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  23/03/2006 - 09h46
Façanha gaúcha faz 50 anos e vira livro

Milton Júnior, do Pelé.Net

PORTO ALEGRE - O Brasil conheceu de vez a força do futebol gaúcho exatamente há meio século. Foi naquele ano que uma seleção de jogadores do Rio Grande do Sul, formado em sua quase totalidade por atletas da dupla Gre-Nal - sendo que sete titulares e o treinador eram do Internacional - conquistou o Campeonato Pan-Americano no México.

O triunfo, recém o segundo do país no exterior em sua história - o primeiro havia sido no Pan anterior, o primeiro, no Chile -, neste mês completa 50 anos e está sendo relembrado, em homenagens aos atletas, com o lançamento do livro 1956 - Uma Epopéia Gaúcha no México, do jornalista Eduardo Valls.

O lançamento contou com o apoio da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Federação Gaúcha de Futebol (FGF), e foi realizado na noite desta segunda-feira, numa livraria de Porto Alegre. Lá estavam reunidos, alguns dos grandes contou com a presença de alguns dos heróis da conquista, como o Larry, Florindo, Milton, Juarez e Chinesinho.

Valls, o autor do livro, disse que a motivação para recuperar a história foi exatamente essa, a falta de uma publicação sobre uma conquista tão importante para o futebol gaúcho, associada a uma pequena biografia de cada um dos 22 atletas convocados pelo técnico José Francisco Duarte Júnior, o revolucionário Teté, que fora campeão estadual com Internacional nos anos de 1951, 1952, 1953 e 1955. O Colorado mandava no Estado, à época.

Divulgação 
Capa do livro: 1956 - Uma Epopéia Gaúcha no México, do jornalista Eduardo Valls
"Quando comecei as pesquisas, vi que muitos jogadores ainda estavam vivos e falavam com orgulho da importância daquele título e a representatividade alcançada pelo Rio Grande do Sul no México", explicou, acrescentando que o trabalho demorou quatro anos para ser concluído e, depois, mais um ano de espera por patrocínio.

"Essa demora para a publicação acabou sendo boa, pois ganhou valor a coincidência com os 50 anos da vitória e nessa expectativa consegui acrescentar informações, fotos, o que valorizou a publicação", acrescentou Vells.

Para escrever o livro, que tem tiragem de 5.000 exemplares nesta primeira edição, foram feitas 82 entrevistas, com 52 pessoas, e realizadas muitas viagens pelo Estado, sem falar nas cartas trocadas e centenas de telefonemas. Nesse período de quatro anos de pesquisa, quatro dos craques faleceram: Ênio Rodrigues, Ortunho, Figueiró e Odorico.

Larry, o goleador, acabou vice-prefeito
O goleador daquela Seleção Brasileira representada pelos gaúchos - ao lado de Chinesinho, ambos com quatro gols - foi Larry. Feliz pelo reencontro com os amigos da bola, ele destacou que a publicação foi uma forma de resgatar um título alcançado numa competição que não guardou imagens pois, pelo que sabe, não houve registro cinematográfico e a televisão apenas engatinhava.

"O livro representa, em textos, muito mais do que a fotografia. Como não se pode ter o registro em movimento, a leitura cria as imagens da história daquele Pan, um momento belíssimo do futebol brasileiro", declarou Larry ao Pelé.Net.

Aos 73 anos, o ex-goleador, famoso por ter marcado quatro gols no Gre-Nal de inauguração do estádio Olímpico, em 1954 - vitória colorada por 6x2 - conta que casou no Rio Grande do Sul, e ainda estava em fase de lua-de-mel quando ganhou o campeonato no México. Além disso, na seqüência, foi com a Seleção excursionar pela Europa, e na mesma temporada nasceu sua primeira filha. "Foi a principal conquista internacional na minha carreira e um ano maravilhoso para mim".

