MMA

Cyborg e Bate-Estaca querem nocautear cultura do bullying do UFC

Divulgação/Mixer
Jéssica Bate-Estaca se alonga em gravação de programa "Laboratório da Luta" Imagem: Divulgação/Mixer

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

06/06/2017 04h00

Em uma manhã recente a lutadora do UFC Jéssica Andrade, conhecida como “Bate-Estaca”, acordou cedo, se dirigiu a um estúdio de TV onde vestiu óculos futuristas e uma roupa cheia de sensores e, dotada de uma espada invisível, tentou matar robôs gigantes em um jogo de realidade virtual.

Depois correu sobre uma esteira ergométrica com velocidade equivalente à de um carro em segunda marcha enquanto uma máscara media os gases de sua respiração. No mesmo dia, escalou uma parede e distribuiu golpes em bonecos espalhados por um octógono cenográfico.

A carga de estranhos exercícios fez parte da gravação do último episódio de um programa que o canal Combate, em parceria com a produtora brasileira Mixer, exibirá sobre a ciência por trás de um lutador. Os dados recolhidos do corpo da lutadora depois seriam analisados por softwares e cientistas atrás de respostas para a questão: do que é feito um atleta de elite do MMA?

Divulgação/Mixer
Imagem: Divulgação/Mixer

Jéssica, aos 25 anos, está no meio de uma carreira ascendente: há alguns dias lutou pelo cinturão peso palha do UFC, mas após cinco rounds, foi derrotada na decisão dos juízes pela polonesa Joana Jedrzejczyk.

Interrompeu-se assim uma sequência de três vitórias no maior torneio de MMA do mundo, no qual Jéssica, aos 21 anos, foi a primeira brasileira a atuar. Mesmo assim, ela está confiante de ter em breve outra chance de chegar ao topo da categoria.

Entre um exercício e outro, a paranaense da pequena Umuarama relembrou um fantasma de seu passado que voltou a seus pensamentos recentemente: o bullying. Homossexual, baixinha e criada na zona rural de sua cidade, ela se acostumou à perseguição dos colegas de escola, que viam em seu jeito caipira e “masculino” uma forma de diminui-la.

“Eu nunca tive muitos amigos, o pessoal nunca me convidava muito para as coisas”, disse ela. “Entre meus melhores amigos um era do sítio também e o outro era o que todo mundo dizia que era ‘o feio’. A gente era muito apelidado, as pessoas não gostam de quem é diferente.”

Jéssica voltou a pensar nessas coisas depois do que aconteceu com uma de suas grandes parceiras de lutas, a peso pena Cristiane “Cyborg” Justino. Ela se sentiu vítima de uma forma moderna de bullying, o virtual, quando uma lutadora norte-americana gratuitamente a comparou a um personagem de um filme de terror.

Cyberbullying no UFC

Cyborg tinha ido visitar crianças em tratamento contra o câncer e publicou fotos do encontro na internet. Angela Magaña, uma lutadora que não vence um confronto há seis anos e tem se mantido sob os holofotes fazendo provocações a outras lutadoras, republicou a imagem da brasileira ao lado da máscara de “Jigsaw”, o serial killer da franquia blockbuster Jogos Mortais.

Reprodução/Twitter
Imagem: Reprodução/Twitter

“Eu fiquei muito triste quando vi aquilo”, disse Jéssica. “A Cris sempre sofreu com essas piadas por causa da aparência dela. Mulher que luta tem que ouvir um monte de coisa, que é sapatão, que é macho, que devia voltar para cuidar da casa. Já chegou a hora de perceberem que não tem nenhuma graça esse bullying.”

Circulando pelo set de gravação, Kyra Gracie, a primeira mulher do clã mais famoso das artes marciais a se tornar lutadora, se agasalhava contra uma pequena corrente de ar frio e se preparava para apresentar a atração.

Ela disse considerar que Cyborg sempre teve o talento subestimado por não cumprir certos padrões esperados de mulheres. “Ela é a maior de todas, mas nunca recebeu a atenção que merecia”, disse Kyra, que após se aposentar do tatame, se dedica a comentar lutas e apresentar programas de MMA. “Eu vim de uma família machista, sei como é difícil prosperar nesse meio.”

Cyborg sempre ouviu insinuações de que compete dopada – ela foi suspensa por um ano por uso confesso de anabolizante em 2012. Mesmo considerada a maior lutadora de MMA de todos os tempos, a curitibana já ouviu outras coisas desagradáveis sobre seu porte físico, mesmo no UFC.

Heuler Andrey/UOL
Imagem: Heuler Andrey/UOL

Um dia, um comediante e um comentarista de lutas conversavam com Dana White, o presidente do UFC, quando disseram que Cyborg poderia perder peso mais facilmente se “cortasse seu pênis fora”. White apenas riu.

“Quando gente importante no meio fala esse tipo de coisa, acaba incentivando outras pessoas a fazerem o mesmo”, disse ela em uma nota oficial na qual anunciava que tomaria medidas para combater o bullying.

Mas qual o limite do aceitável em um esporte em que a provocação entre lutadores é incentivada como uma forma de atrair a atenção do público?

“Ela passou dos limites”, disse Jéssica Bate-Estaca, que ficou especialmente ofendida por Magaña ter feito piada com uma foto tirada por Cyborg ao lado de pacientes de câncer. A lutadora ainda tem viva a dor da perda de uma tia e de uma avó, vítimas de tumores malignos e agressivos. “Ela não pode brincar com coisas sérias assim.”

Depois da repercussão negativa de seus comentários, Magaña disse que não sabia que Cyborg estava em um hospital com pacientes de câncer, e que lutadores têm que se acostumar com esse tipo de provocação. Mas mesmo assim Jéssica resolveu vingar a honra da amiga do jeito que os lutadores de MMA gostam de fazer: na mão, dentro do octógono.

“É muito fácil ela provocar alguém que não é da categoria dela”, disse Jéssica ao se voluntariar para bater em Maganã. Não seria uma luta esportivamente importante, já que a americana não está entre a melhores atletas da categoria, mas Jéssica gostaria de enfrentá-la para lhe “ensinar uma lição”.

A luta tem poucas possibilidades de acontecer, mas Magaña já sofreu reações por suas palavras. Dias depois de comparar Cyborg a “Jigsaw”, ela recebeu um soco da brasileira em um incidente considerado “sério” e investigado pelo UFC. Mesmo tendo sido vítima da agressão, a valentona acabou saindo como vilã do episódio e foi expulsa da equipe onde treina.

Quem estava no hotel onde tudo aconteceu diz que a americana passou o fim de semana inteiro buscando confusão.

Depois de uma rápida passagem por São Paulo para a gravação do programa “Laboratório da Luta”, Cyborg e Jéssica, que jantaram juntas e conversaram sobre o bullying feito pela rival, acabaram voltando para casa. Cyborg, para a Califórnia, onde treina e dá aulas de MMA. Procurada, ela agradeceu o contato, mas disse que não daria entrevista.

Jéssica pegou um avião ao Rio de Janeiro para descansar e se preparar para o próximo desafio da vida. Depois de perder sua última luta, ela tomou coragem para pedir a namorada, Fernanda, em casamento durante uma entrevista ainda no octógono.

Na plateia, Fernanda fez um coração com as mãos e disse sim. 

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