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Em São Paulo, ninjas modernos aprendem a matar para não ter que matar

Adriano Wilkson/UOL
Sensei Fernando Cardoso ensina técnica ninja a um aluno faixa preta Imagem: Adriano Wilkson/UOL

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

30/09/2016 06h00

Estou 15 minutos adiantado para a entrevista. Aperto a campainha do dojo (lugar de iluminação, em japonês) e pergunto por Fernando. “Você marcou hora com ele?”, responde uma voz masculina no interfone. Antes que eu possa dizer qualquer coisa, aquele que é considerado um dos maiores ninjas brasileiros caminha sorrateiramente pelas minhas costas, toca meu ombro direito e aparece sorrindo sobre o esquerdo.

“Oi, eu sou Fernando, vamos tomar um café?”

Durante as próximas três horas, vamos conversar sobre as dores, as delícias e as utilidades de ser um ninja de verdade em uma cidade como São Paulo no século 21. “A primeira coisa é proteger o clã, o dojo”, me explica ele. “Percebeu quando você chegou? Você estava adiantado, mas eu já sabia, eu senti. Vi que era você e te cumprimentei. Mas se fosse outra pessoa com outros objetivos, quem sabe o que poderia ter acontecido...”

E fez menção de imobilizar meu braço.

De fato, nos dois dias em que pratiquei ninjutsu, a arte dos ninjas, com Fernando Cardoso e seus discípulos, eles me mostraram dezenas de maneiras diferentes de quebrar os ossos do meu corpo em vários pedaços sem que eu sequer percebesse o que estava acontecendo, mas mesmo assim eu gostei deles.

Adriano Wilkson/UOL
Imagem: Adriano Wilkson/UOL

Por exemplo, uma vez estávamos ajoelhados no chão emborrachado do dojo, abençoados por um deus da guerra japonês e cercados de réplicas de espadas samurais. Havia cinco ninjas ali, vestidos com seus quimonos pretos nos quais se liam as palavras Divino Guerreiro em japonês. Ninguém usava os icônicos disfarces da cabeça, reservado a ocasiões especiais, o que obviamente era uma pequena decepção.

Eu vestia uma camiseta de corrida, uma calça de moletom e meias soquetes, a roupa mais ninja que encontrei no guarda-roupa.

Então fiz a Fernando a pergunta que qualquer pessoa gostaria de fazer a um ninja.

“É verdade que vocês conseguem matar uma pessoa com apenas um toque?”

Adriano Wilkson/UOL
Imagem: Adriano Wilkson/UOL

“Eu nunca matei ninguém”, se defendeu Fernando, sorrindo. Até porque se ele fosse treinar isso com os alunos, em quanto tempo não haveria mais alunos? “Mas sim, esse é um conhecimento que temos ao alcançar um certo nível”, ele admitiu. “Meu sensei sempre diz: ‘É preciso aprender a matar para não ter que matar.’ A arte do ninja é a preservação da vida.”

“Mas em que parte do corpo é isso? Peito, pescoço, barriga?”, insisti. “Tem várias”, respondeu ele, mudando de assunto. “Faz parte do mistério ninja.”

Em outra ocasião, eu tentava sem sucesso imobilizar um ninja faixa preta. Em um dos movimentos, deixei meu pescoço desguarnecido. Ele então aproximou a mão fazendo um movimento de guilhotina em direção a ele. “Aí você já teria me matado”, brinquei.

“Matado não”, o ninja me corrigiu. “Mas certamente apagado.” Fiz cara de surpreso: “Sério?”

“Acontece, mas é rápido. Você apagaria por no máximo 15 segundos.”