Mas o goleador do Pan acabou sendo o argentino Sívori, que era do River Plate e fez o gol do empate de 2 x 2 contra o Brasil, totalizando cinco. "O gol que ele fez contra a gente foi um impedimento clamoroso", lembra Larry. Mas, com o empate servia aos representantes brasileiros, esse detalhe não foi o mais importante.

Como manteve seu prestígio em alta, Larry enveredou pela política e foi eleito vereador pela UDN. No ano de 1961, era o único remanescente do título ainda atuando no Inter e dividia seu tempo entre o futebol e a política. Chegou a disputar um Gre-Nal, em que foi expulso, na condição de vice-prefeito.

Chinesinho, o menino moleque
Ninguém se mostrava mais alegre no evento que rememorou o lançamento de 1956 - Uma Epopéia Gaúcha no México, do que o também atacante Chinesinho. Ele fez questão de observar que a homenagem através do livro é uma satisfação e faz justiça ao sucesso da equipe que foi campeã no México. "Foi uma vitória imensa e até hoje os mais velhos ainda lembram de nossa façanha", lembra.

Jogador mais jovem da delegação gaúcha/brasileira, hoje com 71 anos, Chinesinho foi para a Europa e fez história na Juventus, de Turim. "Minha presença no futebol da Itália foi muito marcante, pois ganhei o scudetto de 1957", revela. Ele atou 10 anos na Itália e um de seus fãs, informa, era o então desconhecido Luciano Pavarotti, com quem costumava jogar bocha.

Foi quando ele esbanjava categoria no Riograndense, que o Inter buscou aquele menino prodígio, no ano de 1955, para substituir o ponteiro-esquerdo Canhotinho, que quebrara a perna. Em Porto Alegre, continuou jogando de maneira moleque e atrevida. "Mas quando eu fazia uma jogada com objetividade, geralmente resultava em gol", relembrou.

Pelé.Net 
Florindo, tido como o maior zagueiro da história do Inter, só comparável ao chileno Figueroa
O Gigante de Ébano
No lançamento do livro, lá estava Florindo, considerado pelos torcedores mais antigos como o maior zagueiro da história do Inter, só comparável a Figueroa, o craque dos anos 70, quando o clube colorado conquistou o Brasil.

As atuações de Florindo no Pan foram tão boas que o jogador ganhou da crônica esportiva do México o apelido de Gigante de Ébano. Carioca de Nova Friburgo, mesma cidade do atacante Larry, ele chegara ao Rio Grande do Sul em 1950. Encerrou a carreira em 1964, como jogador e técnico do São Paulo, de Rio Grande, no interior gaúcho.

Hoje com 76 anos, ele diz que sua maior alegria no futebol foi precisamente aquele título alcançado no México. Entusiasmado, cercado por fãs que pediam seu autógrafo, descreveu o estilo que mantinha nos gramados. Resumidamente, era isso: "Eu fazia tudo mais ou menos bem e chegava sempre junto".

Ele não se lembra de ter decepcionado os torcedores. "Em todas as partidas me saía bem. Com isso, deixei o Aírton - zagueiro do Grêmio e um dos maiores jogadores do futebol estadual nos anos 50 e 60 - no banco de reservas e ganhei o apelido que se manteve para sempre", revela o orgulhoso Florindo. Entretanto, lúcido e sincero, ele admite tinha um futebol menos técnico do que Aírton Ferreira da Silva, que começava a despontar no Tricolor.

A escolha do Rio Grande do Sul
Por que o Rio Grande do Sul naquele Pan, no México? Porque o Brasil começara o ano de 1956 com duas competições continentais entre os meses de fevereiro e março. Um Sul-Americano Extra, em Montevidéu, de 15 de janeiro a 15 de fevereiro, que contou com atletas do eixo Rio-São Paulo e na seqüência viria o Pan, entre o final de fevereiro e a primeira quinzena de março.

