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A vida de uma campeã olímpica: Rafaela Silva luta para não ser esquecida

 NACHO DOCE/REUTERS
O sorriso de Rafaela um dia após a conquista do ouro; judoca se preocupa com o futuro Imagem: NACHO DOCE/REUTERS

Gustavo Franceschini

Do UOL, em São Paulo

30/10/2016 06h00

Rafaela Silva coroou quase duas décadas de trabalho com uma medalha de ouro. A história da menina que nasceu na Cidade de Deus e venceu o preconceito para ser campeã encantou durante a Olimpíada do Rio, mas e depois? Se há dois meses a judoca atingiu o topo do mundo com a maior conquista da carreira, hoje o objetivo é manter o ritmo para não ser esquecida.

“A gente viu que a Sarinha [Sarah Menezes] foi campeã em Londres e agora em 2016 ninguém falou, só criticaram 2014 e 2015 dela pelos resultados. O nosso objetivo é que o trabalho não seja esquecido. A gente quer ser lembrada para o resto da vida”, disse Rafaela Silva, em entrevista exclusiva ao UOL Esporte.

A preocupação de Rafaela, ouro na categoria até 57 kg, reflete um pouco do que é o esporte olímpico no país. Os investimentos públicos no setor estão sendo reavaliados, alguns atletas enfrentam problemas com suas confederações e o espaço na mídia já é bem menor para todos. Ela ainda é uma exceção. Nos últimos dois meses, viu sua vida virar de cabeça para baixo com a conquista. 

Rafaela frequentou um sem número de programas de TV, visitou patrocinadores repetidas vezes e deu a primeira palestra da vida. Curtiu merecidas férias, mas quando voltou aos tatames pôde sentir que é cada vez mais um exemplo para os outros. Na entrevista que você lê a seguir, a campeã olímpica relembra o turbilhão que foi a sua vida nos dois meses após o ouro e conta como foi transformada em referência para um menino que havia acabado de perder um amigo para a violência carioca. 

Relação com a namorada foi exposta. Ela tinha medo de violência

Foi bem complicado no início. Eu tomei um susto com tanta mensagem e comentário. Sobre a relação todos os meus amigos sabiam, só não era muito exposto por conta de violência que a gente vê em qualquer lugar. Você sempre ouve de um casal gay que passou na rua e foi parar no hospital. A gente não ficava postando, fazendo certas coisas, mas todos os nossos amigos sabiam. Para a gente não foi muito diferente.

Nota da Redação: Rafaela namora Thamara Cézar há cerca de dois anos e a relação tornou-se pública após o ouro conquistado pela judoca.

Depois do ouro, passou a ser parada nas ruas

Acho que muda bastante porque antes eu andava na rua à vontade e agora não tenho toda essa liberdade. Onde eu passo é foto, as pessoas falando que eu sirvo de inspiração para os filhos, que os filhos entraram em algum esporte por minha causa. Está bem diferente.

Volta aos treinos foi adiada pelos compromissos

Atrasou bastante. Até então eu ia parar uma semana. Ia participar do Grand Slam de Abu Dhabi [realizado no último fim de semana], mas não consegui voltar a treinar. Tinha muito compromisso, um em cima do outro. Sentei para conversar com o Ney Wilson [gestor de alto rendimento da CBJ]. Ele falou que eu tinha de aproveitar esse momento, porque a gente sabe que essa medalha não vai durar para a vida inteira. E aí fui voltando aos poucos.

Sarah sofreu pós-ouro por ter parado. Como ela vai fazer?

Ficar dois anos sem lutar é bem complicado. Não só a Sarinha, mas alguns atletas que ficaram dois anos parados nem conseguiram classificar, como o coreano que era rival do Leandro [Guilheiro]. O Leandro mesmo teve muita dificuldade no início. É ruim ficar muito tempo sem competir

N.R.: Sarah Menezes foi ouro em Londres e foi liberada para competir em menor intensidade nos dois anos seguintes à medalha, mas não conseguiu voltar ao ritmo de treinos e saiu do Rio de Janeiro sem medalha. 

