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19/07/2004 - 10h58
Tiro com arco cresce na burocracia, mas encolhe na prática

Vinícius Segalla
Da Redação

O tiro com arco é um dos esportes olímpicos com menor penetração no Brasil e um caso raro em que a melhoria das condições financeiras não gerou bons resultados em competições internacionais.

Arquivo 
Entidade culpa preço do equipamento em tempo de crise por encolhimento
Com 700 praticantes no país e nove federações estaduais, cara e sem tradição nacional, a modalidade, mais conhecida como "arco e flecha", está na lista daquelas que só cresceram institucionalmente, na esteira da Lei Agnelo/Piva, que, desde 2001, repassa para as confederações de esportes olímpicos recursos advindos da arrecadação de loterias federais. Apesar disso, após 2001, os resultados brasileiros no tiro com arco só pioraram.

Em termos estruturais, a modalidade soube aproveitar seus recursos. A CBTarco, Confederação Brasileira de Tiro com Arco, nem sequer possuía uma sede antes de 2001. No ano seguinte, a entidade alugou um imóvel e passou a ter um endereço, em Santo André, na Grande São Paulo. "A gente costumava dizer que a sede da confederação era o porta-malas do carro do presidente, que ficava cheio de documentos", recorda Vicente Fernando Blumenschein, presidente da CBTarco.

Divulgação 
Leonardo de Carvalho obteve medalha
de prata no Sul-americano de 2002
Foi também com o dinheiro da Lei Agnelo/Piva que a confederação montou uma equipe olímpica permanente, com 16 atletas, e desenvolveu o esporte em Estados como Tocantins, que teve sua federação fundada neste ano, Paraná e Pará, que ainda não possuem federações, mas devem tê-las até o fim de 2004. Além disso, criaram-se cursos para formação de instrutores técnicos em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Nada disso, entretanto, refletiu-se em medalhas ou crescimento do esporte em termos quantitativos. No final da década de 1990, havia no Brasil cerca de mil praticantes de tiro com arco, sendo 500 filiados à CBTarco. Hoje, não passam de 700, e somente 300, filiados.

A delegação nacional contou com dois representantes nas quatro edições das Olimpíadas desde 1980, em Moscou, até 1992, em Barcelona. Nenhum arqueiro defendeu as cores nacionais em Atlanta-1996 e nenhum defenderá em Atenas-2004. Neste ano, no Pré-Olímpico na Colômbia, Leonardo Carvalho ficou em quarto lugar em um torneio que distribuía três vagas. A melhor colocação brasileira foi em Moscou-1980, um 27º lugar de Renato Emílio, atual técnico da seleção nacional e presente nos quatro Jogos que o Brasil disputou.

Nos Jogos Pan-americanos, o quadro não é mais animador. Em Winnipeg-1999, no Canadá, duas arqueiras passaram às oitavas-de-final e o atleta Leonardo Carvalho chegou na mesma fase no masculino. Já em Santo Domingo-2003, na República Dominicana, a equipe se restringiu a dois representantes. Leonardo Carvalho repetiu o desempenho de 1999, e Fátima Rocha não foi além da primeira etapa. Voltando ainda mais no tempo, até 1983, encontra-se o melhor desempenho do Brasil em grandes competições: foram três medalhas de bronze, duas no masculino, uma no feminino, no Pan de Caracas.

"Acredito que houve uma retração, e não uma regressão, do tiro com arco no Brasil", defende Emílio. Segundo ele, a principal razão para o encolhimento da modalidade é econômica. "O problema é o preço dos equipamentos. Passamos por décadas difíceis no Brasil, financeiramente falando". Arcos e flechas profissionais, para atletas de ponta, não saem por menos de US$ 1200,00. O técnico da seleção brasileira, porém, se mantém otimista. "Não chegamos a Atenas por muito pouco. Mas isso tem um lado positivo, porque o trabalho não acaba. Se não vamos à Olimpíada, não ficamos um ano de férias, estendemos o projeto para o Pan de 2007", explica.


"Totalmente amador"

Emílio conta que o trabalho que a confederação vem desenvolvendo é focado em adolescentes, de 12 a 16 anos. "Não se forma um atleta de um dia para o outro. Além disso, é preciso pegar pessoas que não têm compromisso com trabalho ou faculdade, para que possam dar total enfoque ao esporte".

De fato, não há nenhum atleta que se dedique exclusivamente ao tiro com arco. A CBTarco concedia aos membros da seleção olímpica uma bolsa de R$ 450,00. Como a modalidade não conquistou nenhuma medalha no último Pan-Americano e nem conseguiu classificar nenhum arqueiro para Atenas, a confederação amargou uma queda de 25% na verba repassada pelo COB. Com isso, a bolsa para os atletas foi reduzida para R$ 300,00.
Divulgação 
Fátima Rocha já representou o Brasil no Pan-americano de Santo Domingo


"Dá só para pagar a gasolina que eu gasto até o clube, para ir treinar. Mas já é uma evolução, antes não tinha nada", afirma Leonardo Carvalho, arqueiro número 1 no ranking brasileiro, que quase se classificou para os Jogos de Atenas. Estudante de medicina, Carvalho não tem rotina estabelecida de treinos, nem mesmo quando vai a competições importantes. "Treino quando dá. Agora está difícil, estou fazendo estágio. Mas, no fim-de-semana, eu sempre vou ao clube", conta o futuro médico, que define sua relação com o tiro com arco como "totalmente amadora": "Para falar a verdade, o tiro com arco funciona para mim como uma cachaça. É muito mais uma questão de prazer do que uma profissão".

A CBTarco tenta alterar esse quadro de amadorismo. Um convênio firmado com a confederação italiana possibilitou que quatro atletas fossem à Europa, onde realizam um estágio de aperfeiçoamento de um mês, sob a supervisão de técnicos da equipe nacional italiana. A idéia é enviar mais atletas e técnicos para lá no próximo ano. Ainda em 2004, após as Olimpíadas, técnicos italianos virão para o Brasil, onde ministrarão cursos para instrutores. "Assim podemos massificar, apostar na base é o caminho", reforça Emílio.

A queda na verba oriunda do COB, a única fonte de renda da CBTarco, fez com que se alterassem as linhas de atuação da entidade. Os R$ 340 mil anuais caíram para R$ 295 mil, e muitas viagens programadas foram canceladas. "Não viajaremos mais que duas vezes ao ano. Usaremos o dinheiro para pagar mais instrutores e equipamento para centros de treinamento. É uma mudança de filosofia, visando ao futuro", diz o presidente Vicente Fernando Blumenschein, que também é médico.

O tiro com arco segue agora com os objetivos expressos de "obter medalhas nos Jogos Pan-Americanos de 2007, no Rio de Janeiro e conquistar duas vagas para as Olimpíadas de 2008, em Pequim". Se depender da confiança e dedicação de quem comanda o time olímpico, Renato Emílio, não é tarefa impossível. "Estou otimista. Nossos jovens foram elogiados na Itália. É com pouco dinheiro que se tem criatividade. Estou sentindo que as coisas estão melhorando", diz o técnico.

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