Esporte

Como o candidato Trump se meteu e mudou a história do UFC

Reprodução
Donald Trump se envolveu com eventos e projetos de MMA em algumas oportunidades Imagem: Reprodução

Bruno Freitas

Do UOL Esporte, em São Paulo

01/11/2016 06h00

Em sua controversa trajetória de ascensão empresarial, Donald Trump cruzou o caminho do UFC em um momento crucial da história do MMA. O candidato republicano à presidência dos Estados Unidos direcionou seus métodos excêntricos de autopromoção ao mundo dos octógonos no começo deste século, quando o esporte lutava para se livrar da demonização social dos anos de "vale tudo". Ao se arriscar em uma parceria comercial com a organização, em 2001, o bilionário rival de Hillary Clinton deu sua colaboração para mudar a narrativa sobre as artes marciais mistas.  

Em julho passado, durante a convenção que selou a indicação de Trump como candidato republicano nas eleições americanas, o presidente do UFC fez um discurso entusiasmado sobre a importância do político para a história do MMA. Dana White assumiu a organização no começo de 2001, junto com os irmãos Lorenzo e Frank Fertitta. Na época, o esporte havia enfrentado uma campanha pesada sobre sua legitimidade ética e sobrevivia quase no submundo. Neste momento, quando cidades importantes do país recusavam abrigar lutas, o empresário abriu as portas de seu cassino em Atlantic City para as duas primeiras edições do evento em seu recomeço no profissionalismo.

"O UFC era basicamente considerado um esporte sangrento. Ninguém levava a gente a sério. Ninguém, exceto Donald Trump. Donald foi o primeiro cara a reconhecer o potencial que nós víamos no UFC e nos encorajou a construir o nosso negócio", disse Dana White na convenção republicana. "Donald apoiou o UFC antes que fosse popular, antes que fosse um negócio lucrativo, e eu sempre serei grato por ficar ao nosso lado naqueles primeiros dias", acrescentou.

As edições 30 e 31 do UFC no cassino Trump Taj Mahal são consideradas emblemáticas na transição do “vale tudo” para as artes marciais mistas. Foram as primeiras em um ambiente de profissionalismo, que coincidiram com a unificação das regras do esporte. Em ambos os eventos, o dono da casa prestigiou as lutas na primeira fila junto ao octógono e foi aos vestiários interagir com os atletas.

Reprodução
Trump organizou edições do Affliction e levou Emilianenko Fedor aos EUA Imagem: Reprodução

"Antes não tinha a magnitude do Pride, o tamanho que o esporte tinha no Japão. A produção não era do mesmo nível. Até mesmo Atlantic City, que era considerada uma Las Vegas pé-sujo, de segunda ou terceira categoria", contou o brasileiro Ricardo "Cachorrão" Almeida, que participou do UFC 31. "Mas ali a gente comentava nos bastidores sobre a felicidade de representar o jiu-jítsu num evento daqueles", concluiu.

"Até ali eram sempre eventos em hotéis pequenos. Eu lutei em New Orleans contra o Mark Coleman era uma arena de médio porte. A gente ficava em hotéis tipo o Holiday Inn, ou em hotéis menores, de orçamento baixo. Aí veio o Trump e abriu o Taj Mahal para a gente. Falei: 'poxa, vou lutar num hotel grande'. A gente estava acostumado a ver o hotel em grandes lutas de boxe. Realmente mudou tudo", relembrou Pedro Rizzo, brasileiro que lutou nessas duas edições de Atlantic City, no começo de 2001.

Segundo Rizzo, as circunstâncias que marcaram as edições 30 e 31 pavimentaram o caminho de afirmação do MMA. "Quando o Trump abriu as portas do Taj Mahal a gente viu que era possível. Chegamos onde o UFC tinha que chegar. Essa abertura de portas da parte dele ajudou a gente a chegar a muitos estados. Dali a gente chegou em Nevada (Las Vegas) e nos Estados Unidos inteiro", emendou o ex-lutador.

