Topo

Esporte

A "escalada" que levou o surfe ao extremo em ondas que podem superar 30 m

Reprodução Instagram
Maya Gabeira naquela que pode ser a maior onda da história Imagem: Reprodução Instagram

Do UOL, em São Paulo

24/01/2018 04h00

Ninguém surfa uma onda de mais de 20 metros do dia para a noite. As impressionantes imagens que rodaram o mundo na última semana na praia portuguesa de Nazaré, com a brasileira Maya Gabeira e o português Hugo Vau (veja abaixo em onda que pode ter chegado a 35 metros, segundo cálculos iniciais) surfando massas de água que podem entrar para o Guinness Book, só foram possíveis graças ao empenho de desbravadores que levaram o esporte ao extremo.

Dos tempos dos pranchões ao desenvolvimento do tow-in (surfe com ajuda de jet-skis), veja como o surfe de ondas gigantes hoje se tornou uma modalidade reconhecida e que impressiona a todos pela coragem e pelos limites ultrapassados a cada grande ondulação que atinge os principais "picos" do mundo.

 

  • Eddie Aikau surfa Waimea Bay durante a década de 1960. Foto: Reprodução

    O desbravamento no Havaí

    Embora não haja um marco inicial oficial para o surfe em ondas gigantes, o desbravamento de Waimea Bay a partir de 1957 ganha grande relevância pela "conquista" de uma onda que até hoje é considerada ícone dentro da modalidade. Neste período, se destacou o nome de Greg Noll, presente na sessão de surfe com ondulações que chegavam aos 30 pés (cerca de 9 metros). O sufista, que ganhou o apelido de "Da Bull", ainda ficou marcado na história do esporte por uma controversa onda que teria surfado em Makaha. A Enciclopédia do Surfe registra a onda como de 35 pés (cerca de 10,5 metros), mas há contestações de que o tamanho era ainda maior. A falta de vídeo ajuda a manter a polêmica sobre aquela que é considerada a maior já surfada em muitos anos.

  • Eddie Aikau realizado em 2009 em Waimea Bay. Foto: Scott Soens/Divulgação

    A criação do torneio Eddie Aikau em Waimea

    Desenvolvido ao longo dos anos seguintes por diversos surfistas, principalmente no Havaí, o surfe de ondas gigantes chegou a um outro patamar com a criação na década de 1980 do campeonato em homenagem a Eddie Aikau, ícone do esporte que desapareceu no mar em 1978 ao tentar ajudar tripulantes que o acompanhavam em uma travessia do Havaí para o Taiti. Disputado apenas quando as ondas em Waimea Bay ultrapassam os 20 pés (6 metros), o campeonato foi realizado apenas nove vezes na história, mas deu ao ?surfe extremo? uma competitividade antes inexistente. Os convidados dividem o pico em um clima de amizade, mas que também reservou momentos históricos como a edição de 1987, vencida em ondas de até 10 metros pelo irmão de Eddie, Clyde Aikau.

  • Brasileiro Rodrigo Resende em onda surfada em Mavericks. Foto: Divulgação

    A fria, perigosa e desafiante Mavericks

    Se o Havaí por anos protagonizou o desenvolvimento do surfe extremo, na década de 1990 uma onda localizada em Half Moon Bay, na Califórnia, passou a concorrer em importância com Waimea. Surfada de forma solitária por seu desbravador Jeff Clark por mais de 10 anos, Mavericks ganhou notoriedade principalmente em dezembro de 1994, quando diversos surfistas viajaram para o local e aproveitaram uma ondulação de 30 pés (cerca de 10 metros). Extrema, traiçoeira e perigosa, principalmente pelas cavernas de pedras em seu fundo, ela vitimou neste fatídico dia o havaiano Mark Foo, um dos mais renomados "big riders" da época. A morte de Foo serviu como alerta para o desafio que Mavericks representava, mas a exploração do pico só se intensificou nos anos seguintes. O desenvolvimento do tow-in fez com que ondulações enormes fossem surfadas no local, como a da última semana com registro de ondas de até 60 pés (cerca de 20 metros).

