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11/08/2004 - 09h30
Primeira afegã na história olímpica quer servir de exemplo

Murilo Garavello
Enviado especial do UOL
Em Atenas (Grécia)

Mesmo se não vencer nenhuma luta, Friba Hazayee, 18, vai fazer história no dia 18. A judoca será a primeira mulher afegã a participar de uma competição olímpica. Exilada no Paquistão durante sete anos, a jovem dificilmente terá êxito no tatame: preparou-se para os Jogos apenas por três meses, depois que recebeu o convite do Comitê Olímpico Internacional. Só conseguiu treinar porque foi ajudada por autoridades gregas. Mesmo assim, sairá da Olimpíada como uma vencedora.

Arquivo pessoal 
A judoca Friba Hazayee (dir.) ao lado do irmão Javed durante festa de família
"Não tenho a pretensão de vencer", reconheceu a judoca em entrevista por e-mail ao UOL Esporte. "Minhas rivais se prepararam por quatro anos, seria subestimá-las pensar que posso ganhar. Mas isso não é importante. Estou muito comovida com toda a ajuda e as mensagens de apoio que consegui. Vou dar o máximo de mim e tenho certeza de que posso servir de exemplo para as mulheres de meu país".

Apontada como uma pessoa tímida por jornalistas que a entrevistaram em Lesbos (ilha grega em que fez parte do treinamento), Friba tem personalidade forte, de acordo com seu irmão Javed, 28. "Com os conhecidos, ela é alegre, espontânea, inteligente", diz. "Desde pequena, Friba nunca entendeu por que os homens tinham um tratamento diferente. Ela nasceu para ser livre".

Exílio e retorno

Quando tinha 9 anos, Friba mudou-se com seu pai -um cozinheiro-, sua mãe e os seis irmãos (três mulheres, três homens) para Peshawar, cidade paquistanesa próxima à fronteira com o Afeganistão. "Fugimos da guerra entre os mujahideen (guerreiros tribais), que, após a expulsão dos russos fizeram uma espécie de guerra civil pelo controle do nosso país", conta Javed, que atualmente vive em Kunduz trabalhando em um programa da ONU para o desarmamento e reintegração do povo agefão.

Em Peshawar, Friba freqüentou a escola e aprendeu inglês. "Em geral, éramos respeitados no Paquistão por sabermos inglês", diz a judoca. "Mas, muitas vezes, vi meus irmãos levarem socos de policiais. Isso fez com que nós e outros refugiados afegãos nos tratássemos como uma só família".

AFEGANISTÃO
O Afeganistão vive fortes conflitos internos desde 1979, quando os soviéticos invadiram o país. Após a retirada dos invasores, em 1989, os guerreiros nativos (mujahedin) disputaram o controle político. No fim da década, o grupo extremista islâmico Taleban tomou a capital, Cabul, e a maior parte do país, instaurando um regime repressivo e conservador. A tolerância com o grupo terrorista Al Qaeda fez com que os EUA invadissem o país em 2001, derrubando o regime Taleban. Quase três anos depois, o país ainda não se organizou politicamente e vive uma rotina de atentados e conflitos políticos internos
Meses após a queda do regime Taleban, Friba e sua família voltaram para Cabul, onde moram até hoje. "Cabul já está bastante diferente. Sinto as pessoas construindo, querendo fazer muitas coisas. Posso praticar judô em um ginásio que servia como local de execução no antigo regime. As condições não são ideais, mas, antes, não poderíamos nem sonhar com isso".

A judoca -e os outros quatro atletas afegãos que, também convidados pelo COI, participarão das Olimpíadas- aceitaram o convite de treinar na Grécia feito por Zoi Livaditou, uma grega que dedica a vida à assistência social. "Quando vi as condições em que elas treinavam em Cabul, fiquei sensibilizada e passei a negociar em várias frentes para viabilizar a vinda delas para a Grécia", diz Zoi.

A intenção da grega casava-se perfeitamente com estratégias de marketing de várias marcas, que teriam poderiam agregar características de responsabilidade social às suas imagens. Apesar disso, apenas uma empresa de material esportivo concordou em ajudar, cedendo uniformes para as atletas. O Comitê Organizador de Atenas não apoiou a idéia. Para ter um quimono decente para os Jogos, Friba teve de contar com uma doação da Federação Japonesa. O resto da preparação foi custeado por Zoi e entre cidadãos gregos que fizeram doações.

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