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  04/12/2006 - 11h51
Dupla foge da pressão corintiana e encontra paz na Turquia

Danilo Valentini, especial para o Pelé.Net

SÃO PAULO - Os dois já foram alvos de vaias e críticas duras. Ambos saíram do clube por baixo. Mas, mesmo sem nunca terem jogado juntos pelo Corinthians, o atacante Bobô e o meia Ricardinho não fazem cerimônia para festejar a troca de um momento conturbado que ainda ronda o clube paulista pela vida boa de Istambul e a fase ascendente do Besiktas, clube turco por qual se tornaram, lado a lado, destaques na atual temporada.

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Achincalhado pela torcida do Corinthians, Bobô foi virar ídolo do Besiktas, na Turquia
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Execrado pela maioria esmagadora da torcida por perder chances incríveis e ter marcado apenas cinco gols em 63 jogos como profissional do Corinthians, Bobô levanta a mão aos céus por ter ido parar no Besiktas, para onde foi em fevereiro, por empréstimo. Satisfeito pela realidade completamente diferente da que vivia mesmo tendo sido campeão brasileiro de 2005, o atacante pernambucano pediu ao clube que o negociasse com o futebol turco, onde pode ficar por três anos caso cumpra rigorosamente seu contrato.

O rótulo de culpado para Ricardinho, por outro lado, foi colado pelo ex-técnico Geninho, que afastou o jogador da equipe titular como uma das medidas que ele considerava correta para estancar a terrível crise vivida pelo Corinthians por boa parte do Campeonato Brasileiro. Sacado e obrigado a treinar separadamente, o meia pentacampeão do mundo com a seleção brasileira não pensou duas vezes quando recebeu a proposta do Besiktas.

Juntos, e acompanhados de outros dois brasileiros, o também pentacampeão Kleberson e o rodado atacante Márcio Nobre, Bobô e Ricardinho vêm contribuindo de forma importante, e distintas, para o desempenho do Besiktas, atual quarto colocado do Campeonato Turco, um ponto atrás de Manisaspor e Galatasaray e com sete a menos do que o Fenerbahce, equipe dirigida por Zico e que conta com Alex, Edu Dracena, Deivid e Lugano.

Mas a perseguição aos primeiros colocados não é o único motivo de otimismo e satisfação para a dupla de ex-corintianos. Pela Copa da Uefa, Ricardinho marcou, de pênalti, o segundo gol da vitória do Besiktas contra o Brugge-BEL, que manteve a equipe com chances de classificação à próxima fase. Na última rodada do grupo B, a equipe joga por um empate ante o Bayer Leverkusen, na Alemanha.

Mas, apesar de Ricardinho começar a despontar como o organizador da equipe e o curinga do técnico Tigana, ex-jogador da seleção francesa nos anos 70 e 80, é Bobô que vem sendo tratado como ídolo e tendo seu rosto estampado em fotos levadas ao estádio por torcedores, que nos estádios gritam Bobô com uma entonação diferente, sem acento, e que na internet disponibilizam alguns dos 21 gols que marcou nos 36 jogos que fez até agora pelo Besiktas.

VIDA BOA
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As dificuldades mais conhecidas de adaptação encontradas por jogadores brasileiros que deixam o país não foram obstáculos para Bobô e Ricardinho, ambos fascinados com a vida em Istambul, principal cidade da Turquia e um atraente ponto turístico por unir Europa e Ásia.

Cenário de mesquitas fantásticas e comércio pungente, a cidade atrai os ex-corintianos pelo espírito caloroso da população, pela comida boa e pela estrutura disponibilizada pelo Besiktas.

Com um ritmo de vida menos frenético do que encontravam em São Paulo, os jogadores conseguem tempo para viagens curtas ao belo litoral turco e, sempre que precisam, utilizam os benefícios dados pelo clube. "Temos intérpretes não só quando estamos treinando ou jogando. Podemos chamá-los também quando estamos com nossas famílias, passeando. Qualquer problema a gente chama", conta Ricardinho.
E o atacante, de 21 anos, marca gol de tudo que é jeito pelo alvinegro de Istambul. "No Corinthians a bola não entrava, batia na trave, no goleiro, e saía. Aqui eu chuto, a bola entra. Sempre sobra para mim. Dou sorte", afirma Bobô, empolgado com a boa fase, mas totalmente consciente que a mudança de fase não tem acontecido apenas por uma questão de ter deixado o azar para trás.

