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  14/04/2005 - 12h53
Desábato admite ofensas racistas e se alimenta como preso comum

Marcius Azevedo
Especial para o UOL Esporte
Em São Paulo

Folha Imagem/Fernando Santos 
Desábato segue preso em São Paulo, enquanto advogados tentam libertação
O zagueiro argentino Leandro Desábato, do Quilmes, admitiu nesta quinta-feira ter feito ofensas racistas ao atacante Grafite, do São Paulo, no jogo entre as duas equipes na noite de quarta-feira. Desábato segue preso no 34º Distrito Policial de São Paulo.

"Estivemos com ele. Está bem fisicamente, mas em nenhum momento se mostrou arrependido. Ele inclusive admitiu textualmente o que disse e realmente ofendeu o jogador. Ele chamou Grafite de 'macaco', 'negrinho' e mandou enfiar a banana em um lugar do corpo que eu não posso repetir para vocês agora", disse Marcos Antonio Vito Alvarenga, presidente da Comissão de Negros e Assuntos Anti-Discriminatórios da OAB-SP.

O delegado seccional de polícia Dejar Gomes Neto confirmou que o argentino admitiu as ofensas. "Ele achou que aqui essa ofensa não fosse crime. Achou que viria aqui apenas prestar depoimento e seria liberado. Quando descobriu que não seria assim, ficou bastante cabisbaixo. Ele repetiu várias vezes que não se arrependeu do que disse".

Ele chamou Grafite de 'macaco', 'negrinho' e mandou enfiar a banana em um lugar do corpo que eu não posso repetir para vocês agora
Marcos Antonio Vito Alvarenga, presidente da Comissão de Negros e Assuntos Anti-Discriminatórios da OAB-SP

Como no 34º Distrito não há mais carceragem, foi improvisada uma sala para a estadia do argentino. Desábato, entretanto, comeu comida de preso nesta quinta. De acordo com Gomes Neto, a delegacia recebeu a mesma comida que detentos de outros locais da cidade. O argentino teve apenas uma regalia: o médico do Quilmes pôde encontrá-lo na sala e aplicar uma sessão de gelo em uma de suas pernas.

Situação difícil
Desábato foi enquadrado no artigo 140 parágrafo terceiro do Código Penal por injúria qualificada com agravante de preconceito racial -só o Ministério Público poderia detê-lo por racismo. Assim, a Justiça poderá estabelecer uma fiança -se tivesse sido enquadrado pelo crime de racismo, o jogador não teria direito a fiança.

Três advogados do argentino compareceram ao DP nesta quinta e colheram a assinatura do atleta para darem entrada com pedido de "habeas corpus". O pedido será julgado pela Justiça brasileira, mas como existe um prazo de 48 horas entre a data da prisão e a avaliação da Justiça, Desábato, teoricamente, seguirá preso pelo menos até esta sexta. Entretanto, como o caso é inédito, é possível que a Justiça antecipe o julgamento.

"O caso dele foi encaminhado para Justiça Criminal, que vai decidir se ele vai ter de permanecer ou não no país para responder ao processo", disse Hédio Silva Júnior, presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB. "Há duas opções: ou assume compromisso com a Justiça de voltar ao país a cada ato do inquérito ou a Justiça pode obrigá-lo a ficar no Brasil até que o processo seja retirado".

QUEM É O ARGENTINO

Nascimento: 24/01/1979
Local: Cafferatta (ARG)
Altura: 1,86 m
Peso: 82 kg
Posição: Zagueiro
Clubes: Quilmes, Estudiantes de La Plata e Olimpo
"Não podemos deixar ele voltar para a Argentina sem mostrar que o brasileiro não aceita uma ação ofensiva dessas", disse Hedio que, assim como Alvarenga, é negro. "De minha parte, quero que ele fique no Brasil até o final do processo. E também considero que o Quilmes deve ser punido. Não é a primeira vez que eles abusam do racismo".

Se o habeas corpus for negado pela Justiça e o argentino tiver de seguir preso, ele será transferido para uma penitenciária em Osasco.

O presidente da Confederação Sul-Americana de futebol (Conmebol), Nicolas Leoz, está na 34ª DP com o presidente da Federação Paulista de Futebol, Marco Polo del Nero.

"Vim conversando com o Leoz e ele disse que vai abrir um inquérito na Conmebol para apurar o caso. Há a possibilidade de ele ser banido de competições sul-americanas", disse Del Nero.

