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21/03/2007 - 09h00

Derrota para Brasil iniciou revolução no garrafão

Giancarlo Giampietro e Renan Prates
Em São Paulo

“Aquele Pan deu início à revolução no basquete mundial”, sentencia Oscar. “Nós mudamos a ordem das coisas”, gaba-se Marcel. As frases parecem exageradas, mas não são: a travessura que o Brasil aplicou na final do basquete masculino de Indianápolis-1987 foi o detonador de uma mudança geral. A NBA invadiu o basquete mundial, que depois também invadiu a liga profissional dos EUA.

A vitória na casa dos inventores do basquete sobre um anfitrião que colecionava 64 vitórias nos últimos 66 jogos de Pan não se limitou a ser apenas uma das maiores da história do basquete nacional. Até aquele momento, os EUA eram representados por atletas universitários, mas o tropeço em Indianápolis e a queda diante da União Soviética na semifinal da Olimpíada de 1988, em Seul, desencadearam esse processo de globalização.

PRAZER, MICHAEL JORDAN
USA Basketball
Seleção de 1983 teve Jordan e mais 5 que prosperaram na NBA: os alas-pivôs Sam Perkins, Michael Cage e Wayman Tisdale, o armador Mark Price (integrante do segundo "Dream Team") e o ala Ed Pinckney
Quatro anos antes do marco de Indianápolis, Brasil e Estados Unidos se enfrentaram em confronto decisivo no Pan de Caracas-1983. Naquela ocasião, em condições bem diferentes.

Por um lado, a seleção nacional não tinha Oscar na ala – o jogador pediu dispensa. Do lado norte-americano, um certo Michael Jordan, oito anos distante de seu primeiro título na NBA, mas já no começo da lenda, pois vinha da conquista do campeonato universitário.

”Já falavam muito dele, por esse título”, atestou o ala Marcel, que pôde testemunhar bem cedo a capacidade de desequilíbrio do futuro hexacampeão pelo Chicago Bulls.
Os Estados Unidos asseguraram o ouro com uma vitória em cima do Brasil no hexagonal final. Com Jordan liderando o ataque.

“Teve um lance que está em todas as fitas sobre a carreira dele. Ele veio no contra-ataque pelo lado esquerdo e eu fui marcá-lo em sua direita. Mas ele sempre pulava antes, e pulou novamente. Passou por baixo de mim, do aro e fez a cesta.”

Este era o segundo confronto entre os dois times no torneio, e em ambos a seleção brasileira conseguiu endurecer. No primeiro, os Estados Unidos escaparam por três pontos: 72 a 69, após reação no segundo tempo. No segundo, Jordan brilhou com 16 pontos eficientes para derrubar a defesa do rival. “Nós estávamos marcando com uma zoninha, mas ele meteu umas bolinhas contra nós e desequilibrou”, disse.
A derrota de virada, depois de estabelecida uma vantagem de 14 pontos ao final do primeiro tempo que parecia confirmar um clima de absoluto favoritismo, chocou o país e ganhou o noticiário com direito até a foto de primeira página no “New York Times” e reportagens nas revistas Sports Illustrated e Time .

Os Estados Unidos não puderam conter a dupla Oscar Schmidt e Marcel. Os dois alas marcaram juntos 55 dos 66 pontos do Brasil no segundo tempo e deixaram a equipe da casa atônita com suas cestas de três pontos.

“Foi o ápice de uma geração. Todos os jogadores deram o seu melhor naquela partida”, afirmou Marcel. “Nós nos preparamos muito para aquele jogo. Mas mesmo assim não acreditávamos na vitória”, contou Oscar. Se não esperavam um resultado positivo, os dois jogadores não poderiam nem imaginar que o placar de 120 a 115 e a conquista da medalha de ouro serviriam como um divisor de águas no esporte, com a globalização da NBA e a entrada dos astros norte-americanos em Olimpíadas e Mundiais.

Além dos danos à autoconfiança dos EUA, o título brasileiro em Indianápolis proporcionou mudanças estruturais nas regras do basquete amador norte-americano. “Eles não conheciam a linha de três pontos, o que acabou se tornando uma arma na partida. Depois daquela derrota, ela passou a fazer parte dos campeonatos deles”, explicou Marcel.

Receosa, a federação dos EUA (USA Basketball) abriu negociações com a Fiba (Federação Internacional de Basquete) para que a presença dos profissionais da NBA fosse liberada em competições internacionais. E a pressão deu certo: em 1989 a entidade anunciou a mudança nas regras. E o caminho foi aberto para criação do “Time dos Sonhos” em Barcelona-1992, uma seleção que ficou para a história da modalidade.

A reunião do “primeiro escalão” dos Estados Unidos foi a coqueluche dos Jogos na Catalunha. Os adversários tiravam fotos com os ídolos antes dos confrontos. "Foi como colocar Elvis Presley e os Beatles para cantarem juntos. Treinar este time foi como comandar 12 astros de rock", afirmou Chuck Daly, técnico da equipe.

Se o brilho das outras seleções com atletas da NBA não foi o mesmo, o país ao menos alastrou seu domínio pelas Olimpíadas de Atlanta-1996 e Sydney-2000 e pelo Campeonato Mundial de 1994 – na edição de 1998, uma greve dos jogadores da liga profissional se estendeu à seleção, superada na semifinal.

Com o decorrer das competições, o resto do mundo mostrou evolução gradual. Se em Barcelona, a vitória mais “apertada” foi a de 32 pontos na decisão contra os croatas, na semifinal em Sydney os lituanos tiveram a bola do jogo nas mãos, mas erraram antes do estouro do cronômetro. Nessa época, a NBA já estava invadida por estrangeiros.

ELITE EM QUADRA
Confira grandes nomes do basquete norte-americano que já estiveram em ação no Pan:
1959Oscar Robertson e Jerry West
1963Willis Reed
1967Wes Unseld
1971Bob McAdoo
1975Robert Parish
1979Isiah Thomas e Kevin McHale
1983Michael Jordan
1987David Robinson
1991Grant Hill
Por coincidência, esse panorama hegemônico ruiu na mesma Indianápolis, 15 anos mais tarde, desta vez pelo Mundial. Novamente contra um país sul-americano. Liderada por Manu Ginóbili, a Argentina impôs um convincente placar de 87 a 80 na segunda fase, tendo liderado do início ao fim. A derrota foi a primeira em 58 jogos disputados pelos atletas da NBA e desestabilizou o selecionado norte-americano, que ainda perdeu outras duas partidas (Iugoslávia e Espanha), terminando o Mundial na sexta colocação.

A equipe agora pena no cenário internacional. Nas Olimpíadas de Atenas-2004, no que poderia ser a revanche contra a Argentina, outra derrota: 89 a 81 na semifinal. Com três resultados negativos, os norte-americanos terminaram em terceiro. Esta posição voltou a ser repetida dois anos mais tarde, no Mundial do Japão, com a Grécia como a algoz da vez, novamente na semifinal.

Com universitários ou profissionais, portanto, os Estados Unidos já não assustam como antes. E a supremacia pode ser restabelecida? A dupla de 87 acha difícil. “Só voltam a vencer se treinarem para valer”, disse Oscar. “Eles têm de repensar muita coisa se quiserem voltar ao topo”, arrematou Marcel. Já o Brasil também demora a retornar a seu melhor basquete masculino. Ficou fora das duas últimas Olimpíadas. Algo que aumenta o saudosismo em relação à façanha de 1987.