! Na Espanha, Argel "dá um pé" no glamour - 24/01/2005 - Pelé.Net - Revista
UOL EsporteUOL Esporte
UOL BUSCA


  24/01/2005 - 12h00
Na Espanha, Argel "dá um pé" no glamour

João Henrique Medice, do Pelé.Net

SÃO PAULO - Falastrão e emotivo, Argélico Fucks, o Argel, trocou na última semana o Benfica pelo Racing Santander, modesta equipe do futebol espanhol.

Aos 30 anos, o ex-zagueiro de Internacional, Verdy Kawasaki, Santos, Porto e Palmeiras admite não se iludir mais com o glamour do esporte.

"Seleção? Só se for a de 'masters'. Fiz um ótimo contrato e quero apenas garantir a tranqüilidade da minha família. Depois encerro a carreira no Brasil", disse, em entrevista ao Pelé.Net, minutos antes da derrota da sua nova equipe para o Barcelona, por 3 x 0, no sábado.

A personalidade forte e os bordões futebolísticos, como "deixar a pele em campo", "jogador tem que ter fome" e "olho de tigre", acompanham a trajetória do atleta, que descartou jogar no Rio de Janeiro - teve uma proposta do Flamengo - e, inspirado por Scolari e Leão, sonha com a carreira de treinador.

Argel, em pouco mais de 30 minutos, falou sobre a sua experiência na Europa, a iminente negociação de Robinho (Santos) com o Real Madrid e a morte do ex-companheiro de Benfica Miklos Feher, que morreu em campo aos 24 anos. "Também ficamos sem o Serginho, uma perda irreparável".

Pelé.Net - Depois de quatro anos, por que você trocou o Benfica, clube grande de Portugal, pelo modesto Racing Santander?
Argel -Ainda tinha mais um ano e meio de contrato com o Benfica, e pretendia voltar ao Brasil após terminar o meu vínculo. Mas o Racing fez uma excelente proposta financeira e resolvi aceitar. Eles já tinham me procurado em 2004, só que os valores não eram tão bons.

Além disso, enxergo no Campeonato Espanhol um dos maiores desafios da minha carreira. São partidas duras, disputadas, e o nível técnico das equipes é inquestionável. Assinei por dois anos e meio e estou satisfeito.

Pelé.Net - Pesou na sua decisão o fato de o Espanhol ser visto no Brasil, ter maior cobertura da imprensa? De repente, você pode até ficar mais próximo da seleção brasileira...
Argel - Seleção? Não penso mais nisso. Só se for para jogar no time de "masters" (risos).

Pelé.Net - Mas você só tem 30 anos...
Argel - Eu sei. Acontece que, a essa altura da minha vida, não me preocupado mais com seleção. Também não quero mais jogar para aparecer, ser badalado. Assinei um contrato de 30 meses e quero garantir a tranqüilidade das pessoas que gosto.

Sei que as coisas vão mudar quando eu parar de jogar. A fama é legal, o sucesso mexe com a gente, mas não dura para sempre. Daqui alguns anos, quando for jantar em um bom restaurante, não vou pagar a conta com troféus ou faixas que ganhei durante a carreira. Não adianta ter a prateleira cheia de taças se você não tiver dinheiro para ir ao teatro, por exemplo. Futebol é negócio, e temos que aproveitar as boas oportunidades.

Pelé.Net - Como foi a sua despedida do Benfica?
Argel - Foi algo emocionante. O (Giovanni) Trapattoni pediu para eu ficar no banco contra o Boavista, no jogo que vencemos por 4 x 0. Não queria jogar, tinha medo de me machucar e atrapalhar a negociação com o Racing. Mas, faltando dez minutos para acabar o jogo, entrei e fui homenageado pela torcida, que gritou o meu nome até o final. Jamais vou esquecer.