Arquivo Pessoal
Hatsumi Masaaki, herdeiro de um clã ninja, entrega medalha a seu aluno brasileiro; o ninja japonês também é torcedor de futebol Imagem: Arquivo Pessoal

“Algumas técnicas que aprendemos aqui podem ser fatais, porque foram feitas para serem fatais no Japão feudal”, ensina Fernando Cardoso, um fisioterapeuta de 39 anos que é aluno do japonês Hatsumi Masaaki, considerado o último ninja tradicional vivo. “Mas também aprendemos a ter a sabedoria de usar esse conhecimento apenas para o bem.”

Espiões entraram na cultura pop e viraram vocábulo versátil no Brasil

Na zona sul de São Paulo, em uma sala em cima de um fast food japonês na qual é proibido entrar de sapatos, um punhado de ninjas e aspirantes treinam semanalmente para aperfeiçoar técnicas inventadas há mais de cinco séculos por espiões japoneses.

Os ninjas, diz a História, eram agentes secretos especializados em espionagem, sabotagem, técnicas de combate não-ortodoxas, infiltração e assassinato. Embora soubessem usar espadas, venenos, bombas e as famosas estrelas ninjas, eram preparados para usar o próprio corpo como principal arma. Foram soldados importantes nas guerras feudais entre clãs japoneses e perderam relevância à medida que as batalhas foram se tornando mais tecnológicas.

Não se sabe ao certo quando o vocábulo ninja entrou na língua portuguesa com o significado de “coisa ou pessoa com qualidade extraordinária, surpreendente, incomum”, mas olhando em perspectiva, faz sentido.

Sem guerras para lutar, os ninjas brasileiros usam suas habilidades para coisas mais mundanas como evitar ser assaltado ou se esconder de pessoas que eles não querem encontrar na rua. “Se uma confusão está acontecendo perto de você, você precisa saber o caminho mais curto para longe dela”, me disse um ninja iniciante.

“Mas se o confronto for inevitável, você também precisa saber resolver a situação com a menor quantidade possível de dano a você e ao outro”, ensina o sensei Fernando. “Grandes poderes geram grandes responsabilidades.”

Eles estimam que existam entre mil e 1,5 mil praticantes de ninjutsu no país, muitos deles formados por Fernando, que está nessa há 28 anos e é um dos percussores da arte no Brasil. Na parede do dojo, ele exibe orgulhoso fotos com seu mestre e com o ator Takumi Tsutsui, que interpretou o seriado Jiraya, o Incrível Ninja, hit dos anos 80.

Arquivo Pessoal
Fernando Cardoso e o ator Takumi Tsutsui, protagonista da série Jiraya, o incrível ninja Imagem: Arquivo Pessoal

E são incontáveis os personagens que fizeram os ninjas se tornarem uma verdadeira instituição na cultura pop. Um dia, um rapaz chegou no dojo se apresentando como Sub-zero, lutador do jogo Mortal Kombat, e querendo aprender técnicas para se tornar um ninja melhor.

“Tem muito lunático que aparece aqui”, disse Fernando.

Mas existem objetivos mais nobres também. Junior Ribeiro passa o dia inteiro operando na Bolsa de Valores e à noite veste seu quimono preto e sua faixa branca para estudar o caminho do ninja. Há um ano ele estava procurando uma arte marcial que não fosse competitiva, e como o ninjutsu não tem torneios ou lutas esportivas, resolveu dar uma chance.

“Foi paixão à primeira aula”, ele garante. O ninja aprendiz afirma que a disciplina e a filosofia por trás da sabedoria ninja o têm ajudado a combater a depressão e o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, doenças que o acompanham há anos. “Depois que comecei aqui, venho diminuindo gradativamente o uso de remédios e pretendo um dia parar de tomar completamente.”

“Nós aprendemos a matar, porque antigamente o ninja precisava disso para sobreviver. Hoje nosso maior objetivo é não apenas sobreviver, mas viver e viver bem. Aqui todo mundo está buscando uma qualidade de vida melhor”, diz o mais antigo ninja brasileiro, sem tirar o sorriso do rosto. “Estar sempre sorrindo, para um ninja, é uma das coisas mais importantes.”

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