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Torneio dos Gracie premia lutador condenado e reincidente na Maria da Penha

Marcos Furtado/Flashsport
Marlon Sandro foi campeão master do Campeonato Hélio-Gracie de jiu-jitsu no RJ Imagem: Marcos Furtado/Flashsport

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

2019-04-18T04:00:00

18/04/2019 04h00

Campeão na categoria máster do Campeonato Hélio Gracie, que homenageia um dos fundadores do jiu-jitsu brasileiro, no sábado (13), o lutador Marlon Sandro Olegário é réu em duas ações penais que apuram agressões contra sua ex-noiva, Tayssa Madeira.

Reincidente, o atleta responde ou já respondeu a ao menos 11 processos sobre crimes como ameaça, injúria e lesão corporal. Em um dos processos, de 2013, Marlon foi condenado em primeira e segunda instância por lesão corporal no âmbito da lei Maria da Penha. Na época, ele admitiu ter agredido com um soco a mãe de seus filhos e foi condenado a três meses de prisão em regime aberto.

A participação do lutador no Hélio Gracie foi alvo de protestos em um momento no qual a comunidade do jiu-jitsu tenta conscientizar atletas e mestres a respeito de violência de gênero e abuso sexual no esporte. Em fevereiro, o ato "Jiu-jitsu contra o feminicídio" reuniu no Rio de Janeiro alunos, mestres e profissionais da luta, indignados com as agressões sofridas pela paisagista Elaine Caparroz, mãe de Rayron Gracie. A paisagista foi agredida por Vinicius Serra, advogado e praticante da modalidade.

Marcos Furtado/Flashsport
Imagem: Marcos Furtado/Flashsport

Em dezembro de 2017, Marlon Sandro agrediu a noiva em via pública na saída de um jogo de futebol no Maracanã. Segundo o boletim de ocorrência, ele teria desferido socos, chutes e um mata-leão na publicitária. Com a instauração do inquérito, Marlon acabou afastado da equipe Nova União, onde chegou a ser técnico do ex-campeão mundial José Aldo. O lutador publicou um vídeo nas redes sociais, no qual se dizia arrependido e pedia emprego.

No carnaval do ano seguinte, uma nova denúncia: Marlon entrou na casa de Tayssa e, no meio de uma briga, chegou a ameaçá-la como uma faca, de acordo com o boletim de ocorrência. Com a conclusão dos dois inquéritos policiais, o Ministério Público o tornou réu em duas ações penais, uma por lesão corporal e outra por ameaça. Em entrevista concedida ao UOL Esporte na época, Marlon Sandro admitiu que havia "passado dos limites" com a noiva, mas afirmou que gostaria de seguir a vida.

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Tayssa Madeira mostra lesões no olho após briga com Marlon Sandro Imagem: Reprodução

Diante da notícia da participação de Marlon no campeonato Hélio Gracie, a direção da Federação de Jiu-Jitsu do Rio de Janeiro, fundada e comandada há décadas pela família Gracie, se reuniu para discutir se sua inscrição seria confirmada. Segundo a diretora Kenya Gracie, a entidade decidiu liberar o lutador porque não caberia à federação fazer julgamento sobre a vida privada dos atletas.

"A federação não participa da vida pessoal dos atletas. A partir do momento em que ele for julgado e condenado, aí tomaremos partido", disse Kenya, que é filha de Robson Gracie, o presidente da FJJ-Rio. "Temos que esperar o resultado da Justiça. Enquanto ele não for julgado e condenado, não podemos fazer nada."

Justiça concede medida protetiva após mensagens

Um dia depois de ser campeão no Hélio Gracie, o lutador enviou uma mensagem à sua ex-noiva e logo depois apagou. Em agosto do ano passado, ele disparou uma série de mensagens à vítima. Em uma das passagens pelo Brasil após temporada no exterior, Marlon se hospedou em hotel próximo à casa de Tayssa. Como a publicitária diz temer que o lutador possa fazer algo mais grave contra ela, a Justiça concedeu nova medida protetiva impedindo Marlon de se aproximar ou tentar contato, por qualquer meio.

