que viesse seria histórico para nós e para o clube.

Neste momento, brilhou em especial a estrela de Luan. O atacante marcou seis de seus nove gols no Campeonato Sergipano na reta final (um deles, no jogo de ida da decisão contra o Itabaiana).

- Desde que passamos de fase, meu objetivo passou a ser levar o Frei Paulistano ao título. Mas a artilharia foi acontecendo naturalmente. E só tenho a agradecer a todo mundo pelos gols que fiz - diz o atacante.

O treinador tece elogios ao atacante pelo seu desempenho na competição:

- Luan é um atacante muito versátil. Além de bom poder de finalização, ele sabe jogar fora da área. Tenho certeza de que terá um grande futuro pela frente.

Após obter três empates no início do hexagonal final, a equipe garantiu-se na decisão com duas vitórias consecutivas, sobre o Lagarto e o Sergipe. E teve pela frente um árduo adversário: o Itabaiana.

DA TENSÃO NA DECISÃO À CONQUISTA

O Touro do Agreste não encontrou um caminho fácil no jogo de ida da competição. Aos olhos de Matheus, a tradição do Itabaiana quase comprometeu o desempenho da equipe novata:

- O Itabaiana ia para a quarta final consecutiva. Além disto, nós jogamos muito mal no primeiro tempo no Etelvino Mendonça. Depois é que chegamos à vitória.

O técnico Betinho lembrou-se como foi reanimar a equipe, que começou perdendo o jogo de ida:

- No primeiro tempo, não jogamos. Por pouco, não tomamos três ou quatro gols, e só "achamos" um gol de empate perto do intervalo. Eu fui e disse: "não foi esse o time que jogou no hexagonal (final). Estão deixando de lado a qualidade que eu vi". Eles voltaram com uma nova cara e viramos para 2 a 1.

O lateral-esquerdo Jorge destacou que a reação no primeiro jogo foi crucial para a partida de volta:

- A gente se manteve aceso, concentrado. Não demos chance para o Itabaiana, e podia ter sido mais do que o 3 a 1 que conseguimos lá no Batistão.

O título foi celebrado com uma paródia de uma canção em homenagem ao Corinthians: "Doutor, eu não me engano, meu coração é Frei Paulistano".

- É uma música legal. Dá uma gratidão para a gente, mostra que fizemos história aqui - diz Luan, que não esconde sua alegria com o título:

- Muitos não acreditavam no nosso elenco, mas soubemos demonstrar nossa força em campo. E agora escrevemos uma página e tanto aqui.

APÓS O TÍTULO, FREI PAULISTANO TERÁ DESAFIOS PARA 2020

Passada a conquista, o Frei Paulistano agora lida com as consequências de ser um novato no futebol nacional. Como vai disputar a Série D apenas em 2020, o elenco campeão estadual já se desfez.

- Nosso vínculo tinha de ser até 20 de abril. Só poderemos pensar em calendário cheio mesmo no ano que vem. Por enquanto, ainda não pensamos nisto, mas veremos com calma este planejamento, em especial como lidaremos com a maneira como a CBF ajuda os clubes - garante o mandatário Daniel Menezes.

Após sagrar-se campeão sergipano pela terceira vez (as outras duas foram pelo Confiança), Betinho aceitou o desafio de comandar o Sergipe na disputa da Série D deste ano.

- É assim a rotina em centros de menor expressão no futebol. Há muitos clubes que, depois de quatro meses de trabalho, ficam inativos, mesmo campeões. Agora assumo essa responsabilidade de comandar o Sergipe e vou me empenhar bastante aqui - declarou o comandante, que acena com uma chance de retornar ao Touro do Agreste mais tarde:

- Não sei quanto ao meu futuro. A diretoria (do Frei Paulistano) garantiu que meu nome é o primeiro da lista para o ano que vem. Mas, de qualquer forma, caso não venha a ocorrer, espero contribuir com minha experiência.

Em seu novo destino, o técnico terá a companhia de seu filho Matheus. O lateral-esquerdo fala sobre a nova chance no Sergipe:

- A diretoria deles me procurou e agora tentarei contribuir ao máximo para ajudar o Sergipe na Série D. Fico feliz em ter esta oportunidade no cenário nacional.

A tendência é de que outros jogadores sigam o mesmo caminho de buscar clubes de Sergipe na Série D. Contudo, a sensação é de que todos saem com serenidade de Frei Paulo:

- Estamos gravados na memória do Frei Paulistano. Ficamos felizes pela conquista do Estadual neste segundo ano de clube. Agora é esperar que venham novas empreitadas e o clube possa se desenvolver ainda mais, conseguir uma estrutura cada vez melhor - diz o meia Acássio.

Novato entre os campeões estaduais, o Frei Paulistano passará a lutar por desafios ainda maiores em sua trajetória.

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