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11h13 - 13/08/2003
Dominicanos apelam ao vudu em busca de sorte, dinheiro e amor

Murilo Garavello
Enviado especial do UOL
Em Santo Domingo (República Dominicana)

Conhecido no Brasil como "feitiço" realizado com agulhadas em bonecos, o vudu, religião milenar africana, vem sendo opção para muitos dominicanos que tentam uma ajuda para realizar seus desejos. Para ter sorte, dinheiro, atrair mulheres, conseguir casamentos e outros "milagres", os habitantes de Santo Domingo recorrem cada vez mais a remédios e rituais "importados" do país vizinho, o Haiti.

Para os que têm como imagem do vudu os bonequinhos "da maldade", é importante esclarecer: o vudu tem diversas ramificações e, em sua modalidade haitiana, é possível distingüir entre seus grupos a magia negra e a magia branca. "A magia negra é feita para vingança, para rituais de morte, satânicos. A magia branca é aquela que busca o bem, a paz, realizações pessoais", explica Yefua "Fuá" Encarnación, filho de pai haitiano e mãe dominicana que crê no vudu e vende remédios e "muñecos" (bonecos) no Mercado Modelo de Santo Domingo -local de comercialização de artesanato, cosméticos e outros acessórios.

Murilo Garavello/UOL
Bonecos usados para ritual de vudu em Santo Domingo

Na loja de Fuá há todos os tipos de remédios -feitos a partir de essências vegetais. "Suerte rápida" é um dos que prometem mudar a maré da pessoa que untá-lo pelo corpo -poderia ter sido a saída encontrada pelo presidente da Federação Dominicana de Beisebol para evitar o fiasco da equipe, xodó nacional, no Pan-Americano.

Usando "El Combatiente", supostamente se conseguirá virilidade. "Amarre Haitiano" é indicado para quem busca a conquista do sexo oposto. Já "Loción Magnético" é um resumo de todos os outros: serve para a sorte no amor, atração de dinheiro e felicidade. Os preços são relativamente módicos: cerca de R$ 3 ou R$ 4 o frasco, cujo conteúdo líquido deve ser esparramado pelo corpo.

Murilo Garavello/UOL
Loções vendidas em mercado de Santo Domingo para ter virilidade, sorte no amor e sucesso nos relacionamentos

Para se promover o mal a alguém, não basta adquirir bonecos e uma agulha especial. "Não é possível fazer o mal sem a ajuda de um bruxo (ou cavaleiros do mistério, como também são conhecidos). Em muitos casos, é preciso inclusive utensílios da pessoa a quem se deseja prejudicar. Mas não entendo muito disso, não", diz Fuá, que garante só lidar com a magia branca e ir à igreja com freqüência.

"Em Santo Domingo, não há bruxos de verdade, apenas charlatões, que iludem as pessoas", diz Fuá, logo após atender uma dominicana que adquiriu da loja dele dois bonecos, perguntando como fazer um "feitiço" para separar duas pessoas -e questionando, inclusive, sobre a eficácia de se cortar a cabeça do boneco. "Disse que seria inútil decapitá-lo e mesmo fazer qualquer simpatia sem auxílio de alguém que possa evocar espíritos para que o mal se efetive. Mas os dominicanos, quando estão desesperados, querem fazer as coisas de qualquer jeito, mesmo de maneira errada."

Sobre o vudu
O vudu é uma religião que tem sua origem vinculada a mais de 35 grupos étnicos da África Ocidental, milhares de anos antes de Cristo. Na África, a religião vudu segue em voga e é o credo oficial de Benin. Ao Haiti, foi trazida pelos negros comercializados como escravos, a partir do fim do século XVI. Entretanto, o vudu haitiano é muito mais sincrético do que o original: os princípios religiosos africanos foram misturados com santos católicos -e mesmo com a figura de Deus.

"Quem é adepto da religião vudu crê basicamente que as pessoas podem ser capazes de invocar espíritos. Os bruxos são as pessoas especializadas neste trabalho. Há espíritos bons e espíritos malignos. Mas acima de cada um dos espíritos, está Deus, que é a força maior, que permite que os espíritos atuem", tenta explicar Fuá, dando uma mostra do sincretismo.

Na República Dominicana, o vudu acaba tendo cada vez mais espaço devido à imigração maciça de haitianos, que buscam fugir da pobreza de seu país natal -estima-se que, atualmente, dos 8 milhões de habitantes que a Dominicana possui, 1 milhão tenham vindo do Haiti. Apesar do racismo e da força feita pelos dirigentes dominicanos e pela Igreja Católica para expurgar o vudu -e os próprios haitianos-, os que crêem na religião freqüentam igrejas mais regularmente do que muitos fiéis católicos.

Para Mamaissii Odelelasi Dansi Hounon, líder vudu da Nigéria, onde os rituais de magia negra são ainda mais incomuns, a imagem de que o vudu é apenas um conjunto de rituais malignos foi propagada por europeus e por Hollywood tanto por racismo quanto por sensacionalismo.

"A religião vudu foi uma força que impulsionava os africanos a lutar contra a opressão e o escravismo. Por isso, sempre interessou aos dominadores satanizá-la, colocá-la como práticas excusas de negros doidos. Os rituais de invocação de demônios são um desvio do vudu, que ocorre no Haiti e, mesmo lá, não podem caracterizá-lo, assim como o satanismo não pode caracterizar o catolicismo", diz Hounon.


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