! A difícil decisão de trocar de lado na dupla Gre-Nal - 04/04/2007 - Pelé.Net - Revista
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  04/04/2007 - 08h39
A difícil decisão de trocar de lado na dupla Gre-Nal

Nico Noronha, do Pelé.Net

PORTO ALEGRE - Já era madrugada, na última quinta-feira, 29 de março, quando o centroavante Christian Dionízio, o maior goleador do Internacional em toda a história do campeonato brasileiro, com 21 gols marcados na edição de 1997 da competição, deixou o Beira-Rio às escondidas, como se fosse um inimigo. Precisou de um segurança para dar cobertura, enquanto fugia de colorados que no pátio do estádio chamavam-no, entre outras coisas, de "traidor" e "mercenário".

TROCAS E RIVALIDADE
ChristianGrêmio - Inter
BatistaInter - Grêmio
TesourinhaInter - Grêmio
TingaGrêmio - Inter
Mauro GalvãoInter - Grêmio
MassarocaGrêmio - Inter
NorbertoInter - Grêmio
MaurícioInter - Grêmio
NilsonInter - Grêmio
P.C MagalhãesGrêmio - Inter
Carlos MiguelGrêmio - Inter
R. CardosoGrêmio - Inter
EdmilsonInter - Grêmio
GavilánInter - Grêmio
Christian, naquela madrugava de frustração para os colorados, logo após um empate em 0 a 0 com o Vélez Sarsfield, da Argentina - resultado que deixou o clube em má situação na Libertadores da América -, pagava o preço por ter, um dia, trocado a camisa vermelha e branca do Sport Club Internacional, pela tricolor, azul, preta e branca, do maior rival, o Grêmio.

Não existe um termômetro capaz de medir com exatidão o tamanho de uma rivalidade no ambiente do futebol, mas no Rio Grande do Sul há uma convicção de que nada se compara à aversão que gremistas e colorados tem um pelo outro. E por mais que o profissionalismo indique que já é algo muito natural e aceitável um atleta trocar um clube pelo outro, sair do Beira-Rio para o Olímpico ou vice-versa, ainda é um ato de coragem, um risco. Christian que o diga.

Passado o susto, Christian pediu desculpas pelos erros daquela noite, especialmente por ter sido expulso ainda no primeiro tempo ao tentar inventar um pênalti, mas ao mesmo tempo reclamou de quem o perseguiu. "Peço desculpas pela expulsão, mas quem me chamou de gremista é incoerente. Estou aqui para ajudar o Inter e fiquei muito triste por deixar meus companheiros em dificuldades contra o Vélez".

Batista sofre até hoje
Embora sempre tenha administrado bem essa situação de "vira casaca", o ex-volante de Inter, Grêmio e Seleção Brasileira, Batista, confessou ao Pelé.Net, na semana passada, que até hoje ainda escuta ofensas por ter defendido os dois inimigos. Hoje comentarista da RBS TV, de Porto Alegre, ele conta que "em dias nos quais o time perde e os torcedores ficam indignados, sobra para todo mundo e, no Olímpico, alguns acabam me chamando de colorado, e se estou no Beira-Rio, gritam que sou gremista".

Batista trocou de lado em 1982. Com problemas de renovação de contrato com o Inter, seu passe acabou indo para a Federação Gaúcha de Futebol, e qualquer clube que pagasse o equivalente a US$ 1 milhão - uma exorbitância para os padrões nacionais da época - levaria o jogador. Pois o Grêmio bancou, causando um rebuliço nunca visto no universo do futebol gaúcho. "Era muito dinheiro, ninguém esperava que o Grêmio fizesse aquilo", lembra Batista.

O volante ouviu ofensas como nunca, naqueles dias. Onde fosse havia alguém disposto a chamá-lo de traidor. "Mas felizmente nunca chegaram às vias de fato", lembra o jogador.

Pelé.Net
Batista trocou de camisa em 1982; Grêmio pagou multa milionária e levou o volante
O Grêmio, lá na metade do século passado, já tivera a ousadia de buscar um outro craque colorado, embora não de forma direta. Tesourinha, um dos maiores ídolos da história vermelha, presente em todas as seleções que se faz para definir o "melhor Inter de todos os tempos", deixara o Rio Grande do Sul e estava defendendo o Vasco da Gama, quando a diretoria tricolor resolveu buscá-lo.

A contratação não foi apenas uma afronta aos torcedores rivais. Foi, na verdade, a forma encontrada pelo presidente gremista, Saturnino Vanzelotti, de dar fim a uma norma do clube, segundo a qual negros não podiam vestir a camiseta tricolor. Contratar Tesourinha, um dos maiores jogadores da época, era um marco, o fim do racismo.

