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16h48 - 10/08/2003
Em jogo-síntese de sua carreira, Meligeni abandona o tênis com medalha de ouro

Murilo Garavello
Enviado especial do UOL
Em Santo Domingo (República Dominicana)

A história de Fernando Meligeni no tênis pode ser bem resumida pelas duas horas e 44 minutos que precisou para derrotar o chileno Marcelo Ríos, ex-número um do mundo, e conquistar a medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos. A partida mais emocionante de Santo Domingo-2003 até aqui marca o fim da carreira de um dos mais carismáticos jogadores que as quadras de tênis já receberam.

Estádio praticamente cheio, torcida barulhenta -contra e a favor-, batuques, cornetas, um Meligeni vibrante, aguerrido, correndo em todas as bolas, se atirando ao chão, atropelando a grade lateral para equilibrar a disputa com um rival de categoria superior. Irreverência: risadas, caras de ironia, reclamações de si mesmo, caretas para o adversário, equilíbrio da raquete no nariz após uma jogada espetacular de Ríos, reclamações ousadas com o juiz, raquete arremessada ao chão depois de uma boa chance perdida. Resumindo: Fernando Meligeni.

Neste domingo, o brasileiro se superou e foi ainda mais longe. Sem levantar um troféu desde que conquistou o Challenger de Guadalajara-2000 (um evento menor do circuito do tênis), Meligeni pôde se despedir do tênis em um jogo em que, além de inflamar a torcida, trazendo os dominicanos a princípio neutros para seu lado, esbanjar carisma, persistência e garra, ele conseguiu ser campeão. Nenhum roterista poderia imaginar um final mais adequado -e emocionante.

Em sua carreira, Meligeni conseguiu alguns ótimos resultados: três títulos em torneios da ATP, uma semifinal do tradicionalíssimo Roland Garros. Provavelmente nunca terá problemas financeiros: amealhou US$ 2,6 milhões em seus quase 14 anos de carreira. Levou o Brasil a uma semifinal de Copa Davis, chegou a figurar entre os 30 melhores do mundo. E, agora, é campeão pan-americano.

Mas não é por nada disso nem por sua categoria técnica que o argentino naturalizado brasileiro será mais lembrado: o que ficará é sua mensagem de garra, persistência, a imagem de alguém que se diverte fazendo aquilo que gosta, que não desiste diante de adversários mais talentosos, que teve um poder ímpar de encantar torcidas e fazer com que pessoas permanecessem em estádios e à frente da TV dando-lhe apoio.

Meligeni derrotou Ríos pela primeira vez em seis jogos. "No começo da semana, fizemos um jogo treino, e o Ríos ganhou fácil. Sabíamos que, para vencer, hoje, teria de ser em um jogo assim, longo, complicado, com o Fininho (apelido pelo qual o brasileiro é conhecido) minando o Ríos aos poucos", disse após a conquista o técnico Mauro Menezes. E, realmente, foi uma verdadeira maratona, que teve início por volta do meio-dia e ocorreu em um calor de quase 40 graus.

Após salvar cinco match points e perder outros dois, Meligeni fechou o jogo e garantiu a medalha de ouro com uma vitória por 2 sets a 1, parciais de 5-7, 7-6 (8-6) e 7-6 (7-5). Chorou, foi abraçado por companheiros de equipe e ilustres, como o velejador Robert Scheidt, que assistiu à partida e torceu freneticamente pelo amigo. Recebeu um abraço forte do rival, Marcelo Ríos, multivencedor do "troféu limão", concedido pela imprensa estrangeira ao jogador mais antipático do circuito. Se enrolou na bandeira brasileira e balbuciou algumas palavras para os jornalistas brasileiros.

"Foi uma vitória que consegui com o coração e que eu não esperava. Ele estava jogando muito mais do que eu, mas eu queria muito ganhar essa medalha", disse um Meligeni com lágrimas nos olhos. "Foi tudo perfeito: ganhei de um grande jogador, a quem eu nunca havia vencido, acabei com a medalha de ouro para o Brasil. Agora, posso parar tranqüilo", afirmou.

O jogo
"Ele se superou aqui como nunca tinha feito antes". A frase, de Mauro Menezes, resume a dramaticidade da decisão. Meligeni, que mostrou um jogo sólido durante todo o torneio -ainda que tenha derrotado rivais fracos, o fez com facilidade-, começou muito bem, surpreendendo um Ríos que parecia frio em quadra. Ganhou 12 dos 14 primeiros pontos e abriu 3 a 0.

O chileno, entretanto, foi soltando seu espetacular jogo, usando toda sua habilidade de colocar a bola em todos os cantos da quadra. Conseguiu duas quebras de saque sobre Meligeni (as duas depois de duplas faltas do brasileiro) e fechou o primeiro set em 7-5. Curiosidade: em um dos pontos, o brasileiro reclamou de uma marcação do árbitro no saque do rival. O árbitro manteve a decisão: "game Ríos". O chileno, também irreverente, concordou com Meligeni e, fazendo o árbitro de "bobo", sacou novamente.

Na segunda parcial, Meligeni conseguiu manter o jogo parelho até o nono game. O maior volume de jogo de Ríos, então, sobressaiu: colocando o brasileiro para correr como um pêndulo, obteve a quebra de saque. No game seguinte, sacou para ganhar o jogo.

Então, Meligeni se fez valer de seu espírito "guerreiro". Na primeira chance de devolver a quebra de serviço, respondeu duas bolas quase impossíveis e, após um erro do chileno, vibrou como nunca: fez sinais para o rival, batendo a mão no peito, como que dizendo: "aqui tem".

E tinha mesmo. No tie-breaker, Ríos voltou a esfriar a torcida, que já estava em sua maioria ao lado do brasileiro, ao marcar 4-0 e 5-1. Mas Meligeni não estava morto. Obteve dois winners sensacionais, e, em erros de Ríos, salvou dois match points. Embalado, fechou o set.

No terceiro set, o brasileiro obteve uma quebra de saque no terceiro game. Cansados, os dois tenistas faziam pausas enormes entre cada game, desafiando o protocolo. E ambos encontravam problemas para manterem seus serviços. Outras duas quebras se sucederam: Ríos derrubou o saque de Meligeni no sexto game, mas não confirmou no sétimo.

Com 5-4 no placar, Meligeni sacou para ganhar o jogo no décimo game. Mal viu a cor da bola: com devoluções e jogadas dignas de um número um do mundo, Ríos devolveu a quebra rapidamente.

Raquete arremessada ao chão, tensão no semblante, Meligeni ficou segundos olhando para o nada. Animado pela torcida, voltou ao jogo. O chileno seguia alternando golpes impressionantes com uma displicência irritante para seus compatriotas que estavam nas arquibancadas. Em uma das jogadas de Ríos, Meligeni levou uma passada sensacional e exclamou: "ah, velho, aí não dá".

Ríos fez 6-5 no jogo. Meligeni sacava para levar também o terceiro set para o tie-breaker. Começou atrás: 0-30. Mas se recuperou, a gritos de "Brasil, Brasil" recheados de sotaque dominicano. E, no desempate, foi melhor que o chileno: abriu 6-3. Desperdiçou dois match points e, então, após uma bola muito duvidosa, questionada pelo rival, conquistou o título, brindando os brasileiros com um jogo sensacional e mais uma medalha de ouro -até aqui, a mais legal de todas elas.

Para saber mais sobre a carreira de Meligeni, clique aqui e veja o especial que o UOL Esporte fez quando ele anunciou sua aposentadoria.

O UOL é o provedor oficial do site de Fernando Meligeni. Saiba toda sua trajetória e veja fotos.


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