Pelé.Net - Você estabeleceu um recorde interessante no Benfica, principalmente para um zagueiro...
Argel - É verdade. Em quatro anos, jamais fui expulso em partidas do Campeonato Português. No Brasil, algumas pessoas falam que sou violento, o que é mentira. Sempre fui viril, é diferente. No futebol atual, o cara que não deixa a pele em campo está morto. Os times estão nivelados, e se destaca aquele que mostra mais vontade. O maior exemplo é a Grécia, que ganhou a Eurocopa dentro de Portugal.

Pelé.Net - O que você tem ouvido a respeito do Robinho, que pode trocar o Santos, clube que você defendeu no Brasil, pelo Real Madrid?
Argel - Ele é a bola da vez aqui na Europa, como foi um dia o Kaká (Milan) e o Diego (Porto). O Benfica tentou contratá-lo, mas os times não chegaram a um acordo financeiro.

Espero apenas que ele se adapte bem à Europa, já que não é fácil jogar aqui. Tem o frio, o idioma, a comida... Por falar em comida, quando cheguei em Portugal, não suportava peixe e vinho. Hoje não vivo sem isso. Curioso, né?

Pelé.Net - Outro brasileiro muito bem recebido na Europa foi o Felipão (Luiz Felipe Scolari, técnico de Portugal). Ele continua com moral, mesmo após a derrota na final da Euro-2004?
Argel - O Felipão é idolatrado. Pegou a seleção portuguesa numa draga danada, implantou a maneira brasileira de trabalho e montou um time. Hoje, Portugal tem equipe para dez anos.

Nota da redação: a final da Eurocopa aconteceu no dia 4 de setembro. Em Lisboa, no estádio da Luz, Haristeas marcou aos 11min do 2ª tempo e o time grego sagrou-se campeão.

Pelé.Net - No início da entrevista, você disse que iria voltar ao Brasil quando encerrasse seu ciclo no Benfica. Desistiu ou apenas adiou o plano?
Argel - Quero voltar sim, não tenha dúvida. Só não quero passar vergonha. Quero voltar com 32 anos, jogar até 34 e parar. Quando perceber que não consigo mais acompanhar os moleques, vou para casa.

Pelé.Net - Internacional, Santos ou Palmeiras?
Argel - Tenho um carinho muito grande pelas três equipes, todos sabem. Mas também não vejo problemas em atuar no Grêmio ou até mesmo no Corinthians. Quero apenas ficar no eixo São Paulo-Sul.

Pelé.Net - Quando encerrar a carreira, você vai virar telespectador ou pretende continuar no futebol?
Argel - Futebol é a minha vida, não vivo sem ele. Só que não sirvo para ser empresário, ou dirigente. Quero ser treinador. Atuei em vários clubes, disputei muitas competições e terei experiência.

Para mim, o bom treinador é aquele que foi jogador e conhece tudo do esporte. Também não pode faltar liderança. Caso contrário, os caras passam por cima de você. Aprendi muito com o Felipão e o Leão (Emerson, do São Paulo).

Pelé.Net - Acompanhamos pela televisão o seu sofrimento com morte do atacante Miklos Feher, ex-companheiro de Benfica. Já conseguiu assimilar a tragédia?
Argel - (silêncio) ...Aquele foi o dia mais terrível da minha vida como jogador. Não dá para acreditar que alguém tão forte como ele tenha, um touro mesmo, tenha caído e morrido a cinco metros de mim. Não dá para entender.

Perdemos também o Serginho, um cara que vai deixar muita saudade. O admirava e posso dizer que ele vai fazer muita falta ao futebol brasileiro. Perdemos um tigre, infelizmente.

Nota da redação: o húngaro Feher morreu em janeiro de 2004, durante o jogo Benfica x Guimarães. A autópsia apontou "causas naturais". Serginho morreu aos 30 anos, no dia 27 de outubro do ano passado, após uma parada cardíaca, quando defendia o São Caetano contra o São Paulo, pelo Brasileiro.


ÚLTIMAS NOTÍCIAS
03/09/2007
Mais Notícias