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  26/01/2007 - 09h00
Grêmio se afirma como o clube "castelhano" do Brasil

Nico Noronha, do Pelé.Net

PORTO ALEGRE - Castelhano é todo aquele que pertence ou descende de Castela, Espanha. A língua originária de Castela correu o mundo. Primeiro se estendeu por todo o país, depois atravessou o oceano, invadiu a América do Sul e fincou raízes de forma mais profunda na Argentina e no Uruguai. O Brasil, por outro lado, colonizado por portugueses, não deu margem à mesma invasão. Ou melhor, "quase" não deu, pois um grande clube de futebol da cidade de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, abriu suas portas e adotou a "alma castelhana".

Divulgação
De León levanta o troféu mais importante da história do clube, do Mundial de 1983
No já centenário Grêmio Football Porto Alegrense, fundado no muy distante 1903, a maior torcida do clube, hoje conhecida como Geral, foi fundada e ainda hoje atende, com muito orgulho, exatamente pelo nome de Alma Castelhana. O clube, em peças publicitárias veiculadas nas rádios da capital, usa a língua de Castela para convocar os torcedores a se associarem e a apoiarem o clube na campanha da Libertadores da América. E a diretoria contratou, para comandar o time nesta campanha que começa no mês que vem, um goleiro argentino, Sebastián Saja; e um zagueiro ao melhor estilo "xerifão", o também argentino Rolando Schiavi.

Os dois grandalhões desembarcaram neste mês de janeiro em Porto Alegre. Saja, 1,90, 27 anos, natural da cidade de Brandsen, se apresentou simpático, extrovertido, destacando as semelhanças entre o Grêmio e os grandes de seu país. "É um clube que sempre mostrou muita gana, que tem uma torcida parecida com a que estamos acostumados a ver na Argentina e estou orgulhoso de vestir essa camisa", declarou.

O goleiro, que estréia no Grêmio neste sábado, contra o São Luiz, pela terceira rodada do Campeonato Gaúcho, destacou, também, os costumes gaúchos como fatores que influenciaram na sua decisão. "O mate, por exemplo, que gosto muito, é uma tradição aqui no Sul do Brasil".

Schiavi, 1,91m, 34 anos, nascido na pequena Lincoln, ao contrário, é introvertido e de cara tomou a antipática decisão de não conceder entrevistas. Levou pau da imprensa gaúcha, mas a torcida que não parece estar dando bola para isso, foi à loucura no primeiro "balão" que o jogador deu na noite da última quarta-feira, na sua estréia com a camisa tricolor, vitória por 4 a 0 sobre o 15 de Novembro de Campo Bom.

"A relação com os veículos de comunicação é diferente aqui. Lá a gente não fala todos os dias e as entrevistas não costumam ser individuais, até porque não temos tanta coisa para dizer", explicou Schiavi sobre o procedimento adotado. Apontou, assim, uma realidade distinta da que vivia na Argentina, mesmo estando no momento no clube mais "platino" do Brasil.

Torcida adota o estilo "Barra Brava"
A torcida gremista Alma Castelhana foi pioneira na adoção de procedimentos nascidos e desenvolvidos nas arquibancadas dos estádios La Bombonera, do Boca Juniors, e Monumental de Nuñez, do River Plate. O mundo todo reconhece isso. Está lá, na enciclopédia livre da Internet, a Wikipédia: "Barra Brava é um tipo de torcida muito popular na América Latina, conhecida por incentivar suas equipes com cantos e fogos de artifício, inclusive responsáveis por muitos atos de violência dentro e fora dos estádios".

