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  16/08/2004 - 13h02
Estádio de amistoso no Haiti é vizinho de cemitério vodu

Rodrigo Bertolotto
Enviado especial do UOL
Em Porto Príncipe (Haiti)

O contraste é aterrador. O estádio Sylvio Cator, que receberá a seleção
brasileira nesta quarta, é vizinho do cemitério central de Porto Príncipe.

De um lado, o local esportivo com direito a grama (sintética), pintura e dezenas de metros de tapetes vermelhos, tudo pago por Taiwan. Ao lado, um cemitério em ruínas. A tumba de Papa Doc, ditador que governou com mão de ferro, muita ajuda norte-americana e uma aliança estreita com os líderes do vodu entre 1957 e 1971, está totalmente depredada e seus ossos, dizem, foram retirados por populares para a prática de magia. Os túmulos têm grossas camadas de graxa após tantos rituais em cima.

Rodrigo Bertolotto/UOL 
Funcionários dão os últimos retoques no acanhado Sylvio Cator; veja álbum
Poderia-se também chamar de magia o que foi feito com o decrépito estádio. Há dois meses, o campo era um terrão com uns tufos de grama seca, o alambrado era uma tela de galinheiro e os portões estavam enferrujados. Agora, tudo está colorido em verde, creme, amarelo e vermelho. Nem a Fifa nem o Brasil bancaram a restauração. Foi o governo taiwanês, reconhecido pelo Haiti (na América do Sul, por exemplo, só Paraguai tem relações diplomáticas com a ilha reivindicada pela China).

O agrado talvez é parte do lobby do país asiático, que exporta, por exemplo, as camionetes que, com bancos na caçamba e uma funilaria multicolorida, acabam viram os "tap-tap", meio de locomoção mais popular na ilha caribenha.

Construído em 1952, o principal estádio do país (capacidade para apenas 15 mil) estava fechado há um ano. A seleção local estava mandando seus jogos pelas eliminatórias da Copa de 2006 em Miami, local de maior concentração de haitianos fora de suas fronteiras -lá existe até um bairro chamado "Little Haiti". Veio a derrota para a Jamaica e o fim do sonho de voltar a uma Copa do Mundo (a última e única participação foi em 1974, na Alemanha).

As idéias, bem-intencionadas, de trocar armas por entradas e doar ingressos para estudantes acabaram descartadas. O primeiro projeto foi abandonado, segundo o líder da missão de paz da ONU, o general-de-divisão brasileiro Augusto Heleno, porque premiaria os "bandidos". A alternativa seguinte também deixada de lado porque os haitianos perceberam que o evento poderia ser lucrativo. Os ingressos serão vendidos em agências bancárias.

Mais de 300 trabalhadores dão os últimos retoques no estádio. Nas
arquibancadas, faxineiras conversam em créole, mistura de francês com
línguas africanas, enquanto varrem o local.

No campo, a grama sintética trazida dos EUA era colocada, cortada e varrida. A seleção haitiana até programou um treino para este segunda no local da partida.

Os vestiários ganharam água quente e ar-condicionado e saídas diretas para o campo, exigências da Fifa. Até uma sala de ginástica foi improvisada em um antigo almoxarifado.

Agora só faltam seus maiores astros, Ronaldó e Ronaldíno (na pronúncia
local), passarem por lá como fez Pelé em 1972 com o Santos. Aquele jogo foi patrocinado pelo ditador Baby Doc, sucessor de seu pai, citado no começo do texto, e que ficou no poder de 1971 a 1986. Hoje a partida é promovida pela "diplomacia da bola" do presidente Lula. Os haitianos terão circo, mas ainda falta pão e democracia no país mais pobre das Américas.

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