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Primeiro cinturão do Brasil no UFC completa 15 anos: "Era outra realidade"

Susumu Nagao/Zuffa LLC/Getty
Murilo Bustamante foi o primeiro brasileiro a ter um cinturão do UFC Imagem: Susumu Nagao/Zuffa LLC/Getty

Guilherme Dorini

Do UOL, em São Paulo

11/01/2017 06h00

A relação do Brasil com cinturões do UFC é longa e começou muito antes de Anderson Silva ou Vitor Belfort - dois dos maiores nomes do esporte no país. Você pode não se lembrar dele, mas o primeiro brasileiro a conquistar uma cinta dourada na organização foi o líder da Brazilian Top Team Murilo Bustamante, em 2002. Nesta quarta-feira (11), seu feito completa 15 anos e o UOL Esporte conversou com o ex-campeão para relembrar os momentos marcantes daquela época e o que mudou de lá para cá no MMA.

Reprodução
Bustamante levou o cinturão no UFC 35 Imagem: Reprodução

Faixa-preta de jiu-jitsu de Carlson Gracie, Bustamante começou nas artes marciais mistas quando os pesos ainda não eram divididos, mas depois optou pelos meio-pesados (até 93 kg) e conseguiu embalar oito lutas de invencibilidade (sete vitórias e um empate) antes de encarar seu primeiro grande evento. Em sua segunda luta pelo UFC, o brasileiro teve pela frente o lendário Chuck Liddell, que venceu por decisão unânime e forçou uma mudança que transformaria os rumos da carreira de Murilo.

Com a derrota, o brasileiro decidiu descer de categoria e, nos médios (até 84 kg), ganhou logo de cara a oportunidade de disputar o cinturão da divisão contra Dave Menne, no UFC 35, disputado em Uncasville, Connecticut (EUA). Apesar de ser conhecido como um lutador de jiu-jitsu de classe mundial, Bustamante precisou saber usar bem sua base sólida no boxe para nocautear o norte-americano e conquistar, pela primeira vez, um cinturão para o Brasil.

Na época, no entanto, ser campeão do UFC não representava tanto quanto representa hoje. Assim, Bustamante fez apenas uma defesa de cinturão bem-sucedida contra Matt Lindland, o finalizando com uma guilhotina. Depois, em 2003, devido a razões financeiras, deixou a organização para assinar com o Pride, um dos maiores eventos da época. No Japão, desceu mais uma categoria e quase foi campeão dos meio-médios (até 77 kg), sendo derrotado na final para Dan Henderson.

Vale lembrar que os cinturões de categorias do UFC foram introduzidos na organização anos depois de sua criação. Antes de Bustamante, o Brasil teve outros três campeões de torneios - Royce Gracie, Marco Ruas e Vitor Belfort -, mas nenhum deles ostentou uma cinta dourada na época. 

Confira o bate-papo do UOL Esporte com Murilo Bustamante:

Antes do cinturão, você enfrentou Chuck Liddell no meio-pesado. Como foi essa luta?

Cara, essa luta foi muito dura. Ele era um cara que batia muito duro, difícil de colocar para baixo... Eu ainda estava quase um ano sem lutar. Não dá para dizer que foi meu primeiro grande desafio, porque já tinha feito lutas duríssimas em minha carreira, mas foi, sim, meu primeiro grande evento. Foi no Mandalay Bay (Las Vegas), casa cheia...

Susumu Nagao/Divulgação
Brasileiro e Liddell duelaram no UFC 33 Imagem: Susumu Nagao/Divulgação

E você perdeu por decisão unânime...

Na verdade, foi uma luta muito polêmica... Eu, inclusive, achei que tinha ganhado. Era o primeiro evento dos irmãos Fertitta. Depois do combate, eles foram até o vestiário com o Dana White me pedir desculpas pelo resultado, para falar que não tinha o que fazer, que a culpa não era deles... Foi até engraçado, os americanos vaiaram o resultado e ficaram do meu lado.

Como foi a decisão de descer de categoria?

Depois da luta contra o Liddell, no vestiário, eles (Dana e Fertitta) me deram duas opções. A primeira era fazer uma revanche com o Chuck. A outra era descer para os médios e já ir direto para uma disputa de cinturão, que, matematicamente, era a mais rápida para ser campeão, já que na categoria de cima eu teria que vencer e ainda enfrentar Tito Ortiz.