Objetivo é não ser esquecida depois do ouro

A gente viu que a Sarinha foi campeã em Londres e agora em 2016 ninguém falou, só criticaram 2014 e 2015 dela pelos resultados. O nosso objetivo é que o trabalho não seja esquecido. A gente quer ser lembrada para o resto da vida.

Agora campeã olímpica, Rafaela deu a primeira palestra

Ainda bem que não fui sozinha. Era uma palestra do Flávio [Canto, fundador do Instituto Reação e uma espécie de mentor e empresário de Rafaela] e o pessoal me chamou em cima da hora. Ele colocou um vídeo da minha derrota em Londres e deixou 20 minutos para eu contar a minha história. Eu já estou acostumada. O que eu mais falo é da minha trajetória. O que as pessoas mais falam é que eu sou da comunidade, sou negra e venci na vida.

Morte no tráfico ou a vida como a de Rafaela? 

Eu esperei 19 anos por essa medalha. As pessoas pensam. Ela pode achar que treinar 19 anos é muito mais difícil que começar na rua, pegar arma e vender droga e ter dinheiro para gastar. Isso é bem mais fácil que trabalhar 19 anos. Muitas crianças começaram junto comigo e abandonaram. Um primo nosso começou a treinar e depois foi para o tráfico. Foi preso. Elas também têm escolhas. Mês passado a Nell Salgado [psicóloga que ajudou Rafaela na preparação] estava dando um coaching para crianças da equipe mais jovem. Tinha um menino que morreu. Ele tinha uns 13 anos e levaram ele para o Reação. Sumiu duas semanas e foi assassinado. E tinha um amigo dele que falou para coach: ‘Esse vai ser meu futuro. Eu fazia as mesmas coisas que ele’. Ela usou o meu exemplo. Por que ele não pode seguir meu caminho e não o do amigo.

Como vê o futuro do esporte olímpico?

Para os atletas que foram medalhistas vai ser difícil, mas não impossível. A gente viu alguns patrocínios que estão em processo de renovação, mas muitos projetos não vão renovar. Tem o Bolsa Pódio que ajudava bastante não só em dinheiro, mas com uma equipe multidisciplinar, viagem, quimono... E até agora ninguém falou nada. Geralmente a essa altura já mandavam a lista de documentos para a renovação. Tem atleta que não tem patrocínio pessoal.

História fez Rafaela ser chamada para atos políticos. Ela recusou

Me chamaram pra coisa de política, mas eu procuro não me envolver muito. Eu não tenho muito por que criticar. Se eu for pega falando mal do Brasil não vai ser bom para a minha imagem. Em relação a incentivar as crianças esse é nosso objetivo, nosso legado. Se a gente não deixar um bom legado a gente tá tirando vaga de outras pessoas. Pra essa parte é o que a gente realmente procura.

Como ajudar as crianças?

A minha irmã mais para frente quer abrir um projeto na Cidade de Deus separado do Instituto Reação para ajudar a comunidade, porque a gente sabe o outro lado da moeda. A gente não tinha um sonho, não almejava nada. A gente só queria ficar brincando ali na rua, perdia a hora da escola, arrumava briga.

Cedeu quimonos para fazer faixas brancas para jovens do Reação

Eles pediram alguns quimonos meus que seriam cortados e transformados em faixa branca. Dei três quimonos brancos. É uma campanha bem bacana que agora foi para redes sociais. O que eles querem é mostrar a parte da renovação. Uma criancinha vai ter uma faixa que é feita do meu quimono. Esse é o mais bacana da campanha.

N. R.: A “reciclagem” do quimono de Rafaela Silva é uma ação da Vanish, patrocinadora da judoca.

 

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