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"Porrada, baby!": mulher de lutador chora, sofre e incentiva marido no cage

Adriano Wilkson/UOL
Marcela Furtado torce para o namorado Ary Faria, lutador de MMA Imagem: Adriano Wilkson/UOL

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

16/03/2018 04h00

Quando seu marido entrou no octógono para trocar socos, chutes e joelhadas com outro homem, Alani saiu do lado da grade e correu para se esconder no banheiro. Ela não aguentaria vê-lo sofrer. Letícia achou que aguentaria, mas quando cegou a vez do marido dela, sentiu sua pressão cair e a vista ficar turva. Precisou ser socorrida e acalentada pela mãe.

Já Marcela não fechou os olhos, mas abaixo dos cílios postiços que ela colocou especialmente para a grande noite, um filete de lágrimas escorreu quando o amor de sua vida começou a apanhar dentro da jaula. Barbara cantou vitória antes da hora e reproduziu a paródia de um antigo hit da música popular: “Tô nem aí, tô nem aí... quando for o meu marido vocês vão fugir”. Mas quando foi a vez do marido dela, gritou desesperada e precisou ser contida enquanto ele recebia socos na cabeça e trançava as pernas ameaçando desabar.

Os lutadores de MMA estão acostumados a ser alvo de vários tipos de violência enquanto praticam o esporte de maior contato físico que o ser humano já inventou. Mas suas mulheres, que pouco podem fazer além de assistir impassíveis seus amados apanhando, parecem sofrer ainda mais.

Na última sexta-feira, uma noite agradável e de céu limpo zona oeste de São Paulo, encontrei um grupo de amigas que se reuniram para assistir, da primeira fileira, ao Absolute Championship Berkut, um evento de MMA russo que desembarcou na capital paulista pela primeira vez. Vivendo uma aliança feminina forjada pela parceria de seus maridos, todos membros da equipe Team Nogueira, elas se ajudaram enquanto os lutadores José Maria No Chance, Herderson Capoeira, Matheus Mattos e Ary Farias se revezavam no octógono paulista.

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Barbara consola Alani após derrota de José Maria No Chance no MMA Imagem: Adriano Wilkson/UOL

As amigas contaram que se veem com frequência, batem papo em um grupo que criaram no Whatsapp e costumam trocar informações sobre a rotina de treinos e as estratégias de dieta de cada marido – na vida de um lutador, as flutuações do peso corporal representam a parte mais desgastante da rotina. Algumas treinam artes marciais; outras se descrevem como nerds. Algumas estudam marketing, outras tentam entrar na faculdade de medicina.

“Tira a mão daí, negão!”, gritou Karla Davanny quando Wendell Negão tocou sem querer a região genital de seu marido, o mineiro Bruce Souto. “Isso aí já é meu!” Além de esposa, Karla é preparadora física de Bruce, que parecia virar o rosto para ela em busca de orientação a cada apuro que passava na luta. Acabou vencendo por decisão dos juízes.

“Porrada, baby! Na costela”, berrou Marcela Furtado, uma jovem aspirante a médica, orientando o namorado Ary Faria que tentava a sorte na jaula. Suas unhas longas e brilhantes refletiam a luz espetacular do ginásio do clube Hebraica. Suas mãos, adornadas com um anel em cada dedo, tremiam em posição de oração. Seus olhos se enchiam de lágrimas enquanto ela percebia que o marido chegava perto da derrota. Mas Ary conseguiu a vitória, embora tenha precisado de cuidados médicos depois.

“Fica do meu lado, amor”, ele pediu quando os dois se reencontraram na enfermaria do ginásio. Ary reclamava de uma dor forte na lombar. Marcela ficou. Acariciando sua testa marcada por um rasgo do tamanho do rabo de uma lagartixa, tentava convencê-lo de que ficaria tudo bem.

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Esposa filma seu marido, o lutador Roberto Facada, na entrada do octógono Imagem: Adriano Wilkson/UOL

A maioria das esposas abdicou de muita coisa para viver a carreira do marido. Barbara Correia cuida da filha e das redes sociais de Matheus Mattos. Ela o obriga a tirar fotos do seu dia a dia para saciar a curiosidade dos fãs porque sabe que um bom lutador precisa de fãs. Ela se esforça para atender as demandas do marido, atolado em uma rotina intensa de treino e dieta, e entende seus momentos de mau humor por causa da fome pré-pesagem.

Quando Matheus apanha no octógono, Barbara tem vontade de entrar lá e revidar ela mesma. Por instinto, dá alguns passos à frente em direção à grade e se apoia em um segurança, gritando palavras de incentivo ao marido.

Matheus se projeta sobre o adversário russo, derruba-o e começa socá-lo de cima para baixo indicando que a luta está perto do fim. Mas o russo, um muçulmano barbudo com cara de adolescente, mantém a cabeça acima do solo e não desiste. Ele inverte as ações e passa a atacar Matheus, que cai no solo meio tonto.

“Não! Pelo amor de Deus, não!”, se desespera a esposa a meu lado. Os homens se castigam mais e quando a corneta de ar soa pela última vez, Barbara corre ao outro lado do ginásio para esperar o anúncio da decisão dos juízes e encontrar Matheus na saída para os vestiários.

Quando o locutor anuncia que o vencedor é do Rio de Janeiro, Barbara ergue os braços e grita outra vez, comemorando a vitória do marido. Em silêncio o observa ser entrevistado em inglês. Mais tarde eles saberiam que, além da bolsa pela participação e a premiação pela vitória, Matheus embolsaria um bônus de 10 mil dólares por ter feito “a luta da noite”.

Ainda dominado pela adrenalina do combate, ele desce do octógono e cumprimenta os fãs que encontra no caminho. De repente se depara com Barbara, que o aguarda com os braços em volta do pescoço e os olhos úmidos de quase choro e orgulho pleno. Matheus está muito diferente do homem por quem ela se apaixonou, o rosto inchado e desfigurado, o olhar distante e assustado de quem acabou de aterrissar no planeta Terra depois de enfrentar uma atmosfera turbulenta.

Ela corre para abraçá-lo. Toca seu rosto e beija sua boca, sentindo um misto de saliva, suor e sangue.

“Eca”, diz ela, torcendo a cara e depois sorrindo. 

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