Você é conhecido pelo jiu-jitsu afiado, mas foi campeão nocauteando. Acha que surpreendeu o rival?

Susumu Nagao/Zuffa LLC/Getty
Bustamante nocauteou Dave Menne para ficar com cinturão do UFC Imagem: Susumu Nagao/Zuffa LLC/Getty

Meu boxe estava muito afiado e testado naquela época. Se ele se surpreendeu foi porque não fez a lição de casa. Tinha acabado de fazer três rounds trocando com Liddell, não é fácil aguentar tudo isso contra ele... Eu estava muito treinado, confiante, bem com o peso, levinho... Contra o Dave Menne, variei muito: batia, agarrava, sempre deixava ele sob pressão. Ele ficou confuso com isso, não sabia o que fazer, principalmente depois que acertei aquele direto. Fiz o que sempre pensei: tinha que ser imprevisível.

Em 2002, o MMA ainda não era tão reconhecido no Brasil. Lembra da repercussão da conquista?

Saíram algumas notas, mas nenhuma reportagem grande. Mas também não tinha canal só canal de luta, sites que acompanhavam com frequência. Era outra realidade, não dá para comparar a visibilidade que eles ganham hoje. O esporte cresceu também, muito mais gente envolvida.

Reproduēćo
Bustamante com cinturćo do UFC Imagem: Reproduēćo

Hoje, um cinturão do UFC é capaz de mudar a vida do campeão. Naquela época, mudou alguma coisa para você?

Cara, como eu estava te falando.... Recebi bons prêmios no UFC, mas não dá para comparar as quantias. Hoje é outra realidade, outro volume de dinheiro, o mercado está em outro patamar. Hoje tem muito mais empresas envolvidas, pay-per-view... Não dá para comparar, mas também não posso me queixar. Não me deixou rico, mas sempre consegui aproveitar da melhor maneira possível.

Muitos atletas ainda reclamam dos pagamentos do UFC. Como era na sua época? Dava para viver do esporte profissional?

Mesmo para o atleta iniciante é muito difícil hoje em dia. Alguns têm a impressão de que quando chega ao UFC não precisa mais trabalhar, mas é muito difícil. O gasto do atleta é grande, com alimentação, preparo... Hoje, os campeões conseguem. Na minha época ainda não dava, tanto que nunca parei de dar aula. Optei por isso, mas continuei trabalhando.

Mesmo campeão, você deixou seu cinturão para lutar no Pride. Como foi essa decisão?

Na verdade, não deixei o cinturão. A ideia era renovar o contrato, mas aconteceram algumas coisas e não chegamos a um acordo financeiro. Teve uma hora, bem no final, que o acordo quase saiu, mas, ao final, tive que deixar o UFC de qualquer maneira.

E então você foi para o Pride. Se arrepende dessa decisão?

Tive uma experiência muito boa no Japão, foi excelente, tanto na parte profissional quanto pessoal. Foi muito bom lutar para lá. Com certeza faria mais dinheiro no UFC do que fiz no Japão, mas não sei se trocaria. É muito difícil pensar nisso anos depois.

Você ainda quase foi campeão do Pride. Ficou alguma frustração por não ter conseguido?

Susumu Nagao/Divulgação
Bustamante perdeu final do Pride para Dan Henderson Imagem: Susumu Nagao/Divulgação

Ainda acho que venci aquela luta, muita gente acha (contra Dan Henderson). Os caras lá julgavam como eles queriam, do jeito que interessava para eles. Eu tive mais pressão e só tomei um knockdown no final, mas dominei a luta, bati muito mais. Até os narradores da televisão deram a vitória para mim. No dia, fiquei bem irritado, tanto é que nem voltei para a comemoração do final do evento. Foi uma grande luta, valeu, essas coisas acontecem, não vou ficar chorando mágoa.

Como está sua vida hoje?

Estou cuidando das academias (Brazilian Top Team). Tenho afiliadas no mundo inteiro: no Canadá, EUA, Austrália... são 40 academias no mundo todo. Agora, também estou com uma academia nova, a Fitness Fight Center, que toco ao lado do Chico Salgado. Ele cuida da parte funcional, e a Brazilian Top Team das lutas. Lá você pode fazer diversas atividades, sempre relacionada ao mundo das lutas. Estamos abertos para qualquer pessoa: criança, adultos, veteranos e profissionais.

Reprodução/Instagram
Murilo, sentado no centro, é um dos líderes da Brazilian Top Team Imagem: Reprodução/Instagram

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