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Com dinheiro "de Deus" e amor a Maomé, MMA russo chega a SP sonhando alto

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Naskho Galaev, russo que fez a luta da noite com Matheus Mattos, veste camiseta em homenagem a Maomé Imagem: Reprodução

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

10/03/2018 13h32

Funcionários brasileiros cochichavam nos bastidores sobre a origem do dinheiro usado para erguer a primeira edição do Absolute Championship Berkut em São Paulo, na sexta-feira (9). O evento russo contratou lutadores com passagem pelo UFC e montou uma estrutura raramente vista em torneios nacionais.

Canhões de luzes sincronizados, quatro telões acima do octógono, sistema de som completo, aparato médico profissional e bolsas que podem chegar aos cinco dígitos (em dólares) não são itens frequentemente vistos nos eventos do Brasil. Mas os russos não economizaram, sonhando em ganhar popularidade no país considerado por alguns deles “o berço do MMA”.

Realizada no clube Hebraica, em um bairro nobre da capital paulista, o torneio teve pelo menos metade da arquibancada vazia. Marcas de patrocinadores não eram ostensivamente mostradas, nem durante entrevistas, nem durante as lutas em si. Quando os brasileiros perguntavam ao presidente Yaragi Gitaev de onde vinha o dinheiro que bancava o evento, o russo dava sempre a mesma resposta, abrindo um sorriso e apontando o dedo para o alto: “De Deus.”

Naturais da Chechênia, uma região de maioria muçulmana na Rússia, os organizadores do ACB chegaram à sua 82ª edição e hoje já estão entre as cinco maiores promoções de MMA do mundo. Assinaram contrato com o canal Combate, o que vai lhes garantir uma promoção maior entre o público brasileiro.

Junior Neri/Neri Pictures
Imagem: Junior Neri/Neri Pictures

Os russos trouxeram um conceito de MMA diferente a São Paulo: “Menos show, mais luta”, era o lema estampado em faixas que pediam do teto do clube e estampavam o uniforme dos funcionários. Deve ter sido a segunda vez que o Brasil viu um torneio de MMA sem a presença de ring girls, as modelos em trajes curtíssimos que desfilam anunciando os rounds – a primeira foi provavelmente no ano passado, quando o ACB desembarcou no Rio.

A ausência das ring girls tem relação com os princípios religiosos dos chechenos, que, ao serem questionados em entrevista coletiva se um dia abririam uma divisão feminina, negaram veementemente.

O islamismo também esteve presente na Hebraica, um clube judeu, desde a camiseta da academia Berkut, ligada aos donos do evento, que trazia no peito a frase: “Nós amamos o profeta Maomé”. Nashko Galaev, um dos atletas do time, protagonizou a melhor luta da noite (e a mais sangrenta) com o brasileiro Matheus Mattos. Ambos embolsaram um bônus de 10 mil dólares.

Os russos também desencorajam os contratados do ACB a se engajarem em polêmicas na imprensa e provocarem seus adversários antes das lutas. “Não importa se você fala muito ou tem 2 milhões de seguidores no Instagram”, disse o ex-lutador Rick Moreira, conhecido como Rick Monstro. “Eles querem que você vá lá e lute.”

Ao lado de Davi Ramos, lutador do UFC, Rick é o braço dos russos no Brasil.

Na véspera das lutas, Rick cobrou profissionalismo dos atletas brasileiros, que sofreram para bater o peso. Alguns não conseguiram vencer a balança e causaram constrangimento dos organizadores brasileiros diante dos russos. “Eles vêm aqui e dão toda a estrutura que o atleta precisa. O mínimo que eles esperam é que o cara faça a parte dele.”

De fato, todos os atletas e técnicos consultados pela reportagem se disseram muito bem admirados com o profissionalismo dos promotores chechenos. Em torneios brasileiros muitos precisam batalhar para receber o pagamento combinado, às vezes com meses de atraso. Já o ACB costuma pagar seus atletas logo depois dos combates, em dinheiro vivo.

Davi Ramos, que dá aula de lutas a Mairbek Khasiev, o milionário dono do ACB que um dia já se deu ao luxo de recusar um patrocínio da Nike, torce para que a marca caia no gosto dos brasileiros. “Esperamos que no ano que vem fazer até dez eventos no Brasil”, disse ele. “Os russo adoram MMA e estão fazendo um investimento a longo prazo, plantando agora para colher depois.”

A reportagem tentou conversar Yaragi Gitaev, o presidente do ACB, que assistiu ao evento na primeira fila, filmando tudo com o celular. Mas o russo, que disse não falar inglês, chamou um intérprete para informar que estava muito cansado e gentilmente se recusou.

Algumas lutas do ACB 82

Mikhail Kolobegov venceu Thiago Silva por decisão dividida

Daniel Sarafian venceu Carlos Eduardo Cachorrão por decisão unânime

Matheus Mattos venceu Naskho Galaev por decisão majoritária

Rodolfo Vieira venceu Alexander Neufang por nocaute técnico

Taigro Urso Branco venceu Marcos Babuíno por decisão unânime

Christos Giagos venceu Herdeson Capoeira por decisão unânime