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23/03/2007 - 09h00

Estrelas nacionais "nascem" em Pan apagado

Claudia Andrade
Em São Paulo

Em 1995, o tenista Gustavo Kuerten ainda não era o famoso “Guga”. Nem o pugilista Acelino Freitas, o “Popó”. O nadador Fernando Scherer também não era o “Xuxa”. Em comum, todos eles debutaram no Pan disputado em Mar del Plata (Argentina), mas sofreram com pouca exposição. A estréia deles para fama não foi transmitida por nenhuma rede nacional de TV e só passou na modesta CNT e no embrionário canal fechado Sportv.

“Na Bahia, a CNT não pegava. Para saber como foi a luta, muitos amigos meus me telefonaram”, lembra Popó, que ficou com a prata na categoria leve (até 60 kg) depois de perder para o cubano Julio González em decisão polêmica.

O contraste é imenso em comparação com a onipresença do Pan-2007, que será televisionado no Brasil por três canais abertos e três fechados, além da cobertura extensiva da Internet -há 12 anos, a mídia era coisa apenas para militares e cientistas.

A CNT ganhou projeção no governo de Fernando Collor (1990-1992). José Carlos Martinez, foi filiado ao PRN no biênio 90-91. Além de negócios agropecuários, Martinez já detinha a TV Paraná, adquirida em 1975 dos Diários Associados. Em 1991, foi comprada a TV Corcovado, do Rio, que pertencia a Silvio Santos (o dinheiro da compra teria saído do “esquema PC”, rede de propinas comandada pelo tesoureiro de Collor, Paulo César Farias). No ano seguinte foi firmada a parceria com a TV Gazeta, de São Paulo, que durou até 2000.

Um dos grandes eventos esportivos transmitidos pela emissora foi a Copa Libertadores da América, em 1992, narrada por Galvão Bueno e vencida pelo São Paulo. Em 1994, o canal transmitiu a Fórmula Indy, ofuscada pela Copa do Mundo dos EUA. O grande evento de 1995 foi o Pan-Americano. Naquele ano, o então ministro da agricultura e acionista do banco Bamerindus José Eduardo de Andrade Vieira acabara de investir no canal, que contratou como maior atração a jornalista Marília Gabriela, por US$ 1 milhão ao ano. No fim de 95, ele vendeu sua parte na televisão.

Empresário e deputado, José Carlos Martinez foi eleito pela primeira vez em 1983, pelo PDS. No mandato seguinte, já estava em outro partido: o PMDB. Ao falecer, em 2003, era presidente nacional do PTB. Após a sua morte, a televisão ficou sob o comando de seu irmão e sócio Flávio de Castro Martinez. Em agosto do ano passado, o empresário Nelson Tanure arrendou a rede, para criar a TV JB (Jornal do Brasil).
TELEVISÃO E POLÍTICA
Se no Brasil a transmissão do Pan-1995 foi bem limitada (a CNT cobria apenas Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília), em outros países do continente também houve problemas. O motivo foi a divergência entre duas empresas: a estatal ATC (Argentina Televisora Color) e a OIT (Organização Ibero-Americana de Televisão).

A OIT, normalmente responsável pelas transmissões internacionais, se irritou com a decisão do presidente Carlos Menem de passar, sem concorrência pública, os direitos de geração e transmissão para a emissora estatal. Como represália, a OIT ameaçou que quem negociasse com a ATC não poderia transmitir a Olimpíada de Atlanta-1996 e a Copa do Mundo de 1998, para as quais já detinha os direitos. Nesse cenário, só a CNT se arriscou com o Pan. Um processo contra a má gestão da transmissão do Pan pela ATC ainda tramita na Argentina.

Até nos jornais aquele Pan ficou em segundo plano, afinal, o palmeirense Edmundo decidiu agredir um cinegrafista no Equador na véspera da abertura do Pan. A novela com a possível prisão no exterior e a posterior volta ao Brasil do jogador atraiu mais atenção que as medalhas conquistadas em Mar Del Plata.