  • Carlos Burle durante sessão de surfe em Jaws. Foto: Divulgação/Midiabacana

    Jaws e o tow-in

    Foram nas ondas de Jaws, pico localizado na ilha havaiana de Maui, que o desenvolvimento do tow-in mudou para sempre a história do surfe extremo. Em vez de pranchas enormes, um pequeno suporte que mais lembra equipamentos de "wakeboard" entrou em cena e permitiu maior mobilidade para que surfistas, rebocados para a onda em alta velocidade por jet-skis, pudessem surfar ondas impossíveis de serem "dropadas" na remada. Neste período, Laird Hamilton se tornou célebre por explorar ondas de todo o mundo nesta modalidade, tornando-se clássica a sessão em Teahupoo, no Taiti. Mas foi em Jaws que ondas cada vez maiores, com cerca de 60 pés (cerca de 20 metros), passaram a ser surfadas com grande frequência. E em algumas ocasiões especiais até na remada, como na incrível onda do brasileiro Pedro Calado em 2016.

  • Maya Gabeira foi pentacampeão do prêmio oferecido a maior onda surfada. Foto: Divulgação

    O prêmio à caça por ondas gigantes

    A exploração de ondas gigantes em diversas partes do mundo ganhou um incentivo considerável com a criação nos anos 2000 do XXL Billabong, uma espécie de Oscar da modalidade. Além da premiação em dinheiro, o troféu levou prestígio e reconhecimento aos "big riders" e impulsionou a caça por "ondas gigantes" ao longo de todo o ano. Grudados em previsões, muitos surfistas viraram nômades patrocinados em busca do "pico" perfeito para cada ondulação. Em 2001, Carlos Burle fez história no prêmio com a massa de água de 22,6m em Mavericks, considerada então a maior onda já surfada. No feminino, Maya Gabeira ganhou por cinco vezes a premiação e está mais uma vez no páreo com a última sessão em Nazaré.

  • Carlos Burle durante campeonato do Big World Tour na África do Sul. Foto: Howard Burditt/Reuters

    A criação do circuito em ondas gigantes

    Era só uma questão de organizar. Com surfistas de sobra e dezenas de "picos" extemos já explorados, a criação do circuito mundial de ondas gigantes (Big Wave Tour), em 2009, aconteceu naturalmente diante de dezenas de provas da modalidade disputadas em todo o mundo. Entre as que marcaram época, o Todos os Santos Big Wave Championship, realizado no México, mereceu destaque e determinou aquele que é considerado o primeiro campeão mundial de ondas gigantes, Carlos Burle, em 1998. Na remada, o brasileiro pegou uma onda de 35 pés (cerca de 12 metros) e ficou com o título, apesar do americano Taylon Knox ter pego a maior do dia. Embora ainda batalhe pelo prestígio do circuito mundial de surfe, e sofra com a dificuldade de casar as datas previstas com ondulações ideias para cada pico, o Big Wave Tour significou a consolidação da modalidade como esporte competitivo. A atual temporada conta com eventos em locais como Mavericks e Nazaré.

  • Maior onda já surfada, segundo cálculos oficiais, foi a de Garrett McNamara em 2011. Foto: Nazaré Qualifica/Divulgação

    Nazaré e os consecutivos recordes quebrados

    O cenário de um farol com uma massa de água gigante ao fundo já virou figurinha carimbada nas discussões sobre as maiores ondas já surfadas. O "pico" localizada em Nazaré, em Portugal, entrou de vez no roteiro dos ?caçadores? de ondulação nos últimos anos e atualmente está no topo da lista da modalidade. Os 23,8 m de onda surfados pelo norte-americano Garrett McNamara em 2011 ainda, em contagem oficial, formam o recorde mundial. Mas a brasileira Maya Gabeira e o português Hugo Vau podem ter ultrapassado a marca registrada no Guinness Book na ondulação que atingiu Nazaré na última semana. Será que a onda surfada por Hugo Vau chegará aos 35 metros? As imagens da "bomba", presenciada por diversos surfistas que se impressionaram com o que viram, não favorecem uma contagem que possa comprovar este cálculo feito por quem estava no local.

Mais Esporte