A CAMPANHA
Brasil 2 x 1 Chile
Brasil 1 x 0 Peru
Brasil 2 x 1 México
Brasil 7 x 1 Costa Rica
Brasil 2 x 2 Argentina
A Confederação Brasileira de Desportos (CBD) revelou dificuldades para participar das duas competições. A idéia de indicar o Rio Grande do Sul acabou partindo de Ênio Melo, redator de esportes do jornal A Hora e comentarista da Rádio Gaúcha. Com a proposta elaborada, Ênio procurou o presidente da Federação Rio-Grandense de Futebol, Aneron Correa de Oliveira. Esse gostou da idéia e foi ao Rio de Janeiro para convencer o presidente da CBD, Sílvio Pacheco, de que os gaúchos estavam prontos e preparados para assumir a responsabilidade.

O dirigente nacional gostou da iniciativa dos gaúchos e só advertiu que o país fora campeão do I Pan, disputado em 1952, no Chile e precisaria manter o prestígio alcançado. O desafio foi aceito, o Rio Grande do Sul foi ao combate e enfrentou com sucesso argentinos, peruanos, chilenos, costarriquenhos e mexicanos, trazendo para o País o caneco do bicampeonato, de forma invicta.

Casos curiosos

A mala - O confronto contra os peruanos era decisivo. Dois dias antes, eles haviam derrotado o México por 2 x 0 e assumiram, embora com uma partida a mais, a liderança do torneio.

O Brasil largou na frente. Larry, ao receber uma cobrança de lateral, ainda na intermediária, numa atitude impensada chutou a gol. A bola tomou uma força incrível e entrou no ângulo do goleiro Felandro. Um golaço.

O perigo se chamava Félix Castilho, 36 anos, ponteiro-direito veloz com um cavalo de corrida.

A partida assumia requintes de dramaticidade. O capitão Ênio Rodrigues lesionou-se e precisou ser atendido pelo medico Derly Monteiro e o massagista Moura atrás da goleira de Sérgio. Foi quando Castilho, sempre ele, driblou dois adversários e entrou pela área para marcar o gol de empate. Como o goleiro estava batido, Moura resolveu atirar a maleta do doutor Derly na bola, fazendo com que o habilidoso ponteiro peruano se perdesse na jogada.

O ELENCO
Goleiros - Sérgio (Grêmio), Valdir (Renner) e Paulinho (Floriano)

Defensores - Ortunho (Nacional), Oreco (Inter), Figueiró (Grêmio), Duarte (Brasil), Florindo (Inter), Aírton (Grêmio) e Ênio Rodrigues (Grêmio).

Meio-campistas - Odorico (Inter), Sarará (Grêmio), Ênio Andrade (Renner), Jerônimo (Inter) e Milton (Grêmio)

Atacantes - Hercílio (Grêmio), Luizinho (Inter), Bodinho (Inter), Larry (Inter), Juarez (Grêmio), Chinesinho, Raul e Floriano (Inter).
O sururu foi geral. Os peruanos queriam a prisão do massagista e na pequena área ficaram espalhados o mercúrio, éter, iodo, algodão e até uma vela.

O árbitro não sabia o que marcar, já que o livro de regras era omisso nesse artigo. Decidiu, diplomaticamente, pela cobrança de escanteio.

A taça - A Taça Jarrito México, conquistada no Pan, não existe mais. Em 19 de dezembro de 1983, quando ladrões roubaram da sede da CBF a Taça Jules Rimet, conquista no Mundial de 1970, também no México, a Taça Independência, comemorativa ao sesquicentenário da Independência dos Estados Unidos, e a Jarrito, conquistada pelos gaúchos, foram junto.

A viagem - Os gaúchos deixaram Porto Alegre no dia 16 de fevereiro, rumo a São Paulo, onde se integrariam a dirigentes que completariam a delegação, esses vindos do Rio de Janeiro. A segunda etapa foi no dia seguinte, num vôo de São Paulo a Lima. Previsto para demorar oito horas, o percurso levou 11. Da capital peruana outro avião seguiria até o Panamá, com mais sete horas de viagem. O trajeto final foi do Panamá ao México, onde o Brasil chegou no dia 19 de fevereiro. Uma tortura.


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