Na Bahia, porém, as publicações destacaram seu novo ídolo dos ringues. “Dei muitas entrevistas para jornais de lá, mas esperava bem mais divulgação no país”, se queixa Popó, que também reclamou de sua final. O combate foi polêmico e irritou os torcedores, que atiraram bolas de papel e latas no ringue. O boxeador demonstrou seu descontentamento depois de golpear o adversário várias vezes. “Ganhei os três assaltos. Estou me sentindo campeão”, afirmou o então adolescente de 19 anos.

O baiano, que se tornou profissional naquele mesmo 1995, só ganharia os holofotes em 1999, quando faturou o seu primeiro cinturão mundial. Outro personagem de Mar Del Plata precisou de mais dois anos para virar ídolo nacional.

Gustavo Kuerten, então com 18 anos, teve passagem rápida pelo saibro argentino, sendo eliminado na primeira rodada tanto em simples como em duplas. O juvenil Don Johnson (EUA) derrotou o brasileiro por duplo 6-3. Em duplas, Guga e João Zwetsch perderam os salvadorenhos para Miguel Meiz e Manuel Tejada por 7-5 e 6-2.

Guga era apenas o coadjuvante da equipe de Larri Passos. O técnico apostava suas fichas em outro tenista, Márcio Carlsson, que pelo menos chegou à segunda rodada, sendo eliminado pelo haitiano Bertrand Madsen. Em 1997, o cenário era totalmente diferente, com Guga conquistando o primeiro de seus três títulos em Roland Garros e virando o maior tenista da história do país.

Aos 20 anos, Fernando Scherer já começou sua trajetória em grande estilo, conquistando a primeira de suas sete medalhas de ouro em Pan-Americanos. Ele venceu os 50 m nado livre superando o recordista mundial da prova na época, o norte-americano Tom Jagger. Ainda foi ainda prata em dois revezamentos, 4x100 m e 4x200 m livre e levou o bronze nos 100 m nado livre.

“A divulgação na TV era bem menor. Mesmo assim, foi naquele Pan que eu me projetei”, lembra o nadador. Para se ter uma idéia do tamanho da cobertura do Pan de 95, a CNT enviou uma equipe de 15 pessoas para Mar del Plata. Três deles eram repórteres, apenas um especializado em esportes.

O jornalista Luís Henrique Gurian lembra que aquele foi um Pan “fraco”, com os países enviando suas equipes de terceiro escalão para as disputas. “Mas como éramos os únicos nas transmissões, rendeu”, diz. “Nós tínhamos uma parceria com a Sportv para a geração de sinal”, completa.

Atualmente, em eventos como as Olimpíadas e a Copa do Mundo, as grandes emissoras contam com centenas de funcionários no local da competição. “Naquela época, como a concorrência era pequena, o que a gente fizesse acabava sendo 100%. Agora é diferente, a expectativa do público é de uma cobertura extensa e hoje a concorrência está tanto nos canais a cabo como na TV aberta. Se não tivermos um diferencial, ficamos para trás”, compara o diretor de negócios da Sportv, Pedro Garcia.

O canal foi criado em 1995, para substituir a então Top Sports, que retransmitia programas internacionais e do Pan de Havana-1991 só passou uma retrospectiva. O Pan 2007 também marca uma nova etapa, pois será a primeira transmissão em parceria com a Rede Globo. “Temos de abrir mais dois canais, no mínimo, além dos que já estão no ar. O Pan se tornou uma Olimpíada para nós”, diz Garcia.

Os direitos de transmissão do Pan do Rio foram adquiridos por três canais abertos – Globo, Bandeirantes e Record. Além da Sportv, outros dois canais esportivos por assinatura, ESPN Brasil e BandSports, já asseguraram a transmissão.