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Sergio Moraes/Reuters

Falcão, estrela do futsal, recebe prêmio no Mundial do Brasil de 2008

09/04/2010 - 07h00

Falcão vê carência de ídolos no futsal e cobra protagonismo dos mais jovens

Renan Prates
Em Foz do Iguaçú (PR) *

Ele é indiscutivelmente o maior representante do futsal no Brasil na atualidade. No entanto, aos 32 anos, o ala Falcão reconhece que está ficando velho. Na entrevista que concedeu ao UOL Esporte o jogador falou da nova geração. O craque da Malwee Jaraguá observou que não possui súditos à sua altura, algo que o deixa preocupado.

FALCÃO PLANEJA SOSSEGO APÓS ADEUS

  • Beto Costa/CBFS/Divulgação

    Falcão também falou sobre o seu futuro após abandonar a carreira como jogador de futsal. O jogador disse que não se vê sendo treinador, por achar a rotina muito desgastante.

    "Acho que no atleta o que mais pesa é a rotina de viagem de hotel, isso realmente é desgastante. Eu não me vejo sendo treinador ou diretor de uma equipe por causa disso".

    Justamente pela rotina desgastante, Falcão disse que quer mesmo é curtir a família quando parar de jogar pela Malwee e a seleção brasileira.

    "Quero curtir a minha casa, minha família, ir viajar, sumir do mapa, porque nossa vida realmente é muito chata, uma rotina desgastante", justificou.

"Essa geração vai ter que chegar, ganhar títulos. Até agora quem ganha títulos são sempre os mesmos, quem ganha os prêmios individuais também. Isso tem que mudar para criar dor de cabeça no treinador. Tem que acontecer porque 2012 logo logo está aí", cobrou Falcão.

Em 2012, o Brasil lutará pelo bicampeonato da Copa do Mundo de futsal, competição que poderá ou não ter a presença de Falcão.

O ala também falou sobre a sua previsão para a Liga Futsal deste ano, sobre o revés no ano passado, "cutucou" o ex-técnico da seleção brasileira PC de Oliveira e contou o que o motiva a continuar jogando apesar de tantos títulos conquistados (melhor jogador do mundo por duas vezes e campeão mundial pelo Brasil em 2008).

UOL Esporte: Como você vê a nova geração chegando? Vê no mesmo nível da geração campeã em 2008?
Falcão: A geração passada, com a idade que nós estamos hoje, tinha muitas sombras. Você via o Manoel Tobias conquistando um título com 30 anos, mas dois no mesmo nível com 21, 22. Os números são indiscutíveis. Fui o artilheiro da Liga. O Lenísio foi o segundo com mais de dez gols de diferença para o terceiro, mas jogando metade das partidas. A seleção da Liga tem os mesmos jogadores de sempre. Antes não era assim.

UOL Esporte: Qual conselho você daria para os jogadores da nova geração?
Falcão:
Hoje a geração nova tem que pedir passagem. Enquanto isso não acontecer os números vão determinar a convocação. O Pipoca precisa ter dor de cabeça com a nova geração e por enquanto isso não está acontecendo. Essa geração vai ter que chegar e ganhar títulos. Até agora quem ganha os títulos são sempre os mesmos, quem ganha os prêmios individuais também. Isso tem que mudar, pois 2012 logo está aí.

UOL Esporte: Você acha que está faltando personalidade para esses novos talentos?
Falcão: Eles estão abaixo. Tecnicamente você não consegue apontar ninguém de destaque. Você pegava a geração do Douglas, do Jadson e conseguia falar mais cinco, seis jogadores da próxima geração. Você pegava Fininho, Manoel Tobias, Choco, Danilo, Bagé, Lavoisier e conseguia falar Falcão, Lenísio, Vinícius, Tiago, uma geração que vinha pedindo passagem. Hoje você não consegue falar cinco jogadores que vão fazer a diferença. Dá para falar centenas de bons jogadores, mas você não consegue falar: ‘ah, esse daqui vai ser o ídolo do futsal’. E isso tem que acontecer o mais rápido possível. Um dia nós vamos parar e nenhum esporte vive sem ídolo.

UOL Esporte: O Falcão do futuro fica preocupado nesse sentido de não haver uma renovação dos ídolos no futsal?
Falcão: O ídolo do esporte tem que ser um ídolo que vai a qualquer lugar e seja reconhecido. Hoje consegui isso. Vou a um aeroporto e uma criança e um idoso sabem quem eu sou, mas um só é muito pouco. É preciso criar ídolos. A nova geração tem que ter personalidade. Vemos muitos jogadores que aparecem, fazem isso e aquilo, mas chegam no profissional e ficam acanhados. Até provarem que sabem jogar, eles passarão por situações de tomar um drible e tomar um dedo na cara, como já tomei, mas isso serviu de lição para mim. Então espero que essa nova geração tenha a mesma motivação e o mesmo entusiasmo que nós tivemos no passado.

