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Camisa 10 do Bota encara jornada dupla entre gramados e tatames

17/07/2019 08h30

Viver exclusivamente do futebol feminino no Brasil ainda é um desafio para muitas atletas. A meia do Botafogo Dani Rodrigues é mais um caso de jogadora profissional que mantém vivo o sonho de brilhar dentro das quatro linhas com uma atividade extra-campo para complementar a renda. Além dos treinos seis vezes por semana no Alvinegro, a camisa 10 da equipe é faixa-preta, dá aulas e disputa competições de judô. A dupla jornada, no entanto, não incomoda a jogadora de 24 anos. Em entrevista ao LANCE!, ela explicou como as as filosofias da arte marcial podem ser um diferencial no futebol.

- Tento levar as filosofias do judô para o futebol. Existe uma filosofia chamada Seiryoku-Zen-Yo, que significa a máxima eficiência com mínimo esforço. No futebol, é sempre possível aplicar isso. Tentar um passe mais curto, em vez de um lançamento que tem mais chances de sair errado, por exemplo. Ajuda a pensar um pouco mais no jogo, além dos toques, chutes a gol. Também gosto muito da parte disciplinar, que está presente nas artes marciais. Prefiro estar em um ambiente que tenha ordem, horários, metas e atividades a serem cumpridas. E é disso que estou gostando muito aqui no Botafogo. A filosofia do Gláucio e da comissão técnica é exatamente essa - explicou.

Dani chegou ao Botafogo no início do ano, quando o clube formou a equipe feminina para a disputa do Campeonato Brasileiro A2. O time não fez uma boa campanha no torneio e terminou na lanterna do Grupo 06, com apenas um ponto conquistado, mas Dani viveu a emoção de marcar o primeiro gol do Glorioso na competição.

O futebol surgiu cedo na vida da judoca, mas a identificação com os ensinamentos da luta surgida no Japão, no final do século XIX, a levou a estudar muito e acelerar o processo de troca de faixa até o máximo nível da modalidade. A maturidade adquirida faz com que ela seja uma líder do grupo comandado pelo técnico Gláucio Carvalho. Há um mês no clube, ele tem em Dani Rodrigues uma aliada no projeto de levar o futebol feminino do clube a grandes conquistas.

- A Dani tem uma liderança natural dentro do grupo, que não foi imposta, mas adquirida. O grupo a respeita muito por isso. É uma pessoa de bom caráter, muito dedicada aos treinamentos e um exemplo para as demais jogadoras. Ela é professora de judô e ama futebol. Ela tem evoluído muito nos treinamentos e tem algo que no futebol feminino é muito importante, que é ter vontade - elogiou o treinador.

Confira a íntegra da entrevista:

Como você concilia o judô e o futebol?

Trabalho atualmente na academia do presidente da Federação de judô do Rio, o professor Jucinei Costa, em Copacabana. Tento conciliar os dias que dou aulas com os dias de treino do Botafogo. Nem sempre dá para conciliar. Essa jornada dupla é muito difícil e muito cansativa. Às vezes saio do treino no futebol tarde, vou para casa e já tenho que acordar cedo para dar aulas de judô. Minha renda maior ainda vem das aulas de judô. Não tenho como parar e também gosto muito de lá.

Como foi o início no futebol?

Aos quatro anos, ficava brincando de driblar o meu cachorro. Era difícil porque ele mordia o meu pé. Mais velha, tinha um campo de futebol perto da minha casa em que batia bola com um primo. Depois passei a jogar bola com meninos e meninas da minha idade. Passei pela base do Vasco fiquei lá por três anos, passei pelo Flamengo/Marinha e fiquei sem clube por dois anos, só jogando fut-7. Esse ano o Botafogo me fez o convite para formar o time.

E o início no judô?

Comecei no judô depois do futebol porque era muito magra. Uma amiga já treinava perto do lugar onde eu moro e me convidou para uma aula. Tinha por volta de 14 anos na época. Desde então fui fazendo, comecei a me graduar. Peguei as faixas muito rápido porque comecei a estudar muito sobre o judô desde cedo. Sempre sonhei em dar aulas, ficava próximo dos meus professores para aprender e me apaixonei perdidamente pelo judô.

Como faz para se prevenir de lesões?

Sempre verifico qual é a minha prioridade no momento. Por exemplo, se hoje tenho um amistoso, então no dia anterior não treino judô, apenas dou aulas. Tento conciliar dependendo da época, de acordo com a programação de treinos, jogos e competições para evitar uma lesão em qualquer dos dois esportes, seja para dar aulas, competir no judô ou jogar futebol.

Como tem sido a temporada no Botafogo?

Montamos a nossa equipe muito em cima da hora para o Brasileiro A2, o que nos prejudicou bastante, principalmente, na parte física. Sentimos muito fisicamente. Na maioria dos jogos já estávamos muito cansadas no final do primeiro tempo, com um desgaste muito grande. Na parte coletiva, demoramos a obter entrosamento. Isso é muito importante para um bom desempenho no campeonato. Agora trocamos de treinador e estamos fazendo um trabalho excepcional com ele. Treinamos todos os dias, antes eram apenas três vezes por semana. Temos feito um trabalho bem intenso.

E quais são as suas expectativas para o Carioca e a temporada de 2020?

Já tivemos uma evolução muito grande. Fisicamente e coletivamente. O Gláucio chegou há um mês e já colocou ordem na casa, estabeleceu algumas regras. Eu particularmente gosto muito disso, porque estou acostumada com regras e direções. Quando não se tem isso, é mais difícil. O foco é muito importante. Prefiro trabalhar desse modo. Eu espero estar na final do carioca, é uma expectativa que tenho. Acredito muito que podemos chegar lá. Ano que vem, no Brasileiro, vão chegar mais jogadoras para compor nosso elenco. A expectativa é de ter um time forte para disputar coisas boas.

O futebol feminino vive o primeiro ano sob as novas regras impostas pela CBF e Conmebol, que obrigam os clubes a terem equipes profissionais e de base formadas por mulheres. Também foi ano de Copa do Mundo. Como você vê

este momento do esporte?

A partir dessa Copa do Mundo vejo que muitas coisas já começaram a mudar. Houve transmissões nas TVs abertas, vimos mais matérias e muitos comentários nas redes sociais. Sóde ter essa divulgação já é algo muito grande para o futebol feminino. Algumas marcas também se interessaram em patrocinar e criar ações sobre a Seleção Brasileira. Acredito que daqui a uns dois anos o futebol feminino já esteja no mesmo parâmetro que o masculino, em termos de interesse do público.

Você sonha com a Seleção Brasileira?

É o meu maior sonho desde pequena. Toda jogadora sonha com isso e tem como meta de vida a Seleção, quando começa a jogar futebol. Mas, acredito que, primeiro, temos que focar no clube em que estamos, treinar bem, com muita dedicação. A Seleção será consequência.

Qual foi a sensação de marcar o primeiro gol do Botafogo no Brasileiro A2 de 2019?

Estávamos perdendo de 1 a 0 para o Vila Nova, mas estávamos pressionando em busca do empate. Foi marcado um pênalti a nosso favor e chamei a responsabilidade. Fui até o banco, pedi ao treinador para bater e converti. Fiquei muito feliz pelo grupo, porque sabíamos das nossas dificuldades e que nosso elenco ainda não estava 100%. Foi no nosso primeiro jogo e ainda iríamos enfrentar outros desafios pela frente. A gente queria muito aquela vitória, não conseguimos, mas foi uma superação como grupo.

*Sob a supervisão de Aigor Ojêda

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