"O fator principal foi a tranqüilidade. Logo no primeiro jogo fiz gol e a coisa começou a fluir naturalmente. Aí eu já estava com a cabeça sem pensar nos gols que havia perdido no Corinthians, em que a torcida ficava em cima e eu não assimilava isso muito bem", admite o atacante, revelado nas categorias de base do clube onde conquistou a Copa São Paulo de Juniores, em 2005.

Promovido ao time profissional precocemente junto de Jô, Abuda e Wilson, Bobô não pôde reclamar de chances, que chegaram a ser constantes quando virou parceiro do badalado Carlitos Tevez enquanto a MSI procurava um atacante de renome, que só encontrou em setembro daquele ano, quando Nilmar veio por empréstimo do Lyon.

"Tive apoio para dar certo, me ajudaram bastante. Mas tinha o nervosismo, a pressão, faltava um pouco de sorte também. Tive as oportunidades, mas não consegui", relembra Bobô, que após um período de dois meses jogando por empréstimo, voltou ao Brasil já com um título de campeão da Copa da Turquia e com um discurso pronto para convencer o presidente do Corinthians, Alberto Dualib, a aceitar a proposta de transferência definitiva para o Besiktas.

"Falei para eles: `no Corinthians não dá, não posso entrar em campo que vocês já sabem como é'. Não tinha mais confiança para entrar em campo, para fazer nada", desabafa o atacante, que diz já ter sido alvo de uma proposta de um clube espanhol, prontamente rechaçada pelo Besiktas.

Sem nenhum pingo de arrependimento por ter deixado o Corinthians e convencido que "fiz a escolha certa e me dei bem, na hora certa", Bobô faz planos para uma trajetória que pode surpreender muitos, mas não a ele próprio, sua esposa e sua filha, com quem mora na Turquia.

"Para o meu começo na Europa, está bom, mas se eu continuar assim pode ter outras coisas para frente. Sou muito novo ainda, e o Besiktas é uma equipe que disputa a Copa da Uefa, já jogou a Liga dos Campeões, sempre joga com os grandes. É uma vitrine", diz, ambicioso.

Qualidade de vida

O discurso comedido e sem espaço para declarações bombásticas continua como uma das marcas do meia Ricardinho. Mas, mesmo sem admitir que preferiu atuar em uma equipe sem tanta badalação e possibilidades de títulos como o Besiktas por enfrentar menos pressão, o jogador que já disputou duas Copas do Mundo e enfrentou transferências polêmicas entre rivais paulistas confessa que o tratamento recebido no Corinthians foi decisivo para escolher um destino que lhe proporcionasse tranqüilidade.

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Afastado do Corinthians, Ricardinho foi para a Turquia e hoje disputa a Copa da Uefa
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Escalado para defender o Corinthians logo nos primeiros jogos do Brasileirão disputados pós-Copa, diferentemente do que aconteceu com os argentinos Mascherano e Tevez, liberados pela MSI para folgas prolongadas, Ricardinho perdeu espaço na equipe por decisão de Geninho, que era cobrado para mudar a equipe. O jogador se sentiu sabotado.

"Pelo que ocorreu no Corinthians, de ser afastado, como se só a gente tivesse culpa, não aceitei muito. As coisas não eram bem assim, eu tinha responsabilidade como todos, (meu afastamento) não podia ser justificativa para o que estava acontecendo", desabafa Ricardinho, que já havia vivido momentos conturbados quando se transferiu para o São Paulo, onde encontrou uma recepção gelada de parte do elenco por chegar com um salário polpudo, o que lhe rendeu o apelido de 'trezentinho'.

Mesmo assim, Ricardinho se considera experiente demais para ter ido para a Turquia simplesmente por não agüentar pressão. O jogador pondera que o fato de o Besiktas ser uma equipe com uma infra-estrutura digna e por Istambul ser uma cidade propícia para a educação de seus filhos foram fundamentais para escolher a equipe.

"Fiz uma opção, conscientemente, não foi por necessidade. Tinha outras opções antes e depois da Copa, poderia ter ido para outros países da Europa, mas sabia que era um futebol que já se comenta muito mais e a tendência é aumentar", defende Ricardinho, falando do crescimento das equipes da Turquia.

Encantado com Istambul, Ricardinho festeja a possibilidade que poucas vezes teve quando atuou no Brasil. "Aqui tem planejamento o ano todo e dá para aliar o pessoal com o profissional. Foi uma série de fatores que me trouxeram até aqui, vir para um clube legal, em uma cidade muito boa e com a chance de ficar mais com meus filhos. Há uma sensação maior de segurança".


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