O envolvimento com as duas edições de 2001 rendeu a Trump a indicação ao rol da fama do MMA no Estado de New Jersey. Anos mais tarde, o empresário voltou a dar as caras no mundo das lutas, mas desta vez como um desafiante ao já estabelecido império UFC. Em 2008, o faro do bilionário para oportunidades o fez investir numa franquia de combates criada pela marca Affliction, em evento que surgiu como rival da organização mais famosa. A iniciativa durou só três edições, mas se gabou de promover a estreia em território americano do russo Emilianenko Fedor – possivelmente o maior ídolo do MMA fora da "família UFC".

E ele ainda se meteu com Mike Tyson e a NFL

Reprodução
Imagem: Reprodução

Muito antes do envolvimento com o MMA, Donald Trump viveu sua maior jogada no universo do esporte no começo dos anos 80. O empresário do ramo imobiliário adquiriu o New Jersey Generals, time de futebol americano de uma liga alternativa. Em poucos anos, o campeonato atingiu o sucesso, usando o recesso de atividade da poderosa NFL, principalmente durante os meses de primavera. No entanto, duas decisões que partiram da cabeça do bilionário arruinaram um negócio que caminhava bem.  

Animado com a média de público e os bons contratos de TV, Trump persuadiu outros donos de time da "United States Footbal League" a passar o calendário de 1986 para o outono, para bater de frente com a rival mais famosa. Foi o começo do fim do campeonato. Em seguida, o dono dos Generals liderou uma ofensiva contra a NFL, movendo processo por cartel e concorrência desleal no recrutamento de jogadores. A Justiça deu ganho de causa à USFL após uma longa disputa, mas com multa simbólica de apenas US$ 3. Para piorar, o desgaste dos tribunais consumiu as finanças e desgastou de vez a liga, que durou apenas três anos.

Apesar do fracasso de Trump com a liga alternativa de futebol americano, analistas locais consideram que a aventura esportiva foi decisiva na construção da imagem pública do empresário, finalmente projetada em horizonte nacional. "Eu era conhecido, mas não muito conhecido. Com impostos, diria que perdi US$ 3 milhões (no negócio dos Generals). E ganhei um bilhão de dólares de publicidade gratuita", afirmou o republicano sobre o episódio, em entrevista recente à agência AP.

Na comunidade dos ringues, Trump tem sido há anos figurinha fácil dos eventos de luta livre pastelão da WWE, inclusive participando de rocambolescos esquetes no ringue. O empresário ainda abrigou diversos eventos de boxe em seus hotéis de Atlantic City e desenvolveu uma duradora relação de amizade com Mike Tyson (recebeu um famoso combate do ídolo contra Michael Spinks, em 1988). O bilionário chegou a ser consultor financeiro do pugilista e, na época da prisão do “Homem de Ferro” por estupro, saiu em defesa do amigo. O excêntrico homem de negócios fez campanha pública para tirar o ex-campeão dos pesados da cadeia, sugerindo a autoridades que receitas das futuras lutas (em seus cassinos, claro) servissem para compensar a vítima e cobrir despesas de Justiça. O empreendedor prometia movimentar uma cifra entre US$ 15 e US$ 30 milhões, mas a promotoria do Estado de Indiana recusou a ideia com veemência: "essa gente parece pensar que pode comprar sua saída de qualquer situação". 

ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Ocorreu um erro ao carregar os comentários.

Por favor, tente novamente mais tarde.

{{comments.total}} Comentário

{{comments.total}} Comentários

Seja o primeiro a comentar

{{subtitle}}

Essa discussão está encerrada

Não é possivel enviar novos comentários.

{{ user.alternativeText }}
Avaliar:
 

* Ao comentar você concorda com os termos de uso. Os comentários não representam a opinião do portal, a responsabilidade é do autor da mensagem. Leia os termos de uso

Escolha do editor

{{ user.alternativeText }}
Escolha do editor

Facebook Messenger

Receba as principais notícias do dia. É de graça!

Mais Esporte

Topo