CRÍTICA A PC DE OLIVEIRA

Hoje o Pipoca mantém o trabalho que o PC vinha fazendo, só que o Pipoca tem um diferencial que é ser mais próximo dos jogadores. O PC tem o trabalho dele que é indiscutível, mas tem uma certa distância assim. Isso não acaba criando um clima amigo.

UOL Esporte: O que ainda te faz continuar jogando na seleção? É o prazer mesmo ou você ainda tem alguma meta pessoal?
Falcão: É o prazer e um compromisso que eu tenho comigo mesmo. Vejo vários atletas do futebol ter dois, três anos mágicos e parar por ali. Vejo o Ronaldinho Gaúcho e outros com a cobrança em cima do que eles fizeram, o que eles fazem hoje não conta. Quero manter isso como venho mantendo por muito tempo. Estou com 32 anos e sei que todo atleta tem um prazo de validade, quero que o meu seja o mais longo possível. Então tenho compromisso com a cidade em que moro, com a camisa que visto e com o país que defendo. E sou ambicioso, quero ganhar tudo de novo, quero ganhar esses três prêmios de novo, quero ser campeão de novo. A minha motivação não acaba nunca.

UOL Esporte: Em 2008, quando perguntado sobre o assunto, você disse que dependeria da sua motivação e do estado físico para continuar na seleção até o próximo Mundial. E hoje, o que você pensa sobre isso?
Falcão: Me vejo indo até 2012, porque estou muito animado, principalmente agora com o Pipoca de treinador. Ele é um cara que além de tudo é nosso amigo, que confia. Se você é amigo dele e não está bem, ele não vai te convocar, isso aí faz com que você tenha que estar 100% sempre. Seleção é momento e hoje o meu é excelente. Fiz um excelente Sul-Americano, acabei conquistando a marca de ser o maior artilheiro da história. E tem a Liga Futsal, não ganhamos no ano passado e uma cidade inteira vive disso e torce por isso. Vivemos de motivação e a minha motivação até o último dia como atleta profissional vai ser a mesma.

UOL Esporte: Você vê muita diferença do Pipoca para o PC? Afinal de contas ele já fazia parte da comissão, mas não como efetivo...
Falcão: Hoje o Pipoca mantém o trabalho que o PC vinha fazendo, só que tem um diferencial: é mais próximo dos jogadores. O trabalho do PC é indiscutível, mas existe uma certa distância assim. Isso não acaba criando um clima amigo. A gente corre igual pelos dois, mas espero que o Pipoca seja tão vencedor quanto o PC foi.

CARÊNCIA DE ÍDOLOS

O ídolo do esporte tem que ser um ídolo que vai a qualquer lugar e qualquer público e seja reconhecido. Hoje graças a Deus eu consegui isso de ir num aeroporto ou qualquer lugar e desde uma criança até um idoso saber quem eu sou, mas um só é muito pouco. Tem que se criar ídolos.

UOL Esporte: Você acha que a aura de ‘imbatível’ da Malwee acabou sendo prejudicial no ano passado?
Falcão: Não, porque isso não se cria dentro do nosso grupo, o que forma nosso grupo vencedor é justamente sempre achar que pode, sim, perder. Então nossa concentração é sempre diferenciada, sempre tomamos todos os cuidados possíveis, não deixamos essa euforia entrar dentro do nosso plantel. Realmente o Carlos Barbosa fez duas grandes partidas. Estávamos sem reposição como eles, acabamos jogando com seis, sete jogadores e isso numa final faz diferença. A nossa equipe é feita para ganhar e esse ano vamos buscar o título da Liga mais uma vez, mas sabemos que tem mais 20 equipes querendo a mesma coisa

UOL Esporte: O Mussalem disse que no mínimo oito equipes têm condições de ganhar o título esse ano. Você concorda?
Falcão: Sim, principalmente devido à mudança de regulamento. Quando eram três jogos na fase mata-mata, dificilmente a melhor equipe na teoria ficava fora. Hoje em dia com dois jogos pode dar qualquer um. Você pode fazer um grande jogo fora de casa e perder de 5 a 4, jogar em casa e ganhar de 10 a 0, mas tomar um gol na prorrogação e pronto, acabou o campeonato. Ou mesmo perder nos pênaltis. Então nivelou muito esse fato de ter dois jogos. Isso cria mais situações para que outra equipe faça a final.

* O repórter viajou a convite da organização do evento

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