O caso
Leandro Desábato recebeu voz de prisão ainda no gramado do Morumbi, na noite desta quarta-feira, por ter proferido palavras racistas ao atacante Grafite, do São Paulo. "É inadmissível que um atleta estrangeiro venha aqui e cometa um ato como esse", disse o delegado Osvaldo Gonçalves, conhecido como Nico, que prendeu o argentino logo que o jogo terminou.

Para ele, a atitude será um marco contra crimes semelhantes. "Atualmente existem muitos brasileiros atuando no exterior. E nesses países, os nossos jogadores respeitam as leis vigentes em cada local. Portanto, nós temos que tomar medidas caso um estrangeiro venha ao Brasil e desrespeite as nossas leis".

O lance ocorreu no primeiro tempo. Após uma ríspida dividida de bola entre Arano e Grafite, Desábato aproximou-se do brasileiro e disse palavras ao seu ouvido. Grafite revidou empurrando a cara do argentino. O árbitro do jogo expulsou só o jogador são-paulino e Arano. Desábato continuou em campo.

Na partida de ida entre os dois clubes, na Argentina, os jogadores do São Paulo já haviam reclamado de terem sido ofendidos com xingamentos racistas. A direção do Quilmes chegou a enviar um pedido formal de desculpas ao time brasileiro.

"Pode se preparar que isso vai ser uma notícia mundial, porque isso [racismo] não é para acontecer em nenhum lugar, nem aqui nem na Europa", disse o zagueiro Fabão após tomar conhecimento do episódio.

TÉCNICO ACREDITA EM "FARSA"
Para o técnico do Quilmes, Gustavo Alfaro, a acusação de racismo de Desábato foi "uma farsa" armada pelos jogadores do São Paulo para provocar a prisão do jogador.

"Lamentavelmente, terminamos sendo cúmplices de algo que nos deixa mal. Creio que montaram uma farsa", disse o treinador. Leia mais
O zagueiro estava certo. Nesta quinta-feira, jornais da Europa, Estados Unidos, Ásia e até da Argentina relataram o assunto, que repete uma tendência em gramados europeus.

O lateral-esquerdo Roberto Carlos, que joga no Real Madrid, da Espanha, é vítima constante dos xingos vindos das arquibancadas das torcidas adversárias, que o chamam de "macaco" ou, quando ele pega na bola, emitem sons parecidos com o que esta espécie de animal produz.

Ainda na Espanha, o atacante camaronês que atua no Barcelona, Samuel Eto'o, também é alvo de palavras racistas. Em um jogo do Campeonato Espanhol, o árbitro da partida teve que interromper e pedir para que o a direção do clube da casa interferisse, pedindo para os torcedores parassem.

Ações contra o racismo
A crescente onda de racismo contra os jogadores de futebol deu início a um movimento que tem como objetivo lutar pelo fim das manifestações contrárias aos atletas, principalmente os brasileiros que atuam na Europa.

No último dia 21 de abril, o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), fundado pelo ex-sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, lançou uma campanha nacional intitulada "Mande um cartão vermelho para o racismo no futebol" (www.racismonofutebol.com.br).

A campanha tem como objetivo que cidadãos brasileiros se sensibilizem e enviem mensagens para Federação Internacional de Futebol (FIFA), Federação Européia de Futebol (UEFA) e Federação Espanhola de Futebol, exigindo atitudes mais eficazes no combate ao racismo.

REPERCUSSÃO INTERNACIONAL
A prisão de Desábato ganhou repercussão internacional, sendo veiculada pela mídia européia, norte-americana, e até asiática. Leia mais
Nos casos em que houve punição, as penas estabelecidas foram consideradas brandas pelos veículos de imprensa e formadores de opinião.

Em fevereiro, por exemplo, a UEFA multou o La Coruña em 600 Euros (cerca de R$ 2.160), por manifestações racistas feitas pela torcida do clube ao jogador brasileiro Roberto Carlos, do Real Madrid.

Em outra partida na Europa, os brasileiros Juan e Roque Júnior, que atuam no Bayern de Munique (Alemanha), foram vítimas de manifestações da torcida quando entraram em campo para enfrentar o Real Madrid.

Porém, o árbitro da partida sequer relatou o fato na súmula do jogo, e os xingos vindos das arquibancadas não geraram nenhuma reação por parte do presidente da UEFA, Lennart Johansson, presente no estádio.

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