Em 1952 o clube, que vinha apanhando sem parar do time predominantemente preto do Inter, numa nota curta e constrangida, disse: "A Diretoria do Grêmio, Futebol Porto Alegrense vem trazer ao conhecimento de seus associados e simpatizantes, por decisão unânime, que resolveu tornar insubsistente a norma que vinha sendo seguida, de não incluir atletas de cor em sua representação de futebol. A decisão tomada com convicção, após cuidadoso exame da situação, ausculta, acima de tudo, não só as determinações de nossa Carta Magna, como a imposição expressa de nossos próprios estatutos".

Os torcedores do Inter jamais perdoaram Tesourinha.

Raros conseguiram sucesso nos dois lados
O curioso é que nem Batista, em 1982, e muito menos Tesourinha, exatos 30 anos antes, obtiveram sucesso após trocarem de lado. Na verdade são raros os casos daqueles que se deram bem tanto de vermelho como de azul. Uma dessas exceções é bem recente: Paulo César Tinga. Criado no Estádio Olímpico e ídolo gremista nos anos 90, ele se transferiu para o Inter em 2005 e, no ano passado, foi herói na conquista do titulo da Libertadores da América.

Emocionando com o feito e com o tratamento recebido pelos colorados, Tinga acabou revelando que apesar de ter começado sua vida profissional e se afirmado como atleta gremista, sempre fora colorado. A declaração deixou os tricolores revoltados, mais do que a já contestada decisão de ter ido defender o clube do Beira-Rio.

Caminho oposto fez outro jogador que teve sucesso nos arquiinimigos. O zagueiro Mauro Galvão, que foi campeão brasileiro invicto em 1979, quando tinha apenas 17 anos, revelando-se um dos mais talentosos defensores criados no Internacional, acabou, após perambular por vários clubes, voltando a Porto Alegre uma década depois e acabou conquistando outro Brasileirão, agora pelo Grêmio. Era um sonho de infância, pois na verdade fora um menino que torcia pelo tricolor e que só não começara sua vida futebolística no Olímpico porque, considerado franzino, foi rejeitado nas categorias de base.

Quando ingressou no Tricolor, teve de encarar olhares de decepção de uns, de raiva de outros, que consideraram ter ele manchado sua carreira ao vestir a camisa do Grêmio.

Mas a maioria dos que saem de Grêmio para Inter e vice-versa, acabam sentindo o peso da indignação e fracassam. Volmir, o "Massaroca", um endiabrado ponteiro tricolor dos anos 60, vestiu vermelho e não conseguiu jamais ser o mesmo. Nos 90, o Grêmio contratou de uma só vez três ex-destacados colorados, o volante Norberto, o ponteiro-direito Maurício e o centroavante Nilson e acabou indo, com eles, rumo à segunda divisão brasileira em 1991. O trio ouviu poucas e boas antes de ser dispensado.

Exemplos não faltam. O lateral-esquerdo Paulo César Magalhães, campeão mundial pelo Grêmio, foi um coadjuvante de desempenho pífio no Inter, assim como o meia Carlos Miguel, campeão da Libertadores pelo Grêmio em 1995, e que ao se transferir para o Beira-Rio nada fez.

No momento, além de Christian, que começou no Inter, foi para o Grêmio e voltou ao Colorado, existem outros três atletas que aceitaram o desafio de encarar a ira dos torcedores. No Inter está Rubens Cardoso, que foi chamado de gremista à exaustão e mesmo que tenha ajudado o clube a chegar ao topo do mundo no ano passado, segue sob o olhar desconfiado de grande parte dos colorados. Basta errar, que o coro dos intolerantes desaba sobre ele.

No Grêmio, dois volantes que vestiram vermelho defendem agora a camiseta tricolor. Edmílson, de jornada discreta quando no Beira-Rio, foi recebido com indiferença no Olímpico e os colorados não o ofenderam, ao menos pelo que se tem conhecimento. Já Gavilán, que era bem identificado com o Inter, não passou impune ao decidir jogar pelo inimigo neste 2007.

O paraguaio inclusive se defendeu. Após viver algumas situações incômodas em Porto Alegre, pela decisão tomada, se justificou publicamente. "Eu até tentei negociar meu retorno ao Inter, mas eles não demonstraram interesse e por isso acertei com o Grêmio". A explicação não acalmou os colorados mais raivosos e ao mesmo tempo desagradou gremistas.

É por isso que, para evitar tanta incomodação, muitos atletas, que ao longo do tempo foram ídolos de um lado, se recusam a passar para o outro, mesmo que isso represente abrir mão de alguns bons trocados. Talvez o caso clássico que represente esse grupo, seja Renato Portaluppi. Considerado o maior ídolo do Grêmio em toda sua história, ele repetiu à exaustão, em várias ocasiões: "Jamais vestirei a camisa do Inter".

E não vestiu mesmo. Hoje treinador, mantém-se fiel ao seu ódio pelo rival e no ano passado fez questão de anunciar que estava torcendo pelo São Paulo contra o Inter, na final da Libertadores. Acabou vendo frustrado seu desejo, pois o Colorado foi o campeão. Em compensação reforçou ainda mais sua ligação com a torcida gremista, especialmente junto àqueles que jamais admitiram ou admitirão que um ídolo troque de lado.


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