UOL Esporte Futebol
 
30/10/2008 - 21h44

Igreja Maradoniana aproveita glória do ídolo e festeja 10º aniversário

Márcio Resende
Em Buenos Aires
Uma bola de futebol com uma coroa de Cristo e algumas gotas de "sangue", uma árvore de Natal com fotos do ídolo penduradas como "estrela", um terço com uma chuteira no lugar do crucifixo, o nome "Diego" em substituição de "Amém", uma infinidade de objetos e costumes seguidos com devoção por centenas de fiéis da chamada Igreja Maradoniana. Para esta legião de fanáticos existe uma única certeza sobre a face da Terra: Diego Armando Maradona é o Deus Supremo do futebol.

Natacha Pisarenko/AP
Igreja possui réplica da taça conquistada pelos argentinos nas Copas de 1978 e 1986
Marcos Brindicci/Reuters
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É dia de Natal. Um Natal que se vive como nenhum outro nesses 10 anos de Igreja Maradoniana. Pela primeira vez, Maradona está bem de saúde e volta à seleção argentina, agora como técnico. Nesta quinta-feira, o ídolo completou 48 anos.

"Para os argentinos, o futebol é vivido como uma religião. E como cada religião tem o seu Deus, o Deus do futebol é Diego. É lógica pura", definiu Alejandro Verón, um dos três fundadores da Igreja, ao UOL Esporte.

OS 10 MANDAMENTOS MARADONIANOS
1. A bola não será manchada", baseada na frase célebre de Maradona "La pelota no se mancha" que buscava separar os seus problemas com drogas do terreno esportivo.
2. "Amar o futebol acima de todas as coisas"
3. Declarar o teu amor incondicional por Diego e pelo bom futebol
4. Defender a camisa argentina, respeitando as pessoas"
5. "Difundir os milagres de Diego em todo o universo"
6. "Honrar os templos onde (Diego) predicou e os seus mantos sagrados"
7. "Não proclamar Diego em nome de um único clube"
8. "Predicar os princípios da Igreja Maradoniana"
9. "Levar Diego como segundo nome e colocá-lo no teu filho"
10. "Não ser cabeça de garrafa térmica (não ser mente fechada) e que a tartaruga não fuja (não ser lento)". (frases famosas de Maradona dentro de um contexto de época).
Cerca de 400 pessoas passaram a noite de véspera do Natal Maradoniano reunidas entre orações, demonstrações de fé e festejos numa pizzaria de Buenos Aires. Começou o ano 48 D.D. (Depois de Diego) que coincide com uma nova fase tanto na vida de Maradona quanto destes fanáticos torcedores que irão ver "Deus" tentar reeditar a última conquista mundial argentina de 1986 (Copa do México).

O público, entre brindes e ceia, explode em cantigas. A mais repetida é a preferida de Diego Maradona: "Voltaremos, voltaremos. Voltaremos outra vez. Voltaremos a ser campeões como em 86".

De repente, a procissão irrompe o salão. Apóstolos com túnicas brancas carregam os símbolos representativos daquele considerado na Argentina o maior jogador de futebol de todos os tempos. No centro do cortejo, um presépio apócrifo em forma de igreja com uma réplica em miniatura da estátua de homenagem a Maradona na cidade argentina de Mar del Plata. São 10 os apóstolos. O décimo primeiro seria Maradona para completar o time. Não há décimo segundo.

"Não existe Judas nesta religião do futebol. Nem tudo tem paralelo com o catolicismo. As coisas simplesmente surgem. Isto é o folclore do futebol", conta Verón.

O ritmo do desfile eclesiástico é marcado com uma oração liderada pelos fundadores da "Igreja Maradoniana, a mão de Deus", em alusão ao famoso gol contra os ingleses no Mundial de 86. "Em nome de Dona Totaaaaaaa? de Dom Diegoooo? e fruto desse amoooor", pronunciam em tom de alabança. "Diegooooooo?Diegoooo", ouve-se em tom de amém.

Os olhares são de admiração e de respeito. Não há espaços para brincadeiras.

"Este é um movimento num tom muito sério por mais que alguns queiram definir como uma paródia. Isto nasceu verdadeiramente por amor a um ídolo num momento em que Maradona não estava bem. Em países como a Argentina, o futebol é um fenômeno inexplicável. É sanguíneo. Aqui não se permite nem uma derrota porque o povo fica inabilitado para ser feliz por, pelo menos, uma semana", interpreta o instrutor nacional e diretor técnico de futebol, José Caldeira, autor do livro "Igreja Maradoniana, a mão de Deus", que define a Igreja como um movimento único no mundo que transformou um jogador de futebol numa religião.

Nova era

Diego nosso que estas na terra,
santificada seja a tua canhota.
Venha a nós a tua magia
Façam-se recordar os teus gols
assim na terra como no céu.

Dá-nos hoje uma alegria neste dia,
e perdoa aqueles jornalistas
assim como nós perdoamos
a máfia napolitana.

Não nos deixes manchar a bola
E livra-nos do Havelange...
PAI NOSSO MARADONIANO
Depois de inúmeros natais maradonianos rezando pelo ídolo, diversas vezes internado por problemas cardíacos e pulmonares como conseqüência do consumo de cocaína e álcool, os fiéis se reuniram neste ano sem o temor de perder o craque.

"Incrível seria para qualquer outro mortal. Ele é Deus!", comenta Hernán Amez, um dos fundadores da igreja, referindo-se ao novo período em que o ex-jogador está passando. Apenas 18 meses se passaram entre a última internação de Maradona e a confirmação como treinador da seleção argentina.

"Como treinador, é uma incógnita. Ele tem méritos próprios para estar nesse cargo pelo que fez como jogador. Foi Deus em campo. Tem o crédito aberto, mas terá de demonstrar em outra função", avalia Amez.

"No terreno do futebol, ele foi e será um exemplo. Na sua vida privada, não. Ele tem a sua vida privada e a sua vida esportiva. Na vida esportiva, estamos com Diego até a morte. Na sua vida privada, cada um é responsável pelos seus atos. Nem tudo o que ele faz está bem. Somos conscientes", concorda Alejandro Verón. Mas salienta: "Quando Diego estava mal numa cama e quando todos esperavam que ele morresse, não era fácil ser maradoniano. Nós enfrentamos as balas com o próprio peito. Agüentamos tudo. Fomos fortes. Agora queremos desfrutar", recorda.

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