UOL Esporte - Pan 2007
UOL BUSCA

Arte UOL

25/04/2007 - 09h00

Autodidata, única prata da Bolívia critica governo

Alexandre Sinato
Em São Paulo

Ele rompeu com uma história de 40 anos sem medalha do oitavo maior território das Américas. Ele conseguiu a melhor posição em um pódio esportivo até hoje do 14º país mais populoso do continente. E ele fez isso sem ter um técnico.

Verdadeiro autodidata, o boliviano William Arancibia superou inúmeras dificuldades para conquistar a única prata no Pan de 1991, em Havana. Um feito imenso para uma nação que nunca foi ao pódio olímpico e possui apenas três medalhas no Pan: essa prata, e dois bronzes conquistados em Santo Domingo-2003 (só para comparação o Brasil coleciona 187 ouros, 243 pratas e 337 bronzes pan-americanos). O fato revelador é que a Bolívia já foi a maior produtora mundial de prata e tem nesse metal sua maior façanha em Jogos Pan-Americanos.

"Meu país foi negligente comigo." O desabafo do lutador de taekwondo está bem longe da ladainha que os esportistas repetem antes de algum Pan ou Olimpíada, pedindo patrocínio. Afinal, ele foi para o Pan cubano sem treinador, médico ou dirigente. Depois da façanha em Havana-1991, teve que imigrar para a Espanha para poder evoluir na luta.

A Bolívia foi durante muito tempo o país mais pobre da América do Sul e só saiu dessa condição quando passou na década passada a exportar gás para os vizinhos. Mesmo com a melhora econômica, Arancibia se mostra pessimista quanto às chances de seu país repetir uma prata ou conseguir o primeiro ouro no Pan do Rio.

Insatisfeito com o governo de Evo Morales, o ex-lutador elogia a criação de um Ministério dos Esportes. Mas acha isso muito pouco por parte do presidente que ficou célebre por nacionalizar as jazidas exploradas pela Petrobrás. "O presidente lamentavelmente não é um bom líder até o momento. O esporte aqui está piorando cada vez mais. Não existe uma base de formação no esporte de alto rendimento. Talentos existem, mas não existe uma estrutura que ajude a fazer desse talento alguém competitivo."

ESPORTE CONDUZ EVO À POLÍTICA
EFE

Nome muito falado no Brasil após a polêmica da nacionalização do petróleo e do gás natural, Evo Morales (na foto acima) tem um lado pouco conhecido internacionalmente: nasceu no cenário político pelo esporte.

Em 1983, com 24 anos, Morales foi nomeado secretário de esportes do sindicato de produtores de coca a que pertencia. Sua paixão pelo futebol fez com que os demais integrantes da organização o escolhessem para a função e, indiretamente, iniciassem a vida política de um futuro presidente da república.

“Sempre que eu ia às reuniões levava uma bola de futebol para jogarmos nos intervalos ou em alguma outra sala. Com o passar do tempo, os cocaleros já não me chamavam de companheiro Evo, mas sim de ‘jovem boleiro’”, recordou Morales em entrevista a jornais locais.

Como outros políticos oriundos da classe popular, o presidente iniciou sua caminhada como sindicalista. Chegou ao comando da organização, assumiu outras instituições e se tornou deputado em 1997, com forte apoio dos cocaleros. Em 2005, deu seu maior passo ao se tornar presidente da república da Bolívia.
CONTRADIÇÃO NA TERRA DA PRATA
Atualmente trabalhando como executivo de uma cooperativa energética, ele acredita que apenas a iniciativa privada pode dar maior contribuição ao esporte. "Não creio que o Estado conseguirá fazer isso. Queria fazer algo assim", emenda. Arancibia vive em Santa Cruz de la Sierra, região em que há maior rejeição à administração esquerdista de Morales.

“As pessoas confiam em Morales porque sua eleição foi um repúdio a muitos anos de corrupção. Foi um voto de protesto. Mas ele tem adotado políticas que não darão certo”, sentencia o herói local.

Com 15 anos, Arancibia foi a seu primeiro Pan, Indianápolis-1987, onde colecionou derrotas. Mas em vez de se abalar, traçou um plano de vida que culminava com a conquista de uma medalha. Ele integrou no início de sua carreira um ousado projeto para os padrões bolivianos. O país "importou" o chileno Zenen Valenzuela com a missão de gerir um grupo de jovens atletas e formar campeões. No taekwondo, oito atletas (entre eles, Arancibia) foram escolhidos.

Os maus resultados no Pan de 1987 e, principalmente, a falta de incentivo financeiro fizeram Valenzuela retornar a seu país dois anos depois, em 1989. "Não havia ajuda econômica nenhuma, então o Valenzuela decidiu ir embora. Eu só tinha o apoio dos meus pais. Mas depois de tanto sacrifício, não me conformei que não iria cumprir meu sonho", recorda.

