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Campeão de judô agora lê a Constituição e "luta" de terno e gravata no DF

Daniel Brito/UOL
João Derly com chimarrão em seu gabinete em Brasília: "Luto sozinho" Imagem: Daniel Brito/UOL

Daniel Brito

Do UOL, em Brasília

25/02/2015 06h00

No dia em que recebeu o UOL Esporte em seu gabinete, em Brasília, o deputado federal João Derly (PC do B-RS) segurava um chimarrão com a mão esquerda e com a direita, ostentava um exemplar atualizado da Constituição Federal.

Ele garante que dedica-se a lê-la sempre que pode. “Mas não é só a Constituição que estou estudando, mas o Regimento Interno da Câmara, os projetos de lei que estão em tramitação e os que pretendo apresentar”, afirmou.

O ex-judoca é o único brasileiro bicampeão mundial da modalidade, em 2005 no Egito e 2007, no Rio. É, também, o único representante do esporte olímpico no quadriênio em que serão realizados os Jogos do Rio, em 2016. Ele chega ao Congresso Nacional com a ideia de criar um Plano Nacional de Esportes.

Ele cita como exemplo a própria Constituição Federal. Na versão que lê e carrega na bolsa, os assuntos relacionados ao esporte estão no artigo 217 e não ocupam nem sequer uma coluna inteira. “Se você olhar para o artigo relativo à cultura, é uma página e meia só sobre cultura”, comparou.

“A ideia é fortalecer a estrutura esportiva no país, não queremos ver a torneira secar após a realização dos Jogos do Rio”, explicou. “O esporte educacional não acontece no nosso país. Muitas vezes, porque nem a escola tem condição estrutural de propiciar a prática esportiva. Mas se a gente conseguir dar oportunidade às mais diversas atividades nas escolas, será um grande avanço. A partir daí, desenvolver também as três áreas do esporte: educacional, recreacional e o alto rendimento”, completou.

Tendo o esporte como bandeira, Derly tornou-se referência para alguns desportistas com quem teve oportunidade de conviver em Jogos Olímpicos e Pan-Americanos. Os irmãos Endres, Murilo e Gustavo, combativos campeões olímpicos do vôlei citam o ex-judoca e sua presença em Brasília nas redes sociais.

Via Twitter, Derly já se posicionou contrário a constitucionalização das doações de empresas nas campanhas eleitorais. Diz que é reconhecido nos corredores por gaúchos e amantes do judô. E sabe que a luta no Congresso será maior do que a que travou nos tatames. “Minha responsabilidade aqui dentro é muito grande, estou meio sozinho nessa luta, mas vou tentar fazer minha parte. como sempre tentei.”

Derly precisa da assinatura de um terço dos deputados para dar início ao debate sobre a criação de uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) para o Plano Nacional de Esporte no plenário, ou seja, 171 adesões. “Já consegui cinco”, mostrou, confiante, no início de fevereiro. O texto da proposta que estabeleceria seu plano pede que “a União aplique anualmente nunca menos de 2% ao esporte”. Atualmente, o esporte conta com 0,23% do orçamento da União. A previsão era de que em 2014 o orçamento do governo federal fosse de R$ 2,488 trilhões.

Derly se orgulha de ter conquistado sua primeira vitória em Brasília. Reuniu o apoio de 200 deputados e senadores para criar uma Frente Parlamentar do esporte, “Vamos trazer as entidades para discutir esporte aqui dentro, debater a Olimpíada-2016. Frente Parlamentar é um instrumento para suscistar o debate e desenvolver o assunto”.

Coincidências
Em um papo com um colega de parlamento, João Derly iniciou um reflexão sobre sua condição atual: “Bah, cara, a gente está participando de algo que, daqui a alguns anos, seja um processo histórico no nosso país” ,  disse o bicampeão mundial de judô e agora deputado federal pelo PC do B do Rio Grande do Sul.

Ele se refere à possibilidade de uma reforma política tramitar no Congresso. Mas, coincidentemente, é uma reação semelhante à que teve quando surpreendeu o mundo ao se tornar o primeiro brasileiro a subir no ponto mais alto do pódio em um Mundial de judô. Foi na tórrida Cairo, no Egito, exatamente 10 anos atrás, em 2005. “Estava caminhando após o final da luta em que me sagrei campeão, me deu um branco, e perguntei: gente, o que aconteceu? Daí me contaram que eu fui campeão mundial. Bah, que momento histórico”, relembra, cheio de orgulho. Dois anos mais tarde, ele tornaria a triunfar em um Mundial, desta vez no Rio.

Uma série de coincidências marca a vinda de João Derly para Brasília e seu mandato como deputado federal. Derly começou a praticar judô em 1988, ano em que o Brasil conquistou sua primeira medalha de ouro em Jogos Olímpicos, com Aurélio Miguel, em Seul. O gaúcho garante que iniciou a praticar meses antes da conquista, mas o feito de Aurélio na Coreia do Sul só serviu de estímulo para seguir na luta.

Sua primeira viagem para competir fora do Rio Grande do Sul foi em 1990, ao lado do então técnico, Antonio Carlos de Oliveira, o Kiko, com quem permaneceu durante toda a carreira e foi exatamente em Brasília. Antes de embarcar para assumir o mandato no Congresso Nacional, ganhou de presente da mãe, a foto com o técnico no voo que os trouxe ao Distrito Federa 25 anos atrás. Mantém o registro em seu gabinete, no Anexo 4 da Câmara.

Reprodução/Arquivo Pessoal
Derly, aos 9 anos, com o técnico Kiko, do Clube Sogipa, viajando para Brasília em 1990 Imagem: Reprodução/Arquivo Pessoal

Sem comparações
Após largar os tatames, Aurélio Miguel, então ídolo do gaúcho, entrou para vida pública e se tornou vereadora na cidade de São Paulo pelo PR. Sua história na Câmara paulistana, no entanto, é recheado de capítulos polêmicos. O campeão olímpico foi citado nas investigações sobre grupo de fiscais da prefeitura de São Paulo suspeito de oferecer a construtoras descontos no pagamento do ISS (Imposto Sobre Serviço) em troca de propina. Embora mencionado por testemunha, Aurélio não é acusado de nenhum crime.

“Aurélio sempre foi meu ídolo, mas não conheço o histórico dele como vereador. Não pesa nada para mim, o fato de ele ter sido judoca e eu também, porque são cargos diferentes, partidos diferentes”, afirmou Derly.

Derly também entrou na política ocupando uma cadeira na Câmara Municipal de Porto Alegre. Se tornou comunista, depois vereador, com 14 mil votos. “Quando fala que a pessoa é comunista, acham que é algo ruim. Mas eu estou aqui pela proximidade que tinha com a Manuela Dávila”, explicou, citando a ex-deputada Federal pelo PC do B e deputada estadual no Rio Grande do Sul.

Após dois anos de mandato, aceitou as recomendações dos correligionários que ocupavam cargos no Ministério do Esporte e lançou-se para deputado federal. Declarou ter pouco mais de R$ 463 mil em bens. Conseguiu 106.991 votos, foi o 22º mais votado e entrou pelo coeficiente eleitoral. Substitui na Câmara dos Deputados a correligionária Manuela D’Ávila, que lançou-se para deputada estadual e foi a mais votada do Rio Grande do Sul. 

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