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Imagem: Reprodução

Segundo Eric Trotte, advogado da publicitária e assistente de acusação do Ministério Público, Marlon vem evitando receber intimações judiciais para apresentar sua defesa. Em postagens no Instagram, o lutador aparece dando aulas de jiu-jitsu e MMA na China.

"Foram inúmeras tentativas do oficial de justiça", afirma o advogado de Tayssa. "Ele chegou a ser citado por edital, o que denota claramente uma tentativa de se furtar à aplicação da lei penal. Tem sido uma luta inglória fazê-lo ser intimado para que as decisões tenham eficácia."

Em processo de 2013, lutador admitiu soco em mulher

Em 2013, Marlon Sandro se envolveu em uma briga com a ex-mulher, com quem teve dois filhos. Ao tentar buscar um deles para passar o fim de semana em sua casa, o atleta se desentendeu com a mãe das crianças e desferiu um soco em sua cabeça.

"Ele me empurrou, eu caí no sofá, eu levantei, tentei pegar o garoto de novo, ele foi me empurrando e fui pro quarto, foi no quarto que ele me deu um soco na cabeça. Teve um na costela. Como eu tentei passar pra pegar meu filho, ficou naquele negócio de empurra-empurra", afirmou a vítima no processo.

Segundo o desembargador Flávio Marcelo de Azevedo Horta Fernandes, relator da decisão que negou provimento a um recurso da defesa de Marlon, o próprio réu admitiu a agressão.

"A gente ficou nesse empurra-empurra, ela ficou me segurando, pegando no meu braço, peguei, joguei ela no sofá, segurei ela, e a criança chorando. Acabou que eu peguei, dei um soco na cabeça, ela me deu um soco na boca também, depois a gente parou porque as crianças estavam chorando", disse o lutador, em declaração que consta nos autos do processo.

O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro confirmou a condenação do atleta a três meses de prisão.

Lutador diz que mudou e sua defesa alega inocência

Procurado pelo UOL Esporte, o lutador Marlon Sandro afirmou que iniciou um tratamento a base de medicamento e que pagará "tudo o que tiver que pagar" na Justiça. Pelo WhatsApp, o atleta da Nova União disse que quer "deixar tudo em paz".

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Imagem: Divulgação

"O que eu tiver que pagar na Justiça, pagarei. Estou pagando e me prejudiquei, só que agora sou uma outra pessoa, fiz tratamento, tomei remédio, me cuidei. Quero só resolver tudo e deixar tudo em paz. Procurei me curar e me tratar e ser uma nova pessoa. E cumprir com tudo que tenho que cumprir. Acho que todos devem saber que mudei e me tratei e sigo o que o médico falou. Faço tudo exatamente conforme ele e meu advogado falaram", afirmou o atleta.

Marlon afirmou que veio ao Brasil para se apresentar à Justiça e reclamou de Tayssa ter ido protestar à federação contra sua participação no Campeonato Hélio Gracie.

"Tem já mais de um ano isso tudo. Já paguei, perdi emprego fiquei sem um real no bolso. E agora estou voltando a trabalhar e sustentar minha família de maneira honesta como sempre fiz." Em abril do ano passado, o lutador iniciou um curso para ensinar MMA a mulheres na praia.

O advogado Ronan Gomes, que faz a defesa de Marlon, enviou à reportagem uma nota afirmando que o réu é inocente das denúncias que pesam contra ele.

"A defesa de Marlon Sandro Olégario, informa que o processo tramita em segredo de justiça, ressaltando que nenhuma prova foi analisada sob o crivo do contraditório, o processo é embrionário. Por força da Constituição Brasileira de 1988 em seu artigo 5.°, inciso LVII: "ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória". Desta forma, Marlon não pode ser taxado de nada enquanto não houver sentença penal condenatória transitada em Julgado. Esclarecemos que Marlon contribuiu com a justiça, com autoridade policial, prestou sua versão dos fatos e apresentou defesa prévia negando os fatos.

Assim, enquanto não se solidificam as acusações, pode-se chegar a uma conclusão de que o mesmo é inocente.

Att,

Ronan dos Santos Gomes

OAB/RJ 150.578"