E foi assim, completamente sozinho que o boliviano partiu para Cuba, a delegação de taekwondo de um homem só. Nessa época, seu talento já resultara em dois títulos sul-americanos. No sorteio do Pan que o próprio atleta acompanhou, já que não havia quem o fizesse por ele, a chave o beneficiou, tirando os favoritos de Canadá, Estados Unidos e México do início de sua trajetória.

Traçado o caminho, Arancibia se deparou com outro problema. Sem companheiro ou técnico para treinar, já em território cubano, se viu em situação no mínimo inusitada. O local de treino destinado ao boliviano foi o mesmo ginásio em que se preparavam norte-americanos e canadenses.

Parado, com poucas opções de exercícios por estar sozinho, Arancibia despertou a atenção de um cubano que o observava. "Ele me ofereceu ajuda no treino. Enquanto isso, os canadenses e os americanos treinavam forte. Eu pensava: tenho que mostrar que não sou ruim. Foi quando me machuquei e me senti muito desamparado. Pensei que havia perdido a oportunidade de competir. Chorei bastante."

Foi aí que a sorte voltou. "Venha boliviano, não se preocupe. Os irmãos cubanos vão te ajudar", disse o cubano que o apoiara no treino, revelando neste momento ser o técnico da seleção local de taekwondo. Ele estava no ginásio para observar os adversários. "Ele me motivou muito, falou que eu tinha um grande talento e seria campeão. Fui levado para o hospital e fiquei uma semana fazendo fisioterapia, sem poder treinar", lembra.

Recuperado, Arancibia encarou seu segundo Pan. Derrotou adversários das Ilhas Virgens e do Uruguai até encontrar um mexicano. "Ele havia sido vice-campeão mundial pouco antes do Pan e era o favorito. Gastei todos meus cartuchos contra ele. Minha vitória causou grande repercussão, já que a prata estava garantida. Mexicanos e argentinos ofereceram todo tipo de ajuda e meus compatriotas estavam muito animados", relata.

Na final, porém, ele não teve forças para bater o cubano Ilsi Iriarte na briga pelo ouro. Com a medalha de prata no peito, Arancibia voltou à Bolívia com outro status. "Foi o dia mais feliz da minha vida." Ele não sabia, contudo, que a conquista pouco lhe ajudaria em busca de seu outro sonho: disputar uma Olimpíada.

Seu desempenho lhe rendeu uma bolsa em universidade espanhola, na Catalunha, onde passou a treinar com atletas de primeiro nível e a colher bons resultados. Na Olimpíada de 1992, em Barcelona, o taekwondo ainda não era uma modalidade oficial, mas esteve presente na condição de demonstração.

ARANCIBIA: HERÓI NO TAEKWONDO
Arquivo pessoal
Além de acabar com jejum de medalhas da Bolívia, Arancibia conquistou a única prata
Sem poder voltar para a América do Sul para disputar o qualificatório, Arancibia dependia de uma iniciativa da federação boliviana para obter um convite da organização espanhola. "Foi meu maior trauma, minha maior tristeza. Fui negligenciado pelo meu país. Havia mecanismos para conseguir o convite, mas eles nada fizeram porque não se tratava de um esporte olímpico ainda", diz o ex-lutador, com a voz embargada.

A frustração aumentou quando o boliviano viu a possibilidade de ser integrado ao time nacional espanhol rumo às Olimpíadas. O ciúme e a pressão dos locais, porém, também afastaram tal hipótese. A tristeza causada pela frustração olímpica culminou com sua decisão de deixar a modalidade de lado para se voltar aos estudos, formando-se administrador de empresas. No entanto, a paixão pelo taekwondo fez com que Arancibia, cerca de uma década depois, retomasse o sonho olímpico. Aos 33 anos, recuperado de problema pessoal (sua mulher se mudou para os EUA e levou a filha do casal), ele voltou a treinar visando os Jogos de Atenas de 2004. Perdeu quase dez quilos em três meses e alcançou resultado satisfatório para ter uma vaga.

Uma lesão no joelho, porém, o atrapalhou no Pré-Olímpico no México. Além de ficar sem a vaga, viu seu sofrimento aumentar pela saudade da filha. A competição, a princípio, seria realizada nos Estados Unidos. Perfeita oportunidade para conseguir o visto e rever a "herdeira". Porém, a mudança da sede frustrou seu plano. "Quando elas foram embora, fiquei um ano sem receber notícia alguma. Hoje, ela tem dez anos e há cinco não a vejo. É muito doloroso", complementa ele.