ABC DE CASTELHANOS QUE DEFENDERAM O GRÊMIO
Ancheta (URU) Zagueiro 1971-1980 427 jogos
29 gols
Arce (PAR) Lateral 1995-1997 147 jogos
14 gols
Astengo (CHI) Zagueiro 1987-1989 40 jogos
não marcou
Astrada (ARG) Meio-campo 2000 22 jogos
não marcou
Beausejour (CHI) Atacante 2005 7 jogos
1 gol
Beresi (ARG) Atacante 1945-1947 50 jogos
15 gols
Cardaccio (URU) Meio-campo 1979 2 jogos
não marcou
Cejas (ARG) Goleiro 1976-1977 56 jogos
sofreu 35 gols
Chamaco Rodrigues Meio campo 1971 18 jogos
1 gol
Corbo (URU) Goleiro 1977-1978 116 jogos
sofreu 75 gols
De Leon (URU) Zagueiro 1981-1984 235 jogos
11 gols
Fábio de Los Santos (ARG)Lateral 2001-2002 24 jogos
3 gols
Germinaro (ARG) Goleiro 1957-1959 112 jogos
sofreu 112 gols
Herrera (ARG) Atacante 2006 41 jogos
13 gols
Kiese (PAR) Meio-campo 1980 11 jogos
1 gol
Laguardia (PAR) Meio-campo 1957-1959 31 jogos
2 gols
Lipatin (URU) Atacante 2005-2006 19 jogos
3 gols
Loco Abreu (URU) Atacante 1998 7 jogos
1 gol
Maidana (ARG) Zagueiro 2006 30 jogos
4 gols
Oberti (ARG) Atacante 1972-1974 105 jogos
35 gols
Ortiz (ARG) Atacante 1976 42 jogos
2 gols
Oyarbide (URU) Atacante 1968-1969 32 jogos
1 gol
Pablo Hernández (URU) Zagueiro 2002 13 jogos
1 gol
Ramon Castro (URU) Atacante 1944-1945 29 jogos
30 gols
Rivarola (PAR) Zagueiro 1995-1998 176 jogos
6 gols
Sabella (ARG) Meio-campo 1985-1986 62 jogos
5 gols
Sanguinetti (URU) Meio-campo 1943-1947 97 jogos
8 gols
Scotta (ARG) Atacante 1971 34 jogos
10 gols
Tavarelli (PAR) Goleiro 2004 33 partidas
sofreu 41 gols
Trasante (URU) Zagueiro 1988-1989 32 jogos
não marcou
Vera (PAR) Atacante 1957 3 jogos
não marcou
Zunino (URU) Atacante 1954-1955 59 jogos
26 gols
JogadorPosiçãoÉpocaCampanha
E, na seqüência, após citar La 12, do Boca, Los Borrachos Del Táblon, do River, e La Guardiã Imperial, do Racing, o site cita a Geral do Grêmio, que surgiu como Alma Castelhana em 2001, como a precursora do movimento no Brasil.

E essa torcida dá o que falar. Seus integrantes já incendiaram banheiros químicos no estádio Beira-Rio, do Internacional, no campeonato brasileiro de 2006, já promoveram dezenas de confrontos com soldados da Brigada Militar, já brigaram entre si, e há poucos dias um de seus integrantes deu um soco na cabeça e um pontapé - ambos pelas costas - no ex-presidente do Inter Fernando Carvalho.

O fato ocorreu devido a uma coincidência: os torcedores estavam às centenas esperando o goleiro Saja no aeroporto, quando a delegação do Inter que fora a Brasília receber homenagem pela conquista do título Mundial, desembarcou. A confusão foi grande e as ofensas e agressões aos colorados gerou indignação até mesmo na diretoria do Grêmio, que publicamente pediu desculpas aos rivais.

Mais do que se desculpar, o presidente do Grêmio, Paulo Odone decidiu acabar com qualquer ajuda financeira à torcida. E essa está revoltada, de tal forma que todo internauta que tentava acessar o site da Geral, nesta semana, só encontrava uma nota indignada.

Com o título "Desabafo de uma Torcida Apaixonada", essa nota começa falando que "a menos de um mês do início da Taça Libertadores, o presidente Odone afirmou que não dará ônibus para torcedores e associados seguirem o Grêmio neste início de temporada. Motivo: a confusão do aeroporto. Ou talvez o motivo seria: o trabalho sistemático da imprensa contra a Geral do Grêmio?"

Quase ao final, do longo texto, nova citação à imprensa, tratada como uma inimiga sensacionalista: "Os acontecimentos que envolvem uma torcida não são tão simples - assim como ela não pode ser tachada apenas de boa ou de má, nem pode ser usada como instrumento do sensacionalismo jornalístico, que ora vende jornal superestimando os erros, ora aumenta a audiência da TV com avalanches reprisadas em slow motion".

A "avalanche" citada é o movimento feito pelos seus integrantes, que descem os degraus das arquibancadas aos milhares, causando um efeito visual impressionante. Vez que outra um acaba se acidentando, mas nada que impeça um crescimento cada vez maior no número de torcedores que se amontoam naquele espaço enlouquecido.

Ligação com "castelhanos" já rendeu título mundial
A relação entre o Grêmio e jogadores existe desde o começo do século passado. Está certo que em setembro de 1903, quando o clube nasceu, foram descendentes de alemães que assinaram a ata de fundação do clube. Eles mesmo eram os atletas e a escalação dos primeiros times tinha, entre outros, Knewitz, Mussnich, Kallfeiz, Bohrer, Streheau, Geske, Schuck, Diefenthaller, Kraemer e Uhrig.

Na década seguinte, entretanto, já começaria a lenta e gradual invasão castelhana, que ao longo da história resultaria na participação decisiva de atletas argentinos, uruguaios e paraguaios em grandes conquistas do clube. A mais importante delas a de um zagueiro nascido na cidade de Rivera, Uruguai, fronteira com Santana do Livramento, no sudoeste do Rio Grande do Sul. Ele foi batizado Hugo Eduardo De León, em 1958, e 25 anos depois levantou sobre a cabeça a taça de campeão do mundo.

Não está muito claro, entretanto, o momento exato em que o Grêmio começou a importar jogadores que falavam espanhol, A revista "História Ilustrada do Grêmio", volume nº 3 - a Bíblia dos primórdios do clube -, dá pistas. Ela diz em sua página 23: "O center-half do scratch uruguaio vencido pelo Grêmio em 1916, Julian Bertola, enamorou-se perdidamente de seu eventual adversário e acabou por enriquecê-lo com outros três companheiros que, em 1917, saíram do seu país oriental, acompanhando-o na transferência para o clube gaúcho. Foi assim que Eduardo Behregaray (também craque da celeste), Eduardo Garibotti, Nicanor Rodrigues e ele mesmo passaram a atuar no Grêmio".

Depois disso, a relação se manteve sempre estreita, ajudada, é claro, pela proximidade geográfica. Além de De León, o herói daquele momento mais grandioso da história gremista, destacaram-se de forma expressiva, por exemplo, os paraguaios Arce e Rivarola, que comandavam o sistema defensivo do time quando ganhou a Libertadores da América de 1995.

Outro uruguaio, Ancheta, defendeu o Grêmio durante toda a década de 70, tendo chegado ao clube logo após ter sido eleito o melhor zagueiro da Copa do Mundo do México. Já o atacante argentino Scotta entrou para a história por ter marcado o primeiro gol da primeira edição do campeonato brasileiro, em 7 de agosto de 1971, na vitória sobre o São Paulo por 3 a 0.

Mas há, segundo levantamento feito pelo jornalista e pesquisador Laert Lopes, especialmente para o Pelé.Net, uma fixação do clube por goleiros castelhanos. Já no final dos anos 50, assumiu a função, com eficiência e estardalhaço, o grande Germinaro, que viera da Argentina. Foi tricampeão regional entre 1957 e 1959 e escandalizou a sociedade gaúcha porque adotou uma camisa na cor amarela. O Grêmio, sempre simpático aos modismos dos vizinhos, deixou a bola rolar assim mesmo.

Nos anos 70 dois outros famosos goleiros defenderam o Grêmio, em seqüência, primeiro o argentino Cejas e, depois, o uruguaio Corbo, que acabou sendo aquele que marcou forte na lembrança dos tricolores por ter sido o camisa 1 no inesquecível campeonato estadual de 1977, quando o clube, após oito anos consecutivos de derrotas, conseguiu derrubar o rival Internacional, então uma máquina bicampeã nacional.

A experiência mais recente foi feita em 2004, com o paraguaio Tavarelli, que era da seleção de seu país, mas fracassou em Porto Alegre. Nada que fizesse o clube desistir de uma tradição da qual se orgulha cada vez mais. Está aí Sabastián Saja para provar isso.

O time do futuro, neste janeiro de 2007, começa